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O que acontece com o nosso cérebro quando jogamos videogame? Cientistas respondem!

Estudos mostram que videogames ativam múltiplas redes neurais ao mesmo tempo, estimulam atenção, memória e emoção - e explicam por que é tão difícil largar o controle

16 jan 2026 - 08h10

A sensação de que o cérebro "ferve" durante uma partida intensa de videogame não é exagero - é neurociência. Pesquisas recentes mostram que, ao jogar, o cérebro entra em um estado de ativação raro no dia a dia, combinando foco extremo, emoção constante e decisões em altíssima velocidade. Esse combo ajuda a explicar tanto o fascínio pelos games quanto seus possíveis efeitos positivos (e os cuidados necessários).

Pesquisas revelam como o videogame impacta o cérebro, com efeitos que vão do treino cognitivo ao risco de sobrecarga quando há excesso
Pesquisas revelam como o videogame impacta o cérebro, com efeitos que vão do treino cognitivo ao risco de sobrecarga quando há excesso
Foto: Reprodução: Canva/Pressmaster / Bons Fluidos

O que acontece no cérebro enquanto jogamos

Um estudo conduzido pelo Salk Institute for Biological Studies, em Los Angeles, acompanhou a atividade cerebral de cerca de 200 voluntários enquanto jogavam Flappy Bird. Os registros mostraram atenção sustentada por longos períodos, ativação simultânea de diferentes redes neurais e respostas quase instantâneas a estímulos visuais.

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Durante o jogo, o cérebro processa percepção espacial, memória de curto prazo e carga emocional ao mesmo tempo. Esse estado cria um envolvimento intenso, que ajuda a entender por que "só mais uma partida" vira facilmente uma hora a mais.

O cérebro reage como se fosse vida real

Um dos achados curiosos foi a identificação de uma assinatura neural chamada P300-CE, associada à reação diante do inesperado. Ela aparecia sempre que o jogador errava ou avançava no jogo, mesmo sabendo que aquilo não teria consequências reais. Em outras palavras, o cérebro reage como se o desafio fosse concreto, ativando surpresa, excitação e expectativa a cada tentativa.

Jogar pode ser treino mental

Nos últimos anos, diferentes estudos têm mostrado que videogames, quando usados com moderação, podem favorecer habilidades cognitivas. Pesquisas indicam melhora na tomada de decisão, na atenção seletiva e na percepção visual. Há ainda evidências de aumento de substância cinzenta em áreas ligadas à memória e à visão, como o hipocampo e o córtex visual. Trabalhos liderados por Ian Spence, da University of Toronto, sugerem que jogos de ação, mesmo por períodos relativamente curtos, já são capazes de modificar padrões de atividade cerebral relacionados à atenção visual.

E quando falamos em TDAH?

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade é hoje entendido como uma neurodivergência, o que significa que os efeitos dos jogos não são iguais para todos. Ainda assim, há evidências de que games podem ajudar a melhorar foco, atenção e algumas habilidades psicomotoras em pessoas com TDAH.

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Por outro lado, o risco de hiperfoco, dificuldade de desligar e prejuízo no sono também existe - especialmente quando não há limites claros. Os jogos não causam TDAH, nem o agravam diretamente, mas podem intensificar dificuldades de organização do tempo se usados sem acompanhamento.

Neuroplasticidade: o cérebro aprende jogando

Desde os anos 1980, a neurociência investiga como os games reorganizam circuitos cerebrais. Estudos clássicos com jogadores de Tetris mostraram que, à medida que a habilidade aumenta, algumas áreas do cérebro passam a trabalhar com menos esforço - sinal de maior eficiência neural.

Revisões científicas publicadas em revistas como Brain Sciences indicam que videogames podem alterar tanto o funcionamento quanto a estrutura cerebral, fenômeno conhecido como neuroplasticidade. "Os jogos eletrônicos afetam a estrutura e o funcionamento do cérebro, dependendo de como são jogados", descrevem os autores.

Nem vilão, nem herói

Os impactos do videogame varia conforme o tipo de jogo, o tempo de exposição e a idade do jogador. Jogos de ação costumam estimular reflexos e velocidade de decisão; os de estratégia trabalham planejamento e memória; já os criativos favorecem pensamento sistêmico e imaginação. O uso excessivo, porém, está associado a riscos como distúrbios do sono, sedentarismo, isolamento social e sintomas de ansiedade ou depressão. Por isso, o consenso atual é equilíbrio.

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Para muitas pessoas, jogar é uma forma eficaz de aliviar o estresse e "desligar" das preocupações. Estudos recentes apontam que o uso moderado pode melhorar o humor e até reduzir sintomas depressivos. Ao mesmo tempo, sessões longas e sem pausas tendem a gerar fadiga mental.

No fim das contas, o videogame funciona como um amplificador: potencializa habilidades, emoções e padrões que já existem. Usado com consciência, pode ser estímulo cognitivo e lazer. Sem limites, pode virar sobrecarga. Talvez a melhor leitura da ciência seja essa: o videogame não muda quem você é - mas mostra, com clareza, como o seu cérebro responde a desafios, recompensas e emoções intensas.

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