O que aprendi fazendo 30 dias seguidos de ioga no outono paulistano

Uma editora da BBC fez um teste para saber o que acontece quando uma mente ansiosa tenta seguir instruções simples de movimento e respiração para descansar o fogo da cabeça por um mês inteiro.

19 jun 2026 - 19h04
(atualizado às 19h44)
Talvez essa fosse exatamente a sensação que buscava naquela aula e em todas de ioga que venho fazendo há alguns anos: a libertação, mesmo que efêmera, de um estado de prontidão.
Talvez essa fosse exatamente a sensação que buscava naquela aula e em todas de ioga que venho fazendo há alguns anos: a libertação, mesmo que efêmera, de um estado de prontidão.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Quando a professora anunciou que ia apagar algumas das luzes da sala, eu senti o alívio de quem tinha chegado no limite do atraso, mãos frias do maio gelado paulistano no lado de fora. A partir dali, poderia cair meu filho na escola ou cair o governo de Cuba, e eu só saberia depois do savasana.

Talvez essa fosse exatamente a sensação que mais buscava naquela aula e em todas de ioga que venho fazendo há alguns anos: a libertação, mesmo que efêmera, de um estado de prontidão.

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Essa libertação é ansiada por motivos óbvios para mim, uma mulher 40+ nessa metrópole relaxante, e editora na BBC News Brasil num país e num mundo em que se morre de tudo, menos de tédio.

Mas esse estado mental não dura nem perto de 60 minutos, no meu caso. São só alguns instantes, no meio do todo, em que uma postura ou outra funciona como uma rédea, forçando corpo e pensamentos a andar numa mesma linha.

No mais, eu sigo sendo um cartoon que vi na revista New Yorker, no qual uma mulher coloca a roupa para lavar mentalmente enquanto deitada no tapetinho no savasana (o momento de "entrega" final da ioga, deitado, "quando o seu corpo recebe todos os benefícios da prática").

Palavras como "entrega" merecem minhas aspas. Mesmo depois desses anos, minha aproximação da ioga é desconfiada, ou tenta ser.

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O humor e o cinismo foram sempre meu escudo para não soar ingênua, para não ser enrolada pela vida, para não ser enrolada pelos meus sentimentos.

Como fica tudo isso se eu simplesmente virar new age da ioga?

Eu sei como fica. No emaranhado que sou eu: fazedora de promessa a meu santo e com boletos suficientes pagos em psicanálise (e alguns de mapa astral). A mesma pessoa que se pergunta: isso que insiste na minha cabeça é intuição ou é neurose?

Que outra questão estou querendo resolver me jogando nessa nova onda de ioga?

'Vai ser transformador'

Fiz 30 aulas seguidas de ioga, sem pausa. Aconteceu de tudo, como sempre. Passaram cavalos negros, Casa Branca, uma permanência recorde numa posição de equilíbrio, chuva, a manhã mais fria do ano do outono em São Paulo, afonia, gripe.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A pergunta já me acompanhava, mas foi irresistível quando o professor Lucas disse, no final de uma aula, que seria "transformador" fazer 30 dias seguidos de ioga — de hot yoga, no meu caso, aquela em que os participantes se alongam e se concentram numa sala aquecida. Era o mês do desafio da casa tradicional na rua Mourato Coelho, no bairro de Pinheiros: fazer 30 dias de aula. Seguidos.

Vamos lá, 30 dias, independentemente das notícias, da gangorra hormonal, da chuva, do frio de maio. Vamos lá, 30 dias.

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Lembrei do escritor francês Emmanuel Carrère, que começa seu maravilhoso livro Ioga num retiro de 10 dias de meditação desfiando os conceitos e pensando como escrever um livro sobre... ioga. A vida tinha outros planos para ele.

Eu também queria escrever sobre ioga.

Atravessei os 30 dias, pois bem. Aconteceu de tudo, como sempre, no noticiário. Passaram cavalos negros, Casa Branca, uma permanência recorde numa posição de equilíbrio, a manhã mais fria do ano, afonia, gripe.

Atravessei os 30 dias. E só depois revisitei o Ioga, do Carrère:

"A ioga diz que nós somos outra coisa além do nosso pequeno eu confuso, fragmentado, amedrontado, e que nós podemos acessar essa outra coisa. Trata-se de um caminho, outros o tomaram antes de nós e o indicam. Se o que eles dizem é verdade, vale a pena irmos até lá e conferirmos nós mesmos."

Vale a pena conferir por nós mesmos. E talvez você esbarre com um convite para tal neste fim de semana: 21 de junho é o Dia Internacional da Yoga.

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Vale mais fazer do que ler sobre ioga.

E tentar é fazer, como repetem na Mourato Coelho. E essa foi a primeira coisa que aprendi (e reaprendi) nesses 30 dias de hot yoga, na sala aquecida. Se nunca tentou a modalidade, diria para dar uma chance, até "bater". Pode também não bater nunca: haverá suor seu e alheio envolvido, e às vezes penso que não é para todo mundo — que meu marido, por exemplo, sentiria impulso de ligar para a Anvisa.

A outra coisa que aprendi é que o savasana me dá ainda mais vontade de tomar Coca-Cola zero (depois do cházinho em comunidade, no copo baixo de vidro na sala da recepção).

Também tive convicção de que essa coisa de gameficação, de desafio, funciona. Ficar 10 dias num retiro ou fazer 30 dias de yoga tem algo anti-ioga, de doutrina da "superação"?

Tem um pouco. É a mesma força de quem faz Duolingo às 23h55 para não perder a "ofensiva".

Funciona como uma liberação mental: não tem que pensar, só vai.

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'A ioga diz que nós somos outra coisa além do nosso pequeno eu confuso', diz o escritor francês Emmanuel Carrère, no livro 'Ioga'
Foto: Divulgação / BBC News Brasil

Músculos fluorescentes? O mais próximo de meditação que já cheguei

Não precisa pensar, siga as instruções: as mãos vão acima da cabeça, braços esticados, aproxime as palmas e cruze os polegares, apenas. Tula dandasana, o "bastão em equilíbrio" (eu adoro os nomes, poéticos, pensar que eles atravessaram tanto até chegar à minha sala aquecida na Mourato).

A perna direita, estendida, dá um passo grande adiante, o tronco inclina-se para frente, braços e mãos seguem o tronco. A perna esquerda sobe atrás e você fica o mais parecido com um T que conseguir.

Pode ser que você faça um T capenga, e nada aconteça, e tudo bem. E pode ser que aquele T ganhe uma tensão.

É como num filme da Marvel. O cientista aplica uma substância no corpo, e ela vai desenhando um caminho fluorescente nos feixes de músculos.

Você lembra de que eles, os músculos, estão lá. Você pensa na sua canela e na ponta do seu dedo da mão, e não pensa que tem que botar roupa para lavar.

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Eu, que sempre me achei ansiosa demais para fazer ioga, estou lá agradecida por reconhecer um feixe de músculos e por descansar o fogo da minha cabeça.

Estou lá agradecida também por acompanhar uma gota de suor nascer no couro cabeludo e ganhar velocidade até o chão. É o mais próximo da meditação a que já cheguei.

Em outros momentos, o efeito dos movimentos é menos sutil. No camelo, (ustrasana, ustra é camelo em sânscrito), você fica de joelhos, tronco ereto e começa a curvar para trás, enquanto lança seus braços e forma um arco quando suas mãos pegam os calcanhares.

A curva é para lembrar uma corcova, entendido, e o resultado é que você reduz o espaço da garganta e obriga os alvéolos dianteiros dos seus pulmões a trabalharem mais.

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Quando mais eu teria oportunidade de pensar nos meus alvéolos dianteiros cheios de ar?

Ao fim do esforço, deita-se de costas. E, como bem diz o professor Djully, "dá um barato". Dá mesmo. Uma onda quente corre sob meu osso esterno, nem de todo agradável, mas eu a vejo, eu a acompanho.

O que aprendi nestes 30 dias é que você pode esperar pelo camelo, que o moto contínuo (só ir, sem pensar), existe.

Em 30 dias, topei também com a ideia clássica da yoga e da meditação de que nenhum um dia é igual ao anterior. As tais flutuações da vida.

É como escanear seu estado mental e, por consequência, corporal (de novo, essa imagem equestre do Carrère, com um arreio segurando corpo e pensamentos).

Quanto tempo demora para "bater", para seus pensamentos agitados cederem um pouco e você conseguir sustentar uma postura? Ontem mais, antes de ontem menos.

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Vi isso em mim, escuto nos comentários do vestiário.

Carrére fala algo assim também: "Em alguns dias é um prazer, em outros é insuportável. Nada funciona. O corpo todo reclama, resiste à imobilidade, não percebe mais sequer um dos seus equilíbrios tensos, delicados, que é tão prazeroso observar".

Algumas aulas no meio da jornada foram sofridas, o corpo cansado, os efeitos da expectativa no corpo da menstruação que vem depois de dias e dias de aviso prévio. A ioga me dava um tempo de auto-observação e, com sorte, um espaço antes da reação, mas definitivamente não iria equalizar meus humores.

A última aula da sequência foi intensa, concentrada, mas eu não saí como uma pluma flanando pelas ruas, livre de ansiedade. Foi transformador, verdade, mas não porque me ofereceu soluções.

Nestes 30 dias, soube de novo que não é sempre que eu consigo me ouvir, nem sequer num lugar gentil como meu centro de ioga.

Por mais que me repetissem: navegue os 30 dias, diminua o ritmo nas aulas, e eu me jogava. Fui quando caí afônica, fui muito gripada (provavelmente uma imprudência para uma sala fechada) simplesmente porque não aguentei a frustração de não terminar os 30 dias. Tudo por uma camiseta que dizia: desafio 30 dias.

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Está aí talvez a parte que pode ser funesta da gameficação do "desafio". A ideia de vencer, de terminar, no meu caso, certamente atropelou outros equilíbrios. "Faz o que o corpo te convida a fazer hoje", dizia a voz suave do professor Cris. Se eu tivesse escutado, eu teria ficado no edredom.

Se eu não consigo ser gentil comigo mesma nem na aula de ioga, onde?

Anotado.

Em alguns momentos da aula de ioga, é como num filme da Marvel. O cientista aplica uma substância no corpo e ela vai desenhando um caminho fluorescente nos feixes de músculos. Você lembra de que eles, os músculos, estão lá
Foto: Marvel Studios / BBC News Brasil

'Que você tenha um dia livre de medo'

Todo final de aula eu me agradeço "pelos meus esforços", por estar ali, porque faz sentido para mim ("se agradeça, se fizer sentido para você", sugerem os professores, talvez se precavendo de acharem eles muito new age).

E deitada no tapete, no savasana, ora olho para as ferragens do exaustor, ora lembro algo que meu filho falou na garupa da bicicleta antes da aula.

Às vezes lembro de desejar que a Tamilis ou o Lucas ou a Luna, alguns dos professores da yoga, além da Paula, da recepção, tenham um dia livre de medo, não tenham um instante sequer de ansiedade.

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Aprendi a desejar que as pessoas tenham dias livres de medo em uma aula online de meditação durante a pandemia. Achei bonito.

Esse desejo para eles, no savasana, é para mim como uma reza. Não é a certeza de que depois dali vou recuar antes de ser rude, mas é a intenção da gentileza, primeiro no dia deles, depois, se eu tiver sorte, no meu dia. E qualquer gentileza é um descanso.

Aprendi mais claramente nestes 30 dias que a sala de yoga na rua Mourato Coelho em São Paulo me oferece essa possibilidade de, nos dias bons, também rezar um pouco.

Que vocês também tenham um dia livre de medo hoje.

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