No meu dia a dia como farmacêutico, atuando diretamente no cuidado clínico, eu percebo um padrão que se repete com cada vez mais frequência. As pessoas não chegam apenas em busca de orientação. Elas chegam exigindo resultado. Querem uma resposta imediata, uma solução rápida, algo que resolva em semanas aquilo que foi construído ao longo de anos. O discurso quase sempre carrega urgência: "eu preciso emagrecer agora", "não posso esperar", "em um mês preciso ver diferença".
O que mais chama atenção não é apenas a pressa, mas a disposição para fazer tudo ao mesmo tempo. Canetas emagrecedoras associadas a fórmulas para reduzir o apetite, medicamentos para ansiedade, substâncias para aumentar energia durante o dia, sem esquecer os pré e pós treinos e, muitas vezes, remédios para dormir à noite. Em alguns casos, a pessoa já inicia o tratamento preparada para tratar efeitos colaterais que ainda nem surgiram, mas que ela sabe que provavelmente virão. O cuidado deixa de ser progressivo e passa a ser compensatório. O corpo vira algo a ser controlado, empurrado, ajustado à força.
Essa lógica não surge por acaso. Ela nasce de uma cultura imediatista, que valoriza o rápido, o visível e o espetacular. Uma cultura que trata o tempo como inimigo e a paciência como fraqueza. No emagrecimento, isso se traduz na ideia de que, se existe um recurso capaz de gerar resposta, então não há justificativa para não usá-lo e para não cobrar resultados rápidos. O problema é que o corpo não funciona sob a lógica da urgência. Ele responde, sim, mas cobra.
E o corpo cobra como quem faz um empréstimo. No início, o resultado aparece. O peso diminui, a aparência muda, os números na balança agradam. A sensação é de alívio, quase de vitória. Mas, assim como acontece com qualquer empréstimo, os juros não vêm no começo. Eles vêm depois. E quanto mais agressivas são as condições, maior é o custo.
Com a chegada das canetas emagrecedoras, esse cenário ganhou uma nova camada de pressão. Diferente de outras estratégias, elas trouxeram algo que a sociedade valoriza muito: resposta visível. Elas funcionam. E justamente por funcionarem, aumentaram a cobrança individual e social. Hoje, muitas pessoas não se cobram apenas porque querem emagrecer, mas porque sabem que existe um tratamento disponível. A mensagem implícita é dura: "se existe recurso e você não conseguiu, o problema é você".
A obesidade passou a ser ainda menos aceita socialmente não porque ficou simples de tratar, mas porque passou a ser vista como uma escolha, ignorando sua complexidade biológica, emocional e social. Na prática clínica, isso se traduz em frustração intensa. Quando a caneta não entrega o resultado idealizado - no tempo idealizado - a decepção é maior do que antes. A pessoa não questiona a expectativa irreal. Ela questiona a si mesma.
É importante dizer com clareza: a caneta emagrecedora não é a solução. Ela pode ser uma ferramenta importante, um passo dentro de um processo maior, mas não substitui hábitos, não reorganiza a relação com a comida, não sustenta resultados sozinha e não protege o corpo dos excessos cometidos em nome da pressa.
Quando esse modelo de cobrança se mantém por muito tempo, os efeitos não ficam restritos ao curto prazo. Eles se acumulam. O corpo até se adapta por um período, mas essa adaptação tem limite. Distúrbios do sono deixam de ser ocasionais e se tornam crônicos. A ansiedade passa a fazer parte da rotina. O metabolismo pode perder eficiência, tornando cada nova tentativa de emagrecimento mais difícil.
A relação com a comida também sofre. Quando o comer é guiado por medo, culpa ou supressão constante do apetite, os sinais internos se perdem. A fome deixa de ser reconhecida, a saciedade se confunde, e episódios de compulsão surgem como resposta fisiológica e emocional.
Há ainda um desgaste psicológico profundo. Viver em função do corpo ideal cria vigilância constante. Nada nunca é suficiente. Isso mina a confiança, gera frustração recorrente e constrói a ideia de que o corpo só funciona sob controle.
O problema do imediatismo para emagrecer não é querer resultado. É ignorar que todo resultado precisa ser sustentado. Talvez seja hora de trocar a pergunta "quanto eu consigo emagrecer rápido?" por algo mais honesto: "que tipo de cuidado eu consigo manter sem pagar essa conta depois?".