Terras raras: por que a China domina o mercado global e manda neste assunto

As terras raras surgem com frequência em debates sobre tecnologia, transição energética e geopolítica, mas ainda geram muitas dúvidas.

18 mar 2026 - 09h30

As terras raras surgem com frequência em debates sobre tecnologia, transição energética e geopolítica, mas ainda geram muitas dúvidas. Esses elementos químicos sustentam a fabricação de ímãs potentes, motores de carros elétricos, turbinas eólicas, telas, fibras ópticas e diversos equipamentos militares e de telecomunicações. Apesar de não serem exatamente "raros" na crosta terrestre, o processo que os transforma em produtos utilizáveis segue lento, caro e repleto de desafios ambientais.

O interesse global por terras raras cresce à medida que a economia se torna mais dependente de produtos de alta tecnologia e de energias renováveis. Mesmo assim, poucos países controlam as etapas mais importantes da cadeia produtiva. Entre eles, a China se destaca com grande margem e concentra a maior parte da capacidade de refino. Esse cenário desperta atenção em governos e empresas em todo o mundo, que se preocupam com a segurança de suprimento e com a concentração dessa cadeia em um único país.

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Esse movimento transformou a forma como o país consome, trabalha e se relaciona com tecnologia
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Foto: Giro 10

Por que é difícil acumular e explorar terras raras de forma lucrativa?

A primeira barreira surge na geologia. As terras raras se espalham em diversos tipos de rochas e solos, em concentrações geralmente baixas. Em muitos lugares, empresas conseguem detectá-las, porém não em volumes que justificam uma exploração economicamente viável. Para que uma mina se torne competitiva, o projeto precisa de um depósito com teor elevado, volume significativo e condições de extração que não tornem o custo proibitivo. Depósitos com essas características permanecem limitados e, na prática, poucos alcançam a fase de produção em escala industrial.

Além da localização e da qualidade do minério, o processo de beneficiamento cria um dos principais entraves. As terras raras costumam aparecer misturadas entre si e associadas a outros minerais, o que exige uma sequência longa de etapas químicas para separação e purificação. Esse fluxo envolve reagentes específicos, consumo intenso de água e energia e infraestrutura industrial complexa. Cada elemento precisa atingir grau de pureza elevado para servir em aplicações de alta tecnologia, o que torna o processo mais custoso e demorado.

Processamento químico: por que é tão caro e com impacto ambiental elevado?

O refino de terras raras se destaca como uma das fases mais sensíveis da cadeia produtiva. Depois da mineração, as empresas submetem o minério a britagem, moagem, flotação ou outros métodos físicos para concentrar os minerais de interesse. Em seguida, as plantas industriais o encaminham para estágios de lixiviação, extração por solventes, precipitação e calcinação, entre outras rotas possíveis. Cada etapa gera resíduos líquidos e sólidos que exigem controle rigoroso, o que eleva o custo operacional e demanda monitoramento ambiental contínuo.

Outro ponto crítico envolve a presença de elementos radioativos, como tório e urânio, associados a alguns depósitos de terras raras. Esses contaminantes tornam a gestão de rejeitos ainda mais complexa, porque requerem áreas de disposição controlada, vigilância de longo prazo e cumprimento de normas de segurança nuclear. Países com legislação ambiental mais rígida enfrentam barreiras maiores para aprovar e manter projetos desse tipo, especialmente em regiões próximas a comunidades ou áreas sensíveis.

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Esses fatores ajudam a explicar por que muitas iniciativas de mineração de terras raras fora da Ásia sofrem atrasos, aumento de custos ou até paralisações. Em vários casos, empresas consideram mais viável extrair o minério em um país e enviar o concentrado para refino em outro que já possui infraestrutura química consolidada. Dessa forma, o sistema reforça a importância dos centros de processamento e amplia o peso estratégico de quem domina o refino.

Por que a China domina o mercado de terras raras?

A China construiu sua liderança em terras raras ao longo de décadas, ao combinar fatores geológicos, industriais e políticos. O país dispõe de grandes depósitos de alta qualidade, como a região de Bayan Obo, na Mongólia Interior, que figura entre as mais importantes do mundo. A partir desses recursos, o governo e as empresas realizaram investimentos contínuos em mineração, instalações de refino e pesquisa tecnológica desde o fim do século XX. Nesse mesmo período, outros países reduziram ou encerraram suas minas por questões de custo e meio ambiente.

Com esse movimento, a China passou a oferecer terras raras a preços competitivos e atraiu indústrias globais, que passaram a depender de sua produção. Ao mesmo tempo, empresas chinesas acumularam grande experiência em processos de separação e purificação, o que garantiu o domínio das etapas mais complexas da cadeia. Hoje, estimativas indicam que o país responde por cerca de 70 % da produção mundial de terras raras e por aproximadamente 85 % a 90 % da capacidade global de refino e processamento. Esse cenário confere posição central no mercado internacional e reforça o poder de influência da China nesse segmento.

Como as políticas chinesas reforçam essa posição estratégica?

Além da base mineral e da indústria instalada, políticas públicas exerceram papel decisivo. O governo chinês implementou controles de exportação, cotas de produção, fusões entre empresas estatais e privadas e incentivos à agregação de valor dentro do próprio país. Em diversos momentos, autoridades ajustaram taxas e licenças de exportação, influenciando preços globais e sinalizando a importância estratégica desses elementos. Essa combinação de regulação e planejamento fortaleceu uma cadeia integrada, desde a mina até produtos de alta tecnologia.

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Outro aspecto relevante envolve o foco em tecnologia avançada. A China investiu em pesquisa para melhorar a eficiência do refino, reduzir custos e desenvolver novos materiais baseados em terras raras, como ímãs permanentes de alto desempenho usados em motores elétricos e equipamentos industriais. Com isso, fabricantes domésticos atendem grande parte da demanda interna e integram esses insumos em cadeias industriais locais. Ao mesmo tempo, uma parcela importante da produção de óxidos e metais de terras raras segue para o mercado externo. A concentração dessa expertise faz com que muitos países, mesmo com reservas próprias, ainda dependam da capacidade chinesa para transformar o minério em produtos prontos para uso.

Quais são os desafios globais diante da dependência das terras raras chinesas?

A forte participação da China na produção e no processamento de terras raras estimula discussões sobre segurança de suprimento, diversificação de fontes e impacto ambiental. Outros países buscam desenvolver novas minas, ampliar capacidade de refino e investir em reciclagem de componentes que contêm terras raras, como motores e ímãs usados. No entanto, a combinação de custos elevados, exigências ambientais rigorosas e necessidade de conhecimento técnico especializado torna esse processo gradual e complexo.

Algumas estratégias em estudo incluem:

  • Exploração de novos depósitos em regiões ainda pouco mapeadas, com foco em teores mais altos e menores impactos ambientais.
  • Reciclagem e reaproveitamento de resíduos industriais e eletrônicos, o que reduz a pressão sobre a mineração primária.
  • Substituição parcial de terras raras em certos produtos, por meio de novos materiais e designs industriais.
  • Cooperação internacional para compartilhar tecnologia de processamento e padrões ambientais, além de alinhar regras de comércio.

Diante desse cenário, a combinação de dificuldade geológica, complexidade química, custo elevado e impactos ambientais mostra por que poucas nações controlam toda a cadeia das terras raras. Entre elas, a China mantém posição predominante, sustentada por grandes depósitos, décadas de investimento em mineração e refino, domínio tecnológico e políticas de exportação estratégicas. Em consequência, o país influencia diretamente o mercado global e se torna peça central nas discussões sobre segurança de suprimento e transição energética.

China_depositphotos.com / zhudifeng
Foto: Giro 10
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