O inverno traz as temperaturas mais agradáveis do ano para quem corre, mas também concentra um risco que costuma passar despercebido pelo corredor amador: a combinação entre poluição do ar e baixa umidade relativa, que pode comprometer diretamente a saúde respiratória durante o treino. É o que alerta o educador físico Aulus Sellmer, da 4any1 Assessoria Esportiva.
Segundo Sellmer, três mecanismos fisiológicos se somam nessas condições e agravam o quadro. O primeiro é o aumento da ventilação pulmonar: como o corpo demanda mais oxigênio durante o exercício, ele também inala mais ar contaminado — gases como monóxido e dióxido de carbono e de nitrogênio, além de partículas de ferro, cobre, alumínio e cloro —, o que compromete as trocas gasosas no organismo.
O segundo fator é a transição da respiração nasal para a oronasal durante o esforço. Quando o ar passa também pela boca, escapa da camada de filtros naturais das vias aéreas, levando mais partículas e poluentes diretamente aos alvéolos pulmonares, o que pode desencadear processos inflamatórios no sistema respiratório. O terceiro fator, segundo o especialista, é o próprio aumento da velocidade do ar inalado durante a corrida, que carrega ainda mais gases e material particulado para dentro do organismo.
As recomendações do especialista
Para reduzir esses efeitos, Sellmer recomenda um conjunto de ajustes simples na rotina de treino:
- Treinar em horários de maior umidade relativa do ar — até as 9h ou a partir das 17h, períodos em que a dispersão de poluentes tende a ser maior;
- Evitar treinos intensos, que aumentam a ventilação e, por consequência, a inalação de poluentes;
- Limitar a duração dos treinos a, no máximo, 60 minutos. A partir desse tempo, segundo o especialista, a entrada de poluentes pode provocar estresse oxidativo, processo inflamatório em que partículas chegam à corrente sanguínea;
- Optar por parques arborizados, que funcionam como barreira natural contra poluentes;
- Considerar o treino em ambientes fechados, como academias, nos dias mais críticos;
- Aumentar a ingestão de líquidos;
- Usar protetor labial, tanto para hidratar quanto para proteger do sol.
Como identificar um dia desfavorável
Sellmer orienta o corredor a observar o próprio corpo: sensação de boca seca e mucosa nasal ressecada são sinais comuns em dias de baixa umidade, assim como dificuldade respiratória e queda perceptível de desempenho durante o treino. Outro indício, segundo ele, é climático: períodos longos sem chuva, combinados com uma camada de neblina ou névoa mais escura próxima ao horizonte, podem indicar concentração de poluentes em suspensão no ar.
Para quem já enfrenta problemas respiratórios mais sérios, a recomendação é mais direta: nesses dias, vale poupar o treino ao ar livre e buscar a esteira em ambiente fechado.
Aulus Sellmer é bacharel em Esportes pela USP, proprietário da 4any1 Assessoria Esportiva e coordenador da Running Club Academia Competion.