Venda de testosterona cresceu mais de 700% desde 2018; endocrinologista alerta para perigos do uso sem indicação médica
A busca por ganho rápido de massa muscular e mudanças na aparência física tem levado jovens brasileiros ao uso de anabolizantes. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), divulgados pela Universidade de São Paulo (USP) em 2024, indicam que um em cada 16 estudantes brasileiros já utilizou essas substâncias. O levantamento também aponta aumento de 39% no consumo entre estudantes do ensino fundamental, 67% entre alunos do ensino médio e 84% entre jovens do último ano do ensino médio, em comparação com décadas anteriores.
O desejo pelo músculo cada vez maior
O aumento da procura pelos anabolizantes ocorre em meio à popularização do fisiculturismo, da cultura fitness e da exposição constante de padrões estéticos nas redes sociais. Paralelamente, o mercado também segue aquecido. Dados divulgados em reportagem do Jornal Nacional e repercutidos pelo Imirante em 2026 mostram que a comercialização legal de testosterona cresceu mais de 700% entre 2018 e 2025, mesmo após o Conselho Federal de Medicina (CFM) proibir, em 2023, a prescrição de esteroides androgênicos anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular ou melhoria de desempenho esportivo em pessoas saudáveis.
Gabriel Ganley era um dos brasileiros que buscava ajuda de anabolizantes para alcançar a estética desejada. Ele faleceu aos 22 anos, no dia 23 de maio, de morte súbita causada, segundo informações divulgadas pela imprensa, por cardiomiopatia hipertrófica.
Como os anabolizantes agem no corpo
Segundo o médico endocrinologista e docente da Afya Unigranrio Barra da Tijuca, Rodrigo Mendes, os anabolizantes são substâncias capazes de estimular processos de construção e reparo dos tecidos, especialmente da musculatura.
"Os mais conhecidos são os anabolizantes androgênicos esteroides, derivados da testosterona, que promovem aumento da síntese proteica, ganho de massa muscular e força. O problema ocorre quando essas substâncias são utilizadas sem indicação médica, em doses elevadas ou exclusivamente para fins estéticos", explica.
Embora existam aplicações terapêuticas reconhecidas, como o tratamento do hipogonadismo masculino, alguns tipos de atraso puberal e determinadas doenças associadas à perda de massa muscular, o especialista ressalta que o uso deve estar sempre vinculado a uma condição clínica comprovada.
"O objetivo do tratamento é corrigir uma deficiência hormonal ou tratar uma doença específica, e não promover ganho estético de massa muscular em indivíduos saudáveis", afirma.
Riscos para coração, fígado e fertilidade
Os efeitos do uso indiscriminado vão muito além do aumento da massa muscular. De acordo com o endocrinologista da Afya Unigranrio, praticamente todos os sistemas do organismo podem ser afetados.
No sistema cardiovascular, podem ocorrer aumento da pressão arterial, alterações do colesterol, maior risco de trombose, infarto, acidente vascular cerebral (AVC), arritmias e hipertrofia cardíaca. O especialista explica que o uso abusivo também pode levar ao aumento da espessura do músculo cardíaco, comprometendo o funcionamento do coração.
O laudo da morte de Gabriel Ganley apontou cardiomiopatia hipertrófica, doença cardíaca que pode ter relação com fatores de sobrecarga cardiovascular, segundo especialistas.
"No caso da cardiomiopatia hipertrófica, geralmente existe uma predisposição genética. No entanto, substâncias que estimulam o crescimento do músculo cardíaco ou aumentam a carga de trabalho do coração podem agravar manifestações da doença em indivíduos suscetíveis", explica o médico.
Além dos riscos cardiovasculares, o endocrinologista destaca impactos importantes na saúde hormonal e reprodutiva. Entre os homens, o uso pode provocar infertilidade, redução da produção de espermatozoides, atrofia testicular e ginecomastia. Nas mulheres, estão entre os efeitos possíveis alterações menstruais, acne, aumento de pelos corporais, queda de cabelo, engrossamento da voz e outras características de masculinização.
"O que observamos cada vez mais nos consultórios é o aumento de casos de infertilidade masculina associados ao uso prévio ou atual dessas substâncias", afirma.
O fígado também pode ser afetado, especialmente por formulações orais. Casos de hepatite medicamentosa, colestase e lesões hepáticas graves já foram descritos na literatura médica.
Jovens estão entre os mais vulneráveis
A preocupação é ainda maior quando o uso ocorre durante a adolescência. Nessa fase, o organismo ainda está em desenvolvimento físico, hormonal e neurológico.
Segundo Rodrigo Mendes, uma das consequências possíveis é o fechamento precoce das cartilagens de crescimento, comprometendo a estatura final. Também podem ocorrer alterações hormonais permanentes, além de impactos sobre a saúde mental.
Ele explica que o cérebro do adolescente ainda está em formação, especialmente em áreas ligadas ao controle de impulsos e à regulação emocional. Por isso, o uso de anabolizantes pode estar associado a maior irritabilidade, agressividade, ansiedade, alterações de humor e dependência psicológica.
Não existe uso seguro sem acompanhamento médico
O especialista alerta que a ideia de um uso "controlado" ou "responsável" sem indicação médica não encontra respaldo científico. Não existe uso seguro de anabolizantes sem diagnóstico adequado, indicação médica e monitorização clínica. Muitas complicações podem surgir de forma silenciosa e só serem identificadas quando o dano já está instalado.
A construção de uma boa composição corporal depende de fatores como treinamento adequado, alimentação equilibrada, sono de qualidade e hábitos saudáveis.
"A busca por resultados rápidos nunca deve custar a própria saúde. O nosso corpo é a nossa casa, e cuidar dele da forma correta é o que nos permite não apenas viver mais, mas viver melhor", conclui o especialista.