Você já parou para pensar no quanto um chatbot de inteligência artificial consegue aprender sobre você ao longo de meses de conversa? A resposta pode ser surpreendente. Muito além das informações que compartilhamos de forma direta com a IA, ferramentas como ChatGPT e Gemini também são capazes de identificar padrões e fazer inferências sobre aspectos da nossa vida a partir da maneira como perguntamos e interagimos.
Em um artigo publicado no The New York Times, o jornalista Brian X. Chen decidiu colocar essa capacidade à prova. Usuário frequente de assistentes de IA, ele acreditava que os sistemas conheciam apenas os fatos que havia contado explicitamente. Mas bastou fazer algumas perguntas específicas para perceber que os chatbots haviam conectado diferentes conversas e construído um retrato muito mais detalhado de sua vida.
Entre as conclusões estavam estimativas sobre sua faixa de renda, características de personalidade, hábitos de consumo e até questões relacionadas à saúde - informações que nunca haviam sido reveladas diretamente.
Como a IA chega a essas conclusões?
Os chatbots armazenam informações de conversas anteriores (caso o recurso de memória esteja ativado) para oferecer respostas mais personalizadas. Além disso, conseguem relacionar diferentes perguntas feitas ao longo do tempo e identificar padrões de comportamento.
No experimento, por exemplo, o jornalista descobriu que a IA havia associado perguntas sobre manutenção de um carro, reformas na casa e contratos de trabalho para deduzir aspectos de sua condição financeira. Também relacionou dúvidas recorrentes sobre dores no pé para inferir um possível problema de saúde crônico.
Outra surpresa foi a análise comportamental. A frequência com que ele corrigia respostas da inteligência artificial levou os sistemas a apontarem traços como ceticismo e perfeccionismo.
Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, esse tipo de inferência demonstra que os modelos não apenas processam palavras isoladas, mas também conseguem estabelecer relações entre diferentes informações para construir perfis bastante consistentes.
Quatro comandos que revelam o que a IA sabe sobre você
Se você ficou curioso para entender como o ChatGPT interpreta suas conversas, alguns comandos podem ajudar a explorar essas inferências.
1. Descubra o que a IA deduziu sem que você dissesse
"Conte-me tudo o que você descobriu sobre mim e que eu nunca realmente mencionei - as coisas que você deduziu pela maneira como escrevo e pelas perguntas que faço, incluindo minha idade, nível de renda, onde moro e minha situação pessoal. Mostre o que te levou a essas conclusões".
Esse comando costuma revelar hipóteses construídas a partir do conjunto das conversas, sempre acompanhadas do raciocínio utilizado pela IA.
2. Peça previsões sobre seu comportamento
Outro teste interessante consiste em pedir que o chatbot estime como você provavelmente reage a situações que nunca foram discutidas. "Preveja como eu lidaria com situações sobre as quais nunca falei: dinheiro, estresse, conflitos, riscos e qual será provavelmente a próxima grande decisão da minha vida. Diga também o grau de confiança que você tem em cada previsão".
A proposta é observar como o sistema utiliza padrões anteriores para formular previsões.
3. Pergunte sobre seus pontos cegos
Também é possível pedir uma análise de personalidade baseada nas interações já realizadas. "Com base em tudo o que você sabe sobre mim, diga quais traços de personalidade eu provavelmente não enxergo em mim mesmo. Quais são meus pontos cegos, minhas inseguranças e como eu realmente passo a impressão para os outros?"
No caso do jornalista, os chatbots destacaram tendências ao perfeccionismo e à autocrítica, além da dificuldade de desacelerar.
4. Descubra quais informações podem ser sensíveis
Por fim, um comando chama atenção para dados que talvez pareçam inofensivos isoladamente, mas que, quando reunidos, podem revelar muito sobre uma pessoa. "O que você descobriu sobre mim que pode ser constrangedor ou sensível? Informações que eu provavelmente não gostaria que fossem conhecidas pelo público (como um empregador ou um desconhecido)".
A resposta pode mostrar desde hábitos cotidianos até características que poderiam ser interpretadas por terceiros.
É possível limitar esse tipo de personalização?
Para quem prefere que as conversas não sejam utilizadas para criar um histórico personalizado, tanto o ChatGPT quanto o Gemini oferecem a possibilidade de desativar o recurso de memória. No ChatGPT, basta acessar Configurações > Memória e desligar a opção Ativar Memória. Já no Gemini, o caminho é Configurações > Inteligência Pessoal > Memória.
Vale lembrar que desativar esse recurso reduz a capacidade do chatbot de lembrar preferências e conversas anteriores, tornando as respostas menos personalizadas.