Politização prejudica iniciativas voltadas a conter a crise climática e ambiental

Como despolitizar a agenda do clima? É preciso restabelecer um consenso mínimo em torno da ciência. Na medida em que a realidade se impõe, os efeitos cada vez mais devastadores da crise climática também cobrará um custo político dos governos que a negam

21 jan 2026 - 17h22

Ao longo dos últimos trinta anos, a realização das COPs se estabeleceu como um dos pilares da descarbonização da economia global. Os avanços da agenda da sustentabilidade são inegáveis, embora o mundo permaneça distante da consecução das metas do Acordo de Paris e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU. Isso vem ocorrendo mesmo diante da resistência de segmentos econômicos poderosos, associados a setores emissores de gases estufa.

No entanto, ao longo da última década, a oposição à agenda do clima se fortaleceu e adquiriu uma nova dimensão, estabelecendo-se de forma explícita também no plano político. Essa politização a submete à alternância de poder e à vontade de governos de ocasião para implementá-la, prejudicando de forma ainda mais incisiva as iniciativas voltadas a conter a crise climática e ambiental.

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Os Estados Unidos e o Brasil se tornaram exemplos emblemáticos desse novo padrão. A primeira gestão de Donald Trump resultou na renúncia ao Acordo de Paris e no enfraquecimento das políticas climáticas americanas. Sob Biden, esses compromissos foram retomados, e o país promoveu o maior investimento climático de sua história por meio do Inflation Reduction Act (IRA), além de fomentar outras iniciativas alinhadas ao desenvolvimento sustentável no plano internacional, sobretudo no âmbito das COPs. Exemplos notáveis foram a "Net-Zero Banking Alliance", a "Net-Zero Insurance Alliance" e a "Net Zero Asset Managers initiative", todas resultantes da COP26, realizada em Glasgow.

Trump e o desmonte das políticas 'verdes'

Mas o retorno de Trump à presidência vem promovendo impactos muito mais severos à agenda do clima do que ocorreu em seu primeiro mandato. Mais poderoso do que antes, ele vem agressivamente desmontando políticas verdes implementadas por seu antecessor, promovendo setores "marrons" e rompendo compromissos internacionais.

As políticas do IRA foram desmontadas, e as iniciativas mencionadas da COP 26 vêm sendo sistematicamente enfraquecidas ou esvaziadas. Além disso, o governo Trump têm implementado uma política externa voltada a pressionar outros governos a flexibilizarem suas legislações climáticas. Como seria de se esperar, o governo federal americano optou por boicotar a COP 30.

A experiência recente do Brasil possui fortes similaridades com a americana. O governo Bolsonaro, negacionista do aquecimento global provocado pela ação humana, foi responsável por uma agenda que promoveu a devastação do meio ambiente. Entre 2019 e 2022, o desmatamento na Amazônia cresceu em 60% segundo o Inpe, e órgãos de fiscalização ambiental como o Ibama e o ICMBio foram esvaziados. A política ambiental foi marcada pelo enfraquecimento da Funai, pelo desmonte do Fundo Amazônia e pela perseguição a servidores e organizações da sociedade civil que atuavam na defesa ambiental.

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Com o retorno de Lula à presidência desde 2023, a crise climática e ambiental voltou a receber atenção do governo federal. Órgãos de fiscalização ambiental sucateados por seu antecessor vêm sendo recuperados, e o desmatamento apresentou queda acumulada de 50% na Amazônia em 2025 quando comparado a 2022.

O governo Lula reabilitou o Ministério do Meio Ambiente, criou o Ministério dos Povos Indígenas, reativou o Fundo Amazônia e lançou políticas estruturantes, como a Estratégia Nacional de Bioeconomia e a Taxonomia Sustentável, no âmbito do Plano de Transformação Ecológica. Porém, o ano de 2026 reserva uma nova eleição presidencial, que pode, mais uma vez, mudar radicalmente a postura do governo brasileiro frente ao cenário de emergência climática.

Brasil dá sinais contraditórios

Apesar dessas tendências gerais, a clivagem política em torno da sustentabilidade e da transição a uma economia de baixo carbono não está livre de contradições. Por exemplo, no Brasil, uma série de regulações climáticas foram incorporadas ao sistema financeiro nacional durante o governo Bolsonaro, o que sugere a resiliência de instituições e agentes públicos frente ao negacionismo governista - um fenômeno semelhante ao ocorrido durante o primeiro mandato de Trump. Do mesmo modo, o governo Lula vem contradizendo sua postura ambiental ao defender a exploração de petróleo na margem equatorial brasileira.

Consideradas essas nuances, a politização da agenda do clima vem se mostrando uma das encruzilhadas de nosso tempo. Para além de Estados Unidos e Brasil, ela vem se impondo internacionalmente, com países mundo afora estando sob constante ameaça de retrocessos periódicos na implementação de políticas verdes.

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Na Argentina, por exemplo, Javier Milei já chegou a afirmar que o aquecimento global é uma mentira do socialismo. Paralelamente, a União Europeia assiste ao fortalecimento de partidos de extrema direita que questionam as mudanças climáticas e as políticas para enfrentá-las.

Como despolitizar a agenda do clima? Essa precisa se tornar uma das grandes questões a serem debatidas nas próximas COPs e demais fóruns multilaterais. A resposta passa por restabelecer um consenso mínimo em torno da ciência, da sobrevivência humana e do interesse comum.

O negacionismo já cobrou um preço alto de governos de extrema-direita durante a pandemia de Covid-19, com as derrotas eleitorais de Bolsonaro e do próprio Trump. Na medida em que a realidade se impõe, os efeitos cada vez mais devastadores da crise climática também cobrará um custo político dos governos que a negam. Resta saber se a racionalidade política será restabelecida antes que alcancemos um ponto de não-retorno.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Pedro Lange Machado recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). As opiniões, hipóteses e recomendações expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a visão da FAPESP.

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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