Aplicativos realizam compras fakes para gerar dopamina no cérebro; entenda

Plataformas que imitam pedidos de comida e compras sem entregar produtos conquistam usuários e levantam discussões sobre comportamento, dopamina e privacidade

23 jul 2026 - 15h10

Imagine passar vários minutos escolhendo um hambúrguer, um prato mexicano ou uma pizza em uma plataforma de delivery, acompanhar todas as etapas do pedido e, no fim, não receber absolutamente nada. Parece estranho, mas essa é justamente a proposta de uma nova categoria de aplicativos que têm conquistado usuários em diferentes países.

Aplicativos que simulam compras e pedidos de comida sem entrega estão em alta; entenda como eles funcionam e por que despertam prazer
Aplicativos que simulam compras e pedidos de comida sem entrega estão em alta; entenda como eles funcionam e por que despertam prazer
Foto: Reprodução: Canva/charliepix / Bons Fluidos

Conhecidos como "apps de dopamina", esses aplicativos simulam experiências como fazer compras, pedir comida e até fumar um cigarro virtual, mas sem que a ação aconteça de verdade. A ideia é proporcionar a sensação de satisfação gerada durante o processo de escolha, sem envolver uma compra real.

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O fenômeno começou na Coreia do Sul. Hoje, já se espalha para outros lugares do mundo e desperta interesse em discussões sobre comportamento, consumo e privacidade digital.

Por que essas experiências parecem tão prazerosas?

A explicação está na dopamina, um neurotransmissor que participa dos mecanismos de recompensa do cérebro. Ela ajuda a regular a motivação, o aprendizado e a sensação de expectativa diante de algo considerado prazeroso.

Quando uma pessoa navega por um aplicativo escolhendo um produto ou montando um pedido, o cérebro percorre etapas que costumam gerar satisfação. Primeiro vem a expectativa de encontrar algo interessante. Depois, a sensação de controle ao fazer escolhas. Por fim, aparece o sentimento de conclusão quando o pedido é finalizado.

Curiosamente, a única etapa ausente nesses aplicativos é justamente o consumo: o produto nunca chega. Esse mecanismo ajuda a explicar por que algumas pessoas também sentem prazer ao montar listas de desejos em lojas virtuais, organizar painéis de decoração no Pinterest ou planejar viagens que talvez nunca realizem. Em muitos casos, a antecipação já é suficiente para despertar uma resposta positiva no cérebro.

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O que são os chamados "apps de dopamina"?

Entre os exemplos mais conhecidos está o FoodNeverComes, que reproduz toda a experiência de um aplicativo de delivery, mas sem realizar entregas. A plataforma afirma já ter registrado centenas de milhares de pedidos fictícios feitos pelos usuários.

Outro exemplo é o Dopamine Shop, uma loja virtual onde é possível colocar qualquer item no carrinho (desde objetos curiosos até produtos completamente inusitados) sem informar cartão de crédito ou concluir qualquer compra.

Existem ainda aplicativos que simulam outras experiências, como fumar um cigarro virtual, oferecendo uma representação visual da atividade, porém sem nicotina. Todos seguem uma lógica semelhante: reproduzir a experiência da decisão e da recompensa psicológica, mas sem a consequência prática da ação.

Existe algum risco nesse comportamento?

Como esses aplicativos surgiram recentemente, ainda não existem pesquisas específicas capazes de mostrar quais podem ser seus efeitos no longo prazo. No entanto, especialistas chamam atenção para um conceito conhecido como "comportamento de porta de entrada", quando uma atividade aparentemente inofensiva pode aumentar a probabilidade de comportamentos semelhantes no futuro.

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Embora ainda não haja evidências de que isso aconteça com os aplicativos de dopamina, estudos realizados com jogos de azar simulados mostraram resultados que despertam atenção. Pesquisas anteriores observaram que parte dos participantes que utilizavam cassinos virtuais gratuitos acabou migrando, meses depois, para apostas com dinheiro real.

Os pesquisadores ressaltam que são contextos diferentes, mas os mecanismos de recompensa utilizados por muitas dessas plataformas compartilham elementos semelhantes, como gamificação, expectativa e repetição de comportamentos.

Gratuitos, mas nem tanto

Outro aspecto que merece atenção é a forma como essas plataformas são financiadas. Apesar de não cobrarem pelo uso, muitas delas obtêm receita por meio de publicidade. Para isso, costumam utilizar cookies - pequenos arquivos armazenados no navegador que registram parte da navegação do usuário. Essas informações ajudam plataformas de anúncios a entender interesses e exibir propagandas cada vez mais personalizadas.

Na prática, isso significa que, depois de "comprar" uma jaqueta imaginária ou montar um pedido fictício de tacos, o usuário pode começar a receber anúncios reais relacionados exatamente aos produtos que escolheu dentro do aplicativo.

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Por esse motivo, antes de utilizar qualquer plataforma gratuita, vale a pena conferir as configurações de privacidade e verificar quais dados são coletados e como essas informações poderão ser utilizadas.

O que essa tendência revela sobre nosso comportamento?

O sucesso dos chamados apps de dopamina parece refletir um aspecto importante do comportamento humano: muitas vezes, a expectativa é tão prazerosa quanto a conquista em si.

Em um cenário marcado por estímulos constantes, notificações e recompensas instantâneas, experiências que simulam pequenas doses de satisfação podem parecer atraentes para parte dos usuários. Ainda assim, especialistas ressaltam que compreender como essas ferramentas influenciam hábitos de consumo e tomada de decisões será um desafio importante para as próximas pesquisas sobre comportamento digital.

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