Um ex-aluno da Universidade de São Paulo (USP) conquistou um dos principais prêmios internacionais de inovação ao desenvolver uma plataforma de inteligência artificial voltada ao apoio de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e síndrome de Down.
A ferramenta, chamada Jade, utiliza jogos digitais para mapear funções cognitivas e auxiliar profissionais da saúde e da educação no acompanhamento individualizado de crianças. Criada por Ronaldo Cohin, de 42 anos, a tecnologia foi vencedora do Zayed Sustainability Prize, premiação global entregue no dia 14 de janeiro, em Abu Dhabi, que reconhece soluções inovadoras com impacto social.
Da música ao universo da tecnologia
Natural do Espírito Santo, Cohin teve uma trajetória conhecida no cenário musical brasileiro nos anos 2000. Ele integrou a banda de rock Rajar, que chegou a abrir shows para artistas internacionais, se apresentou em grandes festivais e participou de programas de televisão. "A única banda de rock do Espírito Santo a conquistar tal feito", diz ela à Folha de S.Paulo.
Com a perda de espaço do rock nacional a partir do fim da década de 2010, Ronaldo decidiu retomar a carreira acadêmica. Formado em ciência da computação, voltou à USP para cursar um MBA em ciência de dados, movimento que seria decisivo para a criação da plataforma.
A plataforma de IA
A ideia da Jade surgiu em 2017, durante os estudos na universidade, e ganhou ainda mais força após o diagnóstico de autismo de seu filho, ocorrido no mesmo período. O projeto foi desenvolvido com o objetivo de unir tecnologia, educação e saúde, utilizando jogos como ferramenta de estímulo cognitivo.
A proposta da plataforma é simples e estratégica: por meio da interação da criança com desafios digitais, o sistema coleta dados e gera relatórios que ajudam a identificar dificuldades específicas de aprendizagem e desenvolvimento. "O jogo funciona como uma série de desafios para a criança e, com base na tomada de decisão dela, a gente consegue entender por que ela está tendo dificuldades para executar algo", explica.
A Jade passou por testes científicos em um estudo realizado na USP, que envolveu 650 crianças. A pesquisa comparou o desempenho antes e depois do uso da ferramenta e apontou um aumento de 43% na velocidade de aprendizado quando o ensino foi personalizado com base nos dados gerados pela plataforma. Segundo Cohin, os relatórios produzidos pela tecnologia ajudam tanto educadores quanto profissionais de saúde a ajustarem estratégias pedagógicas e terapêuticas, além de contribuírem no processo de diagnóstico.
"A gente tem memórias que nos ajudam a construir o aprendizado. A [memória] auditiva é uma delas, por exemplo. É ela que sintetiza, por meio do som, o que está sendo ensinado por um professor em sala de aula. Ao fazer o mapeamento com a Jade, conseguimos identificar o déficit em alguma dessas funções", afirma.
Atualmente, a plataforma funciona como aplicativo para celulares, disponível nas lojas Android e iOS, e também como software educacional utilizado em escolas. No Brasil, a ferramenta já é adotada em nove municípios, especialmente na educação básica, além de ser usada por psicólogos em atendimentos clínicos. De acordo com o criador, mais de 200 mil crianças já utilizaram a Jade em diferentes países. Considerando os pais, responsáveis e cuidadores, o número de pessoas impactadas ultrapassa 600 mil, segundo estimativas do próprio desenvolvedor.
Impacto social e escolha do nome
Pai de uma criança autista, Cohin afirma que o principal objetivo da tecnologia é ampliar o acesso a recursos de saúde e educação, especialmente para famílias de baixa renda. O nome da plataforma também carrega um significado simbólico, definido durante a fase de pesquisa acadêmica.
"A maior parte das pessoas que levavam seus filhos eram mulheres. Homens pouco acompanham os filhos autistas. Tinha que ser um nome feminino, simples e com um acrônimo: Jade significa Jogos de Aprendizagem para Desenvolvimento Educacional."
Além do prêmio recebido em Abu Dhabi, a Jade também foi destaque em outros grandes eventos de tecnologia. Em 2023, venceu o Web Summit Rio e também foi premiada no GITEX, um dos maiores encontros globais de inovação, realizado em Dubai.