A derrota de um candidato causa impactos emocionais profundos e duradouros em seus eleitores, gerando mais tristeza do que a vitória traz felicidade aos vencedores. Segundo o professor Andre Spicer, a frustração é ampliada por altas expectativas e pelo consumo excessivo de notícias no pós-eleição, o que pode abalar a confiança nas instituições. Para superar o luto político, especialistas sugerem reduzir a exposição à mídia e refletir sobre a perda antes de abraçar novas causas.
Uma eleição termina quando o resultado é confirmado, mas a reação emocional de quem apoiou o lado derrotado pode durar bem mais. Para pessoas que criaram forte identificação com um candidato ou partido, o dia seguinte tende a trazer frustração, tristeza e até dificuldade para se afastar das discussões políticas.
O efeito, contudo, não se resume a uma simples insatisfação por ter perdido. Pesquisas reunidas por Andre Spicer, professor de Comportamento Organizacional da City St George's, Universidade de Londres, indicam que o envolvimento político pode influenciar o emocional depois das urnas.
"Os apoiadores do partido que vence a eleição tendem a ficar mais felizes. No entanto, esse aumento no nível de felicidade costuma ser pequeno. Em contrapartida, aqueles que apoiaram o partido derrotado sofrem um impacto muito maior em seu bem-estar", explicou em um artigo publicado no 'The Conversation'.
Por que perder uma eleição pode afetar tanto?
Uma das explicações para os efeitos das eleições na saúde mental está na forma como as pessoas processam perdas. De acordo com Spicer, estudos da psicologia mostram que acontecimentos negativos costumam produzir uma reação emocional mais intensa do que ganhos de proporção semelhante.
Esse desequilíbrio apareceu em uma análise da eleição presidencial dos Estados Unidos de 2016. Cerca de seis meses depois da disputa, o aumento de felicidade percebido entre eleitores de Donald Trump já havia desaparecido. Entre apoiadores de Hillary Clinton, porém, o cenário era diferente: os níveis de felicidade permaneciam abaixo daqueles registrados antes da eleição.
Outro estudo, realizado no Japão em 2015, apontou uma variável importante para entender essas reações: a expectativa criada antes da votação. Pessoas que esperavam um desempenho muito melhor de seu candidato sofreram mais com o resultado. "Isso sugere que, quanto maior a esperança, maior a queda", apontou Spicer.
Consumo excessivo de notícias pode pesar
Ademais, a maneira como alguém acompanha o pós-eleição também pode interferir na recuperação emocional. No estudo sobre a disputa americana de 2016 citado pelo especialista, os piores resultados de bem-estar entre os apoiadores derrotados apareceram justamente entre aqueles que dedicavam mais tempo ao consumo de mídia.
Isso não significa abandonar as notícias nem deixar de acompanhar a política. O cuidado está em perceber quando a busca por informação vira exposição contínua a discussões, análises e conteúdos que mantêm a mesma frustração ativa. Nesse caso, reduzir temporariamente o fluxo de informações políticas pode ajudar a criar distância emocional sem exigir que a pessoa deixe de se informar.
A derrota também pode mudar a forma de enxergar a política
De acordo com o estudioso, uma decepção eleitoral pode ultrapassar o humor momentâneo. Quando existe forte identificação com um candidato, Spicer apontou que algumas pessoas passam a questionar a legitimidade do processo político ou a confiar menos nas instituições.
Esse sentimento ainda pode levar à procura de outras maneiras de participação social. O problema surge quando uma nova causa serve apenas para substituir rapidamente a expectativa frustrada, sem que a pessoa compreenda o que a derrota representou para ela. É nesse ponto que o especialista recupera as reflexões do sociólogo e psicanalista Iain Craib sobre a maneira como lidamos com decepções.
Como seguir em frente após o resultado?
Para Craib, simplesmente fugir da frustração pode alimentar um ciclo em que uma expectativa frustrada é imediatamente substituída por outra. O caminho proposto é diferente: observar a própria reação e tentar compreender o que ela revela.
"É necessário questionar o que elas nos revelam sobre quem somos, o que valorizamos e o que podemos mudar. Segundo Craib, ao abordar essa questão com seriedade, é possível transformar a decepção da derrota em uma oportunidade para refletir, reajustar-se à nova realidade e, finalmente, seguir em frente", orientou o especialista.