Dez anos após o ouro no Rio, Eliud Kipchoge volta ao Brasil para correr em Porto Alegre

Em coletiva, o bicampeão olímpico afirmou que volta ao Brasil não para buscar recordes, mas para inspirar uma nova geração de corredores

1 jul 2026 - 20h37
Kipchoge na coletiva de imprensa de Cape Town, maratona que iniciou sua World Tour (Foto: Fernanda Paradizo)
Kipchoge na coletiva de imprensa de Cape Town, maratona que iniciou sua World Tour (Foto: Fernanda Paradizo)
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

Pela segunda vez na carreira, o queniano Eliud Kipchoge desembarca em solo brasileiro. O destino agora é a NB 42K Porto Alegre, no próximo dia 12 de julho. A prova é a segunda etapa do tour mundial do queniano, que abandonou o circuito das grandes maratonas comerciais para correr, segundo ele, "por um propósito".

Em coletiva de imprensa concedida direto do Quênia a jornalistas, nos últimos dias de polimento antes do embarque, o bicampeão olímpico deixou claro que não vem atrás de tempo: "Não vou a Porto Alegre para quebrar recordes ou correr abaixo de 2 horas; vou para valorizar as pessoas, correr ao lado delas e mostrar que a corrida faz parte das nossas vidas".

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A relação de Kipchoge com o Brasil começou em 2016, quando ele conquistou o primeiro de seus dois ouros olímpicos na maratona. "O Brasil tem um lugar especial para mim porque foi onde conquistei minha primeira medalha de ouro olímpica na maratona. Isso vai ficar na minha memória para sempre. Posso dizer que foi no Brasil que comecei a construir minha reputação no que diz respeito à maratona", afirmou. Para ele, o país tem um papel de liderança: "O Brasil é um país grande e é o futuro das maratonas e da corrida."

A etapa gaúcha vem na sequência da Maratona de Cape Town, na África do Sul, que abriu sua World Tour pelos sete continentes em maio. Kipchoge disse que pretende repetir em Porto Alegre a experiência que viveu em solo africano. "Fui empurrado por muitos torcedores que correram comigo. Vou usar essa mesma energia de Cape Town para correr em Porto Alegre. Como é um percurso plano, vou gostar ainda mais de correr com as pessoas e motivá-las a sair de casa para correr."

Questionado sobre as condições climáticas e como o clima do dia poderia influenciar na sua tática em um percurso plano - o contrário do que encontrou em Cape Town -, o queniano garantiu que a mentalidade do atleta deve se sobressair a qualquer cenário. "Você não pode mudar o clima, mas pode mudar sua mentalidade para se ajustar a ele. Então, nós apenas nos adaptaremos ao clima que estiver lá no domingo."

Kipchoge hoje divide o tempo de treino com suas funções no Comitê Olímpico do Quênia e a gestão da Eliud Kipchoge Foundation (Foto: Fernanda Paradizo)
Foto: Divulgação / Contra-Relógio

Copa do Mundo na agenda

A viagem coincide com o período da Copa do Mundo de futebol. O queniano, que conta ter aprendido sobre a paixão brasileira pelo esporte em 2016, não escondeu a torcida e o desejo de ver tudo de perto. "Estou torcendo por alguns times, mas o Brasil é o meu número um agora. Estou cruzando os dedos para poder assistir à seleção brasileira. Sou um grande fã do Vinicius Junior, do Neymar." Ele revelou ainda uma conexão direta com o futebol do país: conheceu Kaká na Maratona de Berlim, quando o jogador correu a prova, e mantém contato frequente com ele, a quem considera um amigo pessoal.

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Recado aos estreantes

Parte da coletiva foi dedicada a conselhos práticos, tema que interessa diretamente aos milhares de corredores que dividirão o percurso com ele, muitos enfrentando os 42 km pela primeira vez. Sobre a véspera da prova, Kipchoge descreveu sua rotina minuciosa: trote leve de 40 minutos pela manhã, café da manhã e descanso absoluto.

"O dia anterior à corrida é um jogo mental. Eu sempre visualizo o que estarei fazendo no quilômetro 5, 10, 15, 20, até passar pela linha de chegada. À noite, janto e durmo cedo." Aos estreantes, a recomendação é simples: "Apenas relaxem, cheguem à largada e se hidratem muito bem no dia anterior, no sábado."

Ele também abordou o período de polimento (tapering), fase que costuma gerar extrema ansiedade nos atletas. "É o momento em que você está carregando seus músculos com energia e deixando sua mente descansar. Não pensem que estão perdendo condicionamento físico. Vocês estão ganhando energia. Enxerguem o tapering como um período de investimento, não de perda", ensinou. A receita do mestre é dormir mais, hidratar-se bem e distrair a mente lendo livros, ouvindo música e passando tempo com a família.

Grace na largada

Kipchoge não vem sozinho ao Brasil. A mulher dele, Grace, que estreou na distância em Cape Town, correrá em Porto Alegre sua segunda maratona. "A mensagem que ela me passou ao terminar a primeira foi a de que se sentiu uma pessoa diferente após cruzar a linha de chegada. Fico muito feliz em inspirar alguém que está na minha vida há tanto tempo", contou orgulhoso. Para ele, o exemplo ultrapassa as barreiras de sua própria casa: "A maioria das esposas de atletas não corre, mas, por causa dessa inspiração, elas estão entrando no esporte."

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Nova fase

Com mais de duas décadas correndo no topo do atletismo mundial, Kipchoge vive uma clara transição de rotina. Ele revelou que não passa mais a semana inteira confinado no tradicional centro de treinamento em Kaptagat: vai apenas duas vezes por semana para rodar com os atletas mais jovens e transmitir sua experiência de vida.

Fora das pistas, ele divide o tempo entre suas funções no Comitê Olímpico do Quênia e a gestão da Eliud Kipchoge Foundation, voltada para a educação e o meio ambiente. A entidade constrói bibliotecas e salas de aula no país africano, e ele não descartou expandir os projetos sociais para a América do Sul no futuro. Kipchoge também aproveitou o espaço para defender a candidatura de seu país para sediar o Mundial de Atletismo de 2029: "Lideramos o atletismo nos últimos 40 anos. É o momento de o mundo retribuir."

A meta declarada dessa nova fase longe é ambiciosa: "Venho pregando há 15 anos que quero transformar este mundo em um mundo de corrida. Quero ver, no futuro, mais de 2 bilhões de pessoas correndo todos os dias."

Para os corredores que vão alinhar ao lado do "GOAT" nas ruas de Porto Alegre no dia 12, o recado final resume perfeitamente o espírito de sua visita: "Vamos fazer de Porto Alegre uma linda celebração do potencial humano. Quero que sintam que nenhum ser humano é limitado. Quando me virem na pista, não quero que vejam um superastro; quero que vejam um companheiro de corrida que acredita neles."

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