Chegar depois do início de um espetáculo pode parecer um detalhe para alguns espectadores. Mas, para Antonio Fagundes, a pontualidade faz parte de um compromisso firmado entre artistas e público. Em entrevista ao videocast Conversa vai, Conversa Vem, do jornal O Globo, o ator voltou a defender a regra que mantém há anos em suas peças: quem chega atrasado não entra.
Segundo o veterano, a decisão nunca teve como objetivo proteger os atores no palco, mas preservar a experiência de quem chegou no horário e está acompanhando a apresentação.
O respeito ao público começa antes da estreia
Durante a conversa, Fagundes explicou que o cuidado com a plateia envolve muito mais do que abrir as cortinas no horário marcado. Para ele, todo o processo de produção de um espetáculo é pensado para oferecer a melhor experiência possível aos espectadores.
"A pontualidade é a ponta do iceberg. O cuidado que tive com a plateia começou na escolha do texto que imaginei interessar um número grande de pessoas. Não sou um pavão que está se pavoneando diante da plateia, tenho uma responsabilidade. Depois, escolho a equipe, o teatro, pelo qual pago caro. Depois são meses de ensaio até abrir as portas para o público e jogá-lo dentro daquele universo. Aí, chega uma pessoa atrasada… Não posso deixar entrar!", afirmou.
Na visão do ator, permitir a entrada após o início da sessão quebra a imersão construída cuidadosamente para todos os presentes.
Regra já motivou processos, mas continua valendo
A postura rígida já gerou situações de conflito ao longo da carreira. Fagundes contou que espectadores descontentes chegaram a provocar tumultos e até recorreram à Justiça por terem sido impedidos de entrar após o horário previsto. "É verdade. Deu muita confusão. São poucas pessoas, mas ruidosas, fazem barulho, quebram a porta do teatro, são mal educadas. Fui processado umas dez vezes, mas a gente acaba ganhando sempre. Porque está escrito lá, eu anuncio no material", revelou.
Um dos episódios mais conhecidos aconteceu no ano passado, quando ele e a esposa, Alexandra Martins, venceram uma ação movida por um casal que chegou atrasado para assistir à peça Dois de Nós. A Justiça entendeu que a regra sobre a pontualidade havia sido informada previamente aos espectadores e deu razão aos artistas.
"O problema não é o artista"
Fagundes também fez questão de desfazer uma ideia comum: a de que impedir atrasos seria uma forma de proteger quem está no palco. Segundo ele, os atores estão preparados para lidar com distrações durante a apresentação. A maior preocupação é não comprometer a experiência de quem já está sentado na plateia.
"As pessoas falam: 'É um desrespeito com o artista'. Não! Pode fazer barulho, acender a luz que continuamos fazendo teatro, somos treinados pra isso. (…) Não queremos barulho para não atrapalhar quem concordou com esse contrato entre nós: 'Vai nesse endereço, tal hora, te dou esse lugar na fila X, você senta, fica quietinho que vou te contar uma história por duas horas que vai modificar sua vida'", argumentou.
O comportamento do público o afastou dos cinemas
A preocupação com a convivência entre espectadores ultrapassou os palcos. O ator contou que deixou de frequentar salas de cinema por considerar que muitas pessoas já não demonstram respeito por quem está ao lado. "Com certeza! Está sendo muito chato. Não é nem o fato de ficarem comendo ou falando, é porque não estão interessadas em quem está ao lado. Então, me pergunto: 'Por que não fica em casa falando no celular?'. Não precisa ir atrapalhar os outros", lamentou.
TV aberta e o futuro da tecnologia
Na entrevista, Fagundes também refletiu sobre as mudanças tecnológicas nas produções televisivas. Para ele, embora a qualidade das imagens tenha evoluído significativamente, o ritmo das gravações ficou mais lento. Fagundes também saiu em defesa da TV aberta, destacando seu papel de reunir milhões de brasileiros em torno das mesmas histórias e promover conversas que ultrapassam a tela.
Por fim, comentou o avanço da inteligência artificial e imaginou um futuro em que até apresentações artísticas possam reproduzir-se por hologramas ou robôs. Ainda assim, acredita que o teatro preserva algo difícil de substituir.
"Daqui a pouquinho, vamos colocar na porta do teatro: '100% humano'. Porque pode acontecer de criarem uma holografia ou robôs de Antonio Fagundes e Christiane Torloni interagindo com plateia também de robôs. (…) Não temos mais controle, tudo pode acontecer. Menos no teatro", concluiu.