Trégua frágil: Irã e Israel ameaçam retomar a guerra já no primeiro dia do cessar-fogo

Mal anunciada e já comprometida, a trégua entre o Irã e os EUA parece por um fio, com Teerã e Israel ameaçando retomar as hostilidades. O Paquistão, mediador do cessar‑fogo, pediu às partes que demonstrem "contenção" após ataques mortais de Israel no Líbano e novas ofensivas iranianas contra países do Golfo. Segundo o primeiro‑ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, violações do cessar‑fogo foram registradas em alguns pontos da zona de conflito, o que mina o espírito do processo de paz.

8 abr 2026 - 15h47

Representantes das duas partes devem se reunir no sábado em Islamabad para negociar uma solução para a guerra, além da trégua de duas semanas decidida na madrugada de terça para quarta‑feira, pouco antes do fim do ultimato do presidente americano Donald Trump. O vice‑presidente JD Vance vai liderar a delegação americana. O enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Donald Trump, também estarão presentes.

Um homem passa diante dos escombros de um prédio no local de um ataque israelense no Líbano, em 8 de abril de 2026.
Um homem passa diante dos escombros de um prédio no local de um ataque israelense no Líbano, em 8 de abril de 2026.
Foto: © Adnan Abid / Reuters / RFI

Mas, apesar da suspensão dos bombardeios americano‑israelenses contra o Irã, após 39 dias de conflito que deixou milhares de mortos, principalmente no Irã e no Líbano, a calma está longe de retornar à região, e persistem incertezas sobre os termos do acordo. Ataques simultâneos de Israel no Líbano, especialmente em áreas residenciais de Beirute, deixaram 112 mortos e 837 feridos, segundo o balanço mais recente do Ministério da Saúde. O Exército israelense afirmou ter realizado sua "maior operação coordenada" contra o Hezbollah desde o início da guerra, dizendo ter atingido "centenas" de membros do movimento pró‑iraniano, incluindo um comandante.

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Hezbollah com o "direito de responder"

"Vi um ataque, foi muito forte, crianças foram mortas, outras tiveram os braços arrancados", declarou à AFP Yasser Abdallah, que trabalha em uma loja de eletrodomésticos perto de um dos locais bombardeados na capital libanesa. Esses ataques provocaram numerosas condenações, como da ONU, e de países como o Iraque e a Jordânia. O Hezbollah afirmou ter "direito de responder", depois de não ter reivindicado ataques contra Israel desde o anúncio da trégua. Os Guardiões da Revolução iranianos também ameaçaram retaliar após o "massacre brutal" em Beirute.

Segundo a agência iraniana Tasnim, "o Irã vai se retirar do acordo se Israel continuar violando o cessar‑fogo em sua ofensiva contra o Líbano". O primeiro‑ministro paquistanês havia declarado que o cessar‑fogo se aplicava "em toda parte", inclusive no Líbano, algo que Trump posteriormente desmentiu.

Outro elemento que fragiliza ainda mais a trégua é a declaração de um alto funcionário da Casa Branca de que um plano iraniano de dez pontos divulgado publicamente não é o documento que serve de base às negociações com os Estados Unidos. A lista publicada pela República Islâmica menciona "a manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, a aceitação do enriquecimento de urânio, o levantamento de todas as sanções primárias e secundárias". Ela também prevê a retirada das forças americanas do Oriente Médio, o fim dos ataques contra o Irã e seus aliados, a liberação de ativos iranianos congelados e uma resolução do Conselho de Segurança da ONU tornando o acordo vinculativo.

Donald Trump declarou estar disposto a "discutir" o "levantamento das sanções" que sufocam a economia iraniana, mas garantiu que não haverá "nenhum enriquecimento de urânio". O tom, no entanto, permanece combativo do lado israelense: o cessar‑fogo "não é o fim da campanha" contra o Irã, afirmou o primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu, acrescentando que Israel está "pronto para retomar o combate a qualquer momento". Seu ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, havia dito mais cedo que não via "como seria possível aproximar as posições dos Estados Unidos e do Irã".

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Alívio dos mercados

Depois de uma terça‑feira marcada por ataques e ameaças de aniquilação da "civilização iraniana" feitas por Donald Trump, o anúncio da trégua chegou no meio da noite no Irã. "Ainda sinto dores por causa do medo", contou à AFP Simin, professora de inglês de 48 anos. "O choque e a pressão psicológica foram tão intensos que, mesmo agora, não sabemos se devemos nos sentir aliviados com a trégua ou não."

No Golfo, a prudência prevalece, já que o Irã continuou seus ataques de retaliação ao Kuwait e aos Emirados Árabes Unidos. Teerã afirmou ter respondido a ataques aéreos realizados após a trégua contra suas próprias instalações petrolíferas. Segundo o Financial Times, um ataque de drone atingiu um importante oleoduto na Arábia Saudita.

No Iraque, a embaixada dos Estados Unidos alertou seus cidadãos após "numerosos ataques de drones" lançados, segundo ela, por "milícias pró‑iranianas" contra instalações diplomáticas e o aeroporto internacional de Bagdá.

Apesar desses incidentes, o anúncio de uma reabertura gradual do Estreito de Ormuz provocou alívio nos mercados globais, levando à queda dos preços do petróleo e à recuperação das bolsas. Dois navios, um grego e outro com bandeira da Libéria, conseguiram atravessar o estreito, mas alguns operadores marítimos ainda preferem não arriscar, enquanto mais de 800 embarcações permanecem imobilizadas no Golfo.

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Com AFP

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