'Estamos afundando cada vez mais': iranianos se preparam para ataques à infraestrutura civil do país enquanto prazo do ultimato de Trump se aproxima

Iranianos contam à BBC como estão vendo a ameaça do presidente dos EUA de destruir usinas de energia e pontes do Irã, a menos que o país abra o Estreito de Ormuz.

7 abr 2026 - 04h46
(atualizado às 04h56)
O complexo desportivo Azadi, em Teerã, foi bombardeado no início da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã
O complexo desportivo Azadi, em Teerã, foi bombardeado no início da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã
Foto: EPA / BBC News Brasil

À medida que se aproxima o prazo do ultimato dado pelo presidente americano, Donald Trump, que ameaçou destruir as usinas de energia e as pontes do Irã a menos que o país reabra o Estreito de Ormuz, cidadãos iranianos contaram à BBC como estão vendo a situação.

"Acho que cada vez mais pessoas no Irã perceberam que Trump não se importa nem um pouco com elas", disse um deles.

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Em uma postagem repleta de palavrões nas redes sociais no domingo (5/4), Trump afirmou que "terça-feira será o Dia da Usina de Energia e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irã. Não haverá nada igual!!!".

Trump reiterou suas ameaças na segunda-feira, afirmando que o Irã regredirá à "Idade da Pedra" e ficará sem usinas de energia ou pontes se nenhum acordo for alcançado até às 21h de terça-feira pelo horário de Brasília (madrugada de quarta-feira no Irã).

O republicano alegou que "o país inteiro pode ser aniquilado da noite para o dia, e isso pode acontecer amanhã [terça-feira] à noite".

"Todas as pontes do Irã terão sido destruídas até a meia-noite de amanhã", declarou.

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Autoridades iranianas zombaram do ultimato de Trump, com um assessor presidencial afirmando que seus "insultos e absurdos" eram fruto de "puro desespero e raiva".

A BBC conseguiu conversar com vários iranianos — todos opositores ao governo atual —, embora seja muito difícil contatar pessoas dentro do Irã devido ao bloqueio da internet imposto pelas autoridades há mais de cinco semanas.

Seus nomes foram alterados para sua própria segurança.

'Não podemos fazer nada'

Kasra, que tem vinte e poucos anos e mora em Teerã, disse: "Parece que estamos afundando cada vez mais em um pântano. O que podemos fazer como pessoas comuns? Não podemos fazer nada. Não podemos impedi-lo [Trump]. Fico pensando em um cenário em que, daqui a um mês, estou sentado com minha família sem água, sem eletricidade, sem nada. E alguém apaga a vela e vamos dormir."

Enquanto a TV estatal iraniana exibe vídeos de supermercados bem abastecidos, a BBC ouviu relatos de que algumas pessoas estão estocando mantimentos e temem que o abastecimento de água também seja interrompido.

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"Minha mãe está enchendo todas as garrafas que encontra em casa com água", disse Mina, também na casa dos vinte anos e de Teerã.

"Não tenho ideia do que vamos fazer agora. Acho que cada vez mais pessoas no Irã perceberam que Trump não se importa nem um pouco com elas. Eu o odeio do fundo do meu coração e odeio também aqueles que o apoiam."

O Complexo Petroquímico de Mahshahr, no sudoeste do Irã, foi atingido no sábado (4/4)
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Uma linha vermelha

Em janeiro deste ano, quando violentas manifestações contra o governo varreram o Irã, Trump disse que "a ajuda estava a caminho" para os manifestantes.

Mas ele não interveio quando as forças de segurança iranianas lançaram uma repressão sem precedentes, matando pelo menos 6.508 manifestantes e prendendo outros 53.000, segundo a agência de notícias americana Human Rights Activists News Agency (Hrana, na sigla em inglês).

Algumas das pessoas com quem a BBC conversou inicialmente viram os ataques EUA-Israel como a ajuda que lhes havia sido prometida. Mas a maioria delas agora vê os ataques à infraestrutura energética como o cruzamento de uma linha vermelha.

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"Agradeci a Israel e aos EUA por quase tudo o que eles atingiram até agora", disse Arman, na casa dos 20 anos e morador de Karaj, a oeste de Teerã. A imprensa iraniana informou que 13 pessoas morreram e quase 100 ficaram feridas quando uma ponte em construção em Karaj foi bombardeada na quinta-feira (2/4).

"Eles devem ter tido bons motivos para escolher esses alvos [que foram atingidos]. Mas juro, atacar uma usina elétrica paralisa o país. Isso só beneficia a República Islâmica. Moro a cerca de 1km da maior usina elétrica de Karaj, e se eles a atacarem, será só sofrimento para mim."

Radin, também na casa dos 20 anos e morador de Teerã, disse: "Se atacar alvos no país derrubar a República Islâmica, para mim está ótimo. Porque se a República Islâmica sobreviver a esta guerra, ela permanecerá para sempre."

O Irã afirma que mais de 30 universidades foram atingidas, incluindo a Universidade Shahid Beheshti em Teerã
Foto: EPA / BBC News Brasil

Pressão econômica

Muitos dos entrevistados pela BBC estão preocupados com o impacto econômico da guerra.

Bahman, que tem vinte e poucos anos e mora em Teerã, disse: "Acho que Trump está com medo do que o Irã vai fazer. Tenho certeza de que o Irã atacará toda a região em retaliação."

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"No meu caso, não tenho mais rotina e nem consigo ir trabalhar por causa dessa situação, porque sou engenheiro supervisor de obras e ninguém está construindo nada agora. Algumas empresas menores já começaram a demitir seus funcionários."

Jamshid, que tem cerca de 30 anos e administra um restaurante em Teerã, disse que seu negócio "não é o mesmo de antes [da guerra]. Não estou otimista quanto à situação. Calculo que consigo aguentar por um mês, talvez dois, no máximo. O aluguel está me sufocando. São 200 milhões de tomans por mês [cerca de R$ 6,5 mil]".

Isso é muito caro comparado ao salário médio mensal, estimado entre US$ 200 e US$ 300 [R$ 1.028 a R$ 1.542].

A maioria das pessoas com quem a BBC conversou paga ainda preços exorbitantes pelo acesso à internet. A principal forma de conexão é o compartilhamento por meio de quem possui o sistema de internet via satélites Starlink.

No entanto, usar ou possuir um dispositivo Starlink no Irã acarreta uma pena de até dois anos de prisão, e as autoridades estariam procurando as antenas parabólicas para impedir que as pessoas se conectem.

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O acesso à internet está sendo vendido no aplicativo de mensagens Telegram por cerca de US$ 6 (R$ 30) por 1 GB de dados — a título de comparação, o preço de 1 GB de internet móvel no Brasil custava em média R$ 6,19 no segundo trimestre de 2025.

"Sinto que estou enlouquecendo. Nem renovei meu pacote de internet, pelo qual pago tão caro", disse Marjan, de vinte e poucos anos e de Teerã.

"Qual o sentido se Trump atacar a infraestrutura energética? Estou angustiada. Meus pais também... eles brigam por qualquer coisa agora. Continuo dizendo a mim mesma que estou bem, mas já tive três crises de nervos hoje."

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