Quem convive com gatos costuma tentar decifrar os significados por trás de atitudes curiosas dos animais. Um dos comportamentos que mais geram dúvidas são as lambidas nos tutores, feitas com a língua áspera característica dos felinos. Diferentemente dos cães, os gatos não são conhecidos por demonstrações explícitas de carinho, o que faz o gesto parecer, para alguns, afetuoso e, para outros, apenas estranho. A ciência, no entanto, ajuda a entender o que está por trás disso.
As lambidas em outros gatos
A lambedura faz parte do processo natural de higiene dos felinos e também está ligada à forma como eles aprendem a se relacionar desde cedo. "Quando uma mãe lambe seus bebês, isso cumpre duas funções importantes: mantê-los limpos e promover vínculos sociais", explica Kristyn Vitale, especialista em comportamento animal da Maueyes Cat Science and Education, em entrevista à Popular Science.
Segundo a especialista, esse tipo de contato está entre as primeiras formas de interação social vivenciadas pelos filhotes. "É essencialmente uma forma de a mãe dizer: 'eu te amo e cuido de você'", afirma. Além da limpeza, o comportamento contribui para fortalecer a ligação emocional entre mãe e filhote.
Com o passar do tempo, geralmente a partir da quarta semana de vida, os gatos aprendem a se limpar sozinhos. Mesmo assim, alguns passam a repetir o cuidado recebido, lambendo irmãos, outros felinos da casa e, em certas situações, pessoas. Esse tipo de comportamento encontra paralelo em hábitos humanos, como quando crianças penteiam o cabelo umas das outras para demonstrar carinho, reproduzindo aprendizados adquiridos com os pais.
"Gatos que se lambem mutuamente costumam ser chamados de 'associados preferidos'. É um comportamento social importante para reforçar laços", diz Vitale. O padrão também é observado em espécies selvagens, embora, nesses casos, a organização social seja menos estruturada, o que limita esse tipo de interação. "Vemos mães lambendo seus filhotes para mantê-los limpos e fortalecer a conexão", afirma.
Humanos são vistos como parte do grupo?
A transferência desse comportamento para humanos pode ocorrer quando o gato inclui o tutor em seu círculo social. Para Vitale, a lambida pode ser apenas a extensão de um hábito social aprendido. "Quando meu gato me lambe, eu vejo isso como ele se engajando em um comportamento social comigo, fortalecendo nossa relação", relata. "Na minha cabeça, eles estão de bom humor e querem interagir."
A especialista ressalta, no entanto, que nem todos os gatos expressam vínculo da mesma forma. "Lamber é apenas um dos comportamentos sociais possíveis", pontua. "Se o gato senta no seu colo, fica por perto, se esfrega em você ou brinca, tudo isso também demonstra vínculo."
Outras possíveis explicações
O comportamento também pode ter motivações menos associadas ao afeto. Para o psicólogo animal David Sands, doutor em etologia pela Universidade de Liverpool, uma das hipóteses é a chamada 'teoria da confiança'.
"Esse tipo de lambida é semelhante a um comportamento entre gatos conhecido como alogrooming, ou higiene mútua", explica Sands. "Gatos adultos só lambem outros gatos em quem confiam e que não veem como competição. Esse comportamento pode ser transferido para humanos", acrescenta. Ainda assim, Sands pondera que isso não deve ser interpretado como um grande sinal de apego. "Não é um sinal positivo de apego. É apenas um sinal de que você não é visto como uma ameaça", afirma.
Outras teorias apontam para o interesse químico, já que os gatos possuem paladar sensível e podem estar investigando odores presentes na pele humana, como sal, cosméticos ou resíduos de alimentos. "Lamber permite que eles coletem informações químicas", diz Sands.
Há também a chamada 'teoria da posse'. "Gatos são verdadeiras máquinas de cheiro", afirma o especialista. "Quando eles lambem ou se esfregam em pessoas, muitas vezes estão removendo outros odores e substituindo pelo próprio. É uma forma de marcar território." Segundo ele, esse comportamento está ligado ao instinto territorial dos felinos.
O gato cria vínculo com humanos?
Apesar das diferentes interpretações, pesquisas indicam que os gatos desenvolvem, sim, laços emocionais com pessoas. Um estudo publicado em 2019 por Kristyn Vitale mostrou que os felinos apresentam padrões de apego semelhantes aos dos cães. Em ambientes desconhecidos, animais classificados com "apego seguro" demonstraram menos sinais de estresse quando estavam com seus tutores.
"Nossos resultados indicam que, quando os gatos vivem em estado de dependência de um humano, esse comportamento de apego é flexível, e a maioria usa os humanos como fonte de conforto", escreveu Vitale no estudo. Com isso, é possível entender que a lambida pode representar carinho, confiança, curiosidade ou até marcação. A ausência desse comportamento, porém, não significa falta de afeto. Como lembra a especialista, "os gatos demonstram amor de muitas formas diferentes — a lambida é apenas uma delas".