Viver mais de 100 anos ainda é um feito raro, mas a ciência segue tentando responder uma pergunta que desperta curiosidade há décadas: afinal, existe um limite para a vida humana? Um estudo sobre longevidade publicado na revista científica npj Aging sugere que sim.
Com base em um modelo matemático, pesquisadores estimaram que, em condições ideais, a expectativa máxima de vida poderia chegar a cerca de 156 anos. A descoberta ajuda a entender quais processos do envelhecimento realmente limitam nossa longevidade - e reforça que viver mais não depende apenas de eliminar doenças.
O que impede o ser humano de viver indefinidamente?
Segundo os pesquisadores, um dos principais obstáculos está no acúmulo de mutações somáticas, alterações aleatórias que acontecem no DNA das células ao longo da vida. Essas mudanças se acumulam naturalmente com o envelhecimento e comprometem, aos poucos, o funcionamento dos tecidos e órgãos.
Para chegar à estimativa de 156 anos, os cientistas criaram um modelo matemático que simulou um cenário hipotético em que diversos fatores reversíveis do envelhecimento fossem eliminados, restando apenas os efeitos provocados por essas mutações.
"Quando todas as outras causas de envelhecimento são eliminadas, as mutações somáticas por si só reduzem a expectativa de vida mediana teórica de 1.759 anos (para um hipotético organismo humano não envelhecido) para 156 anos", explicou Evgeny Efimov, um dos autores do estudo.
Nem todos os órgãos envelhecem da mesma forma
Um dos achados mais interessantes da pesquisa foi a diferença observada entre os tecidos do corpo. Enquanto órgãos como o fígado conseguem renovar suas células continuamente, amenizando parte dos danos causados pelo envelhecimento, outros tecidos possuem capacidade muito limitada de regeneração.
É o caso dos neurônios e dos cardiomiócitos - células do cérebro e do músculo cardíaco -, que praticamente não se dividem ao longo da vida. Segundo os pesquisadores, justamente esses tecidos representam um dos principais fatores que limitam a longevidade humana.
Isso significa que viveremos até 156 anos?
Ainda não. A estimativa representa um limite teórico calculado em um cenário extremamente idealizado, no qual diversas causas do envelhecimento seriam controladas. Na prática, isso está muito distante da realidade.
Atualmente, a pessoa mais longeva já registrada foi a francesa Jeanne Calment, que morreu em 1997 aos 122 anos. Além disso, especialistas lembram que, com o conhecimento científico disponível hoje, não existem evidências de que seja possível fazer seres humanos viverem 150 anos ou mais em um futuro próximo.
Pesquisas recentes indicam, inclusive, que a expectativa média de vida da população mundial deve continuar aumentando nas próximas décadas, mas de forma muito mais modesta.
O foco da ciência está mudando
Mais do que ampliar o número de anos vividos, pesquisadores defendem que o grande desafio é aumentar o tempo de vida com saúde e autonomia. Isso significa retardar o aparecimento de doenças crônicas, preservar a capacidade física e cognitiva e garantir qualidade de vida durante o envelhecimento.
Nesse contexto, a biotecnologia tem despertado grande interesse. Estudos investigam novas terapias capazes de retardar o envelhecimento celular, desenvolver tratamentos para doenças neurodegenerativas e aprimorar o combate a enfermidades como câncer, Alzheimer e demências.
Apesar dos avanços, essas pesquisas ainda estão em desenvolvimento e não significam que a longevidade humana possa ampliar-se de forma tão expressiva nas próximas décadas.
O que realmente ajuda a viver mais?
Embora a ciência continue investigando os mecanismos do envelhecimento, já conhecemos algumas que favorecem uma vida mais longa e saudável. Entre elas, estão: praticar atividade física regularmente; manter uma alimentação equilibrada; dormir bem; não fumar; evitar o consumo excessivo de álcool; controlar doenças crônicas, como diabetes e hipertensão; cuidar da saúde mental; realizar acompanhamento médico periódico.
Estudos com centenários também mostram que fatores como genética, ambiente, acesso aos serviços de saúde e hábitos de vida exercem papel importante na longevidade. No fim, a principal mensagem dos especialistas permanece a mesma: mais importante do que aumentar o número de aniversários é garantir que esses anos extras sejam vividos com independência, bem-estar e qualidade de vida.