Embora governos debatam a proibição de redes sociais para menores de 16 anos visando proteger sua saúde mental, pesquisadores da Universidade da Califórnia alertam que faltam evidências científicas que comprovem essa eficácia em jovens. Estudos em adultos mostram impactos nulos ou até negativos do afastamento. Além disso, a medida pode ser contraproducente, trazendo riscos de invasão de privacidade, perda de canais de comunicação vitais e incentivo ao uso clandestino sem filtros de segurança.
28 de outubro de 2026 (Bibliomed). Em dezembro de 2025, a Austrália proibiu jovens menores de 16 anos de terem contas em redes sociais. Outros países estão seguindo o mesmo caminho, partindo o princípio de que o afastamento das redes sociais melhora a saúde mental dos jovens.
No entanto, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine, nos Estados Unidos, ressaltam que não é possível afirmar que este afastamento promoverá os resultados de saúde mental esperados, porque a questão nunca foi estudada.
Segundo os pesquisadores, em experimentos que testam os efeitos da restrição das redes sociais no bem-estar, designam aleatoriamente pessoas para pelo menos dois grupos: um que deixa de usar as redes sociais por um tempo e outro que serve como grupo de controle ou comparação, continuando a usar as redes sociais normalmente. Dada a força das afirmações dos defensores da proibição, os pesquisadores estavam curiosos para saber quão robustas eram as evidências experimentais que apoiavam sua posição. Para o novo estudo, coletaram e revisaram todos os experimentos que testaram se a restrição das redes sociais melhora o bem-estar e ficaram surpresos com o que descobriram: nenhum experimento de restrição de redes sociais incluiu pessoas com menos de 16 anos. Não se sabe como as proibições de redes sociais afetarão os jovens que são alvo delas, porque nunca testaram isso com eles.
Às vezes, evidências robustas em adultos justificam a extrapolação das mesmas conclusões para adolescentes. Mas mesmo essa extrapolação não se justifica neste caso. Os experimentos com adultos mostram efeitos fracos, nulos e mistos, com 40% dos estudos experimentais demonstrando efeitos nocivos (como diminuição da satisfação com a vida e aumento da solidão) ou nenhum efeito da restrição do uso de redes sociais. Portanto, mesmo quando adultos são repetidamente informados de que as redes sociais fazem mal à saúde mental e que abandoná-las trará benefícios, constata-se, em média, poucos ou nenhum benefício.
Há também bons motivos para acreditar que as proibições podem ser contraproducentes. Em primeiro lugar, a aplicação de uma proibição de jovens nas redes sociais levanta sérias preocupações éticas. Os esforços de fiscalização invadem a privacidade das pessoas e provavelmente prejudicam mais as pessoas marginalizadas. Por exemplo, a tecnologia que determina a idade com base em selfies publicadas comete mais erros com rostos jovens e pessoas negras. Os jovens banidos também podem perder recursos e comunicações importantes disponibilizados pelas redes sociais, já que escolas, clubes e a maioria das outras organizações voltadas para jovens utilizam as redes sociais como principal forma de comunicação.
O que acontece quando os esforços de fiscalização falham? Muitos jovens burlarão as proibições criando contas falsas de "adultos" ou navegando anonimamente. Eles manterão o acesso às redes sociais sem nenhum dos benefícios dos controles parentais ou filtros de conteúdo ativados pelas contas juvenis. A grande maioria dos jovens se opõe às proibições de redes sociais para jovens, e os adolescentes são conhecidos por desafiar ordens impostas de cima para baixo que ignoram suas necessidades. Terão mais conflitos entre adolescentes e responsáveis, não menos.
Fonte: Frontiers in Developmental Psychology. DOI: 10.3389/fdpys.2026.1805989.