Usuários de Mounjaro, Ozempic e Wegovy têm risco de pancreatite? Veja o que se sabe sobre o alerta

Agência reguladora de medicamentos do Reino Unido emitiu alerta sobre o risco raro de pancreatite aguda, que já era conhecido e está em bula

2 fev 2026 - 15h19
(atualizado às 16h11)

A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde (MHRA) do Reino Unido (semelhante à Anvisa no Brasil) alertou sobre um risco raro de pancreatite aguda grave em pacientes que usam análogos de GLP-1 e/ou GIP, categoria em que estão a tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) e semaglutida (presente no Ozempic e no Wegovy).

A pancreatite aguda é uma inflamação do pâncreas que causa dor abdominal intensa, que pode irradiar para as costas e ser acompanhada de náuseas e vômitos, além de inchaço do abdômen. Este já é um efeito colateral conhecido, porém infrequente, do uso dessas medicações. Em alguns casos extremamente raros, as complicações da pancreatite aguda podem ser particularmente graves, incluindo pancreatite necrosante e fatal, segundo a agência reguladora.

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"A pancreatite pode ser difícil de reconhecer nos seus estágios iniciais, uma vez que os primeiros sintomas, como dor abdominal, náuseas ou vômitos, podem ser atribuídos a outras causas, tais como efeitos colaterais gastrointestinais comuns do tratamento com GLP-1 e GLP-1/GIP ou infecção", explica a agência.

Embora as canetas sejam consideradas seguras e eficazes para os usos autorizados, não estão isentas de riscos, como ocorre com qualquer tipo de medicamento. As indicações da semaglutida e tirzepatida são para o tratamento da diabetes tipo 2, de obesidade e de sobrepeso com comorbidades associadas.

"Quem toma análogos de GLP-1 deve estar atento aos sintomas de pancreatite grave e procurar atendimento médico urgente caso os apresente", alerta a MHRA. Se houver suspeita de pancreatite, deve-se suspender o uso do medicamento imediatamente.

No Reino Unido, entre 2007 e outubro de 2025, a MHRA recebeu 1.296 notificações de pancreatite associada a esses medicamentos, dos quais 19 casos foram fatais e 24 foram relatados como pancreatite necrosante. Uma pesquisa publicada recentemente pela University College London (UCL) estima que 1,6 milhão de adultos na Inglaterra, País de Gales e Escócia utilizaram semaglutida e tirzepatida para perda de peso entre o início de 2024 e o início de 2025.

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Os médicos afirmam que a pancreatite é um efeito colateral conhecido há bastante tempo, mas bastante raro. O endocrinologista Carlos Eduardo Couri, pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP), ressalta que, ao analisar os milhões de pacientes que utilizaram essas medicações no mundo ao longo dos últimos anos, o número de casos de pancreatite relatados é muito pequeno — especialmente aqueles com desfechos graves ou óbitos.

A endocrinologista Elaine Dias concorda e diz que os benefícios cardiovascular e metabólico dos medicamentos continua superando o risco para a maioria dos pacientes: "Apesar dos números absolutos assustarem, a incidência permanece na categoria de "incomum" a "muito rara" (estimada entre 0,1% a 1% dos usuários em alguns estudos, ou até menos em ensaios controlados). Portanto, os pacientes não precisam se preocupar."

"Esses alertas (como o feito pela MHRA) precisam ser interpretados com cautela e à luz do conjunto completo das evidências científicas, sem alarmismo", afirma Couri. "Até o momento, incluindo publicações recentes de janeiro de 2026, os dados mostram que não há aumento estatisticamente significativo do risco de pancreatite entre usuários de terapias baseadas em GLP-1 ou tirzepatida. Em alguns estudos anteriores, inclusive, observou-se uma redução no número de episódios de pancreatite entre pacientes tratados."

Pessoas com diabetes e obesidade já possuem maior risco de pancreatite, acrescentam os especialistas. "Pacientes que utilizam análogos de GLP-1 já possuem fatores de risco basais elevados para pancreatite, como obesidade, diabetes tipo 2 e, frequentemente, colelitíase (pelo próprio emagrecimento rápido)", explica Elaine. Na colelitíase, há formação de cálculos de vesícula biliar, que podem migrar e levar a um quadro de pancreatite.

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Por isso, ainda não é possível saber se há uma relação causal dos medicamentos com a doença ou se a relação se dá apenas porque o público-alvo desses medicamentos já é mais propício ao desenvolvimento da comorbidade.

"Esses medicamentos estão se popularizando, e muita gente utiliza sem indicação, para perda de peso por estética. Então, são medicamentos bons, mas, ainda assim, têm o seu perfil de risco-benefício. E existem efeitos colaterais raros, que podem ser graves, e nem todos eles são absolutamente conhecidos", comenta o endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e diretor do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem).

"Portanto, devem ser usados sob prescrição médica e com indicação clínica", reforça ele, que concorda que os estudos ainda não demonstraram uma relação causal entre essa classe de remédios e a pancreatite.

Como reconhecer

Muitos pacientes em uso dessas medicações podem apresentar desconforto abdominal leve ou náuseas, que não caracterizam pancreatite, ressalta Couri. "A pancreatite aguda é uma condição grave, com dor abdominal intensa, geralmente localizada na região superior do abdômen, irradiando para as costas em faixa, associada a náuseas, vômitos e alterações importantes nos exames de sangue e na tomografia abdominal", diferencia.

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Por isso, sintomas leves não devem levar à suspensão do tratamento sem antes conversar com o médico, que irá diferenciar efeitos colaterais comuns de situações que realmente exigem investigação e interrupção do medicamento, afirma o endocrinologista.

"Isso reforça o papel do médico no acompanhamento e na indicação desses medicamentos, que não podem ser utilizados para fins estéticos", acrescenta Paulo Rosenbaum, endocrinologista do Einstein Hospital Israelita.

Quem tem histórico de pancreatite pode usar?

Em pacientes com histórico de pancreatite, o uso desses medicamentos depende principalmente do fator que levou à doença. "Se a causa da pancreatite foi um cálculo de vesícula, e a vesícula foi retirada, o risco (das canetas causarem outra pancreatite) é menor. Se a causa da pancreatite foi triglicérides alto, esses remédios vão inclusive baixar (os triglicérides), então pode utilizar. Agora, se for uma pancreatite de causa desconhecida, aí o cuidado vai ser um pouco maior (usar semaglutida ou tirzepatida pode não ser indicado)", diz Halper.

"Pessoas com histórico de pancreatite foram excluídas dos estudos clínicos, então temos pouca evidência se o remédio seria seguro ou um fator de maior risco para uma nova pancreatite", acrescenta.

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Mas a conduta depende da visão do médico. Elaine diz que aqueles que tiveram pancreatite durante o uso de análogos de GLP-1 têm contraindicação absoluta e, para casos de pancreatite por outro motivo, ela prefere evitar o uso. "A cautela ainda é recomendada na bula e eu, na minha prática clínica, não indico. Faço outras estratégias de tratamento para obesidade e diabetes tipo 2?, diz.

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