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Em documento histórico, papa Leão XIV condena uso de IA em guerras

Batizado de "Magnifica Humanitas", o manifesto papal de 43 mil palavras defende a regulamentação urgente do setor tecnológico e critica a centralização do poder digital em conglomerados privados

25 mai 2026 - 12h33

O papa Leão XIV publicou na manhã desta segunda-feira (25) a sua primeira encíclica papal. Trata-se de um documento de forte teor político e social que coloca a Igreja Católica no centro dos debates contemporâneos sobre o avanço tecnológico.

Críticas do papa Leão XIV à IA
Críticas do papa Leão XIV à IA
Foto: Getty Images / Bons Fluidos

Centrado na ascensão vertiginosa da inteligência artificial e nas profundas transformações impostas aos direitos da classe trabalhadora, o manifesto, intitulado "Magnifica Humanitas" (Magnífica Humanidade), já é apontado por analistas internacionais como um potencial ponto de atrito diplomático e ideológico entre o Vaticano e o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Assim, ao longo de quase 43 mil palavras, o pontífice direciona duras críticas à falta de marcos regulatórios globais.

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Além disso, ele faz um apelo contundente às lideranças políticas para desacelerar o desenvolvimento de sistemas sintéticos que, sob sua ótica, amplificam a desinformação de massa e pavimentam o caminho para conflitos globais de proporções imprevisíveis.

Críticas do papa Leão XIV

O primeiro grande eixo de preocupação do documento papal reside na soberania e no controle da infraestrutura digital, hoje concentrada sob o domínio de megacorporações tecnológicas. O líder religioso chama a atenção para o descompasso de forças entre o setor público e o privado ao diagnosticar que "os principais motores do desenvolvimento são entidades privadas, muitas vezes transnacionais, dotadas de recursos e capacidade de intervenção que superam os de muitos governos. O poder tecnológico assume, assim, um aspecto sem precedentes, predominantemente 'privado', o que torna ainda mais difícil discernir, governar e direcionar esse poder para o bem comum".

Por fim, o texto adverte que o monopólio dessa engrenagem compromete os pilares democráticos, pois "quando esse poder se concentra nas mãos de poucos, tende a tornar-se opaco e a escapar à supervisão pública, aumentando o risco de formas distorcidas de desenvolvimento que dão origem a novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades".

Diante desse cenário, Leão XIV rechaça os discursos que classificam a cautela regulatória como um retrocesso científico, ponderando que "apelar à prudência, à avaliação rigorosa e até mesmo, por vezes, a um ritmo mais lento na adoção da IA não significa opor-se ao progresso; pelo contrário, é um exercício de cuidado responsável para com a família humana". Para o papa, a solução exige o protagonismo do Estado e a imposição de limites claros ao mercado, uma vez que "não basta invocar a ética no abstrato; são necessários marcos legais robustos, supervisão independente, usuários informados e um sistema político que não se esquive de sua responsabilidade", concluindo de forma enfática que "é essencial que o uso da IA, especialmente quando se trata de bens públicos e direitos fundamentais, seja guiado por critérios claros e supervisão eficaz. ... A propriedade dos dados não pode ser deixada exclusivamente em mãos privadas, mas deve ser devidamente regulamentada".

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Outro ponto de extrema sensibilidade abordado na encíclica trata da militarização da inteligência artificial e da sua aplicação direta em armamentos de última geração. O pontífice alerta para a dissolução das fronteiras éticas nos campos de batalha modernos, observando que "a revolução digital está mudando a natureza dos conflitos. Além da guerra convencional, existem formas híbridas como ciberataques, manipulação de informações, campanhas de influência e a automatização de decisões estratégicas".

Além disso, o líder da Igreja expõe o paradoxo da segurança tecnológica ao ressaltar que "o que é criado para a defesa pode ser rapidamente reaproveitado para o ataque, e a tênue linha entre proteção e agressão torna-se confusa. Embora a IA possa aprimorar a defesa e a proteção de civis, ela também pode diminuir o limiar para o uso da força, proteger as pessoas da responsabilidade e fomentar uma cultura na qual o inimigo é reduzido a uma estatística e a vítima a 'dano colateral'".

O texto condena a naturalização da violência alimentada pela fragilidade dos organismos internacionais de cooperação, asseverando que "em nossa época, uma cultura de poder está se consolidando, na qual a disponibilidade de recursos e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios para a tomada de decisões. ... Essa cultura de poder se infiltra na sociedade, altera relacionamentos e comportamentos e cresce normalizando a guerra, buscando um poder militar cada vez maior, aproveitando-se da crisis do multilateralismo e alimentando um falso realismo que insiste que não há alternativa".

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