Protestos se espalham pela Europa em meio à pressão por moradia, salários e serviços públicos

Mobilizações têm causas diferentes, mas revelam insatisfação com custo de vida, acesso à habitação e limites dos governos para ampliar gastos

21 out 2026 - 10h35
Resumo
Uma onda de protestos atinge a Europa, impulsionada pela insatisfação popular, sobretudo de jovens, com a crise de moradia, serviços públicos precários, baixos salários e o aumento do custo de vida. Manifestações na França, Espanha, Portugal, Itália e Bélgica reuniram milhares de pessoas e geraram confrontos com a polícia. O descontentamento reflete uma quebra no contrato social, enquanto governos endividados e com baixo crescimento enfrentam margem fiscal reduzida para atender às demandas.

Os protestos na Europa ganharam força em diferentes países nas últimas semanas. Na França, por exemplo, estudantes começaram cobrando melhores condições nas escolas. Na Espanha e em Portugal, a habitação ocupa o centro das manifestações. Já na Itália e na Bélgica, as reivindicações também envolvem educação, salários e redução de gastos públicos.

Protestos na Europa reúnem estudantes, trabalhadores e inquilinos em países com reivindicações distintas e pressões econômicas semelhantes
Protestos na Europa reúnem estudantes, trabalhadores e inquilinos em países com reivindicações distintas e pressões econômicas semelhantes
Foto: Reprodução/X / Perfil Brasil

Apesar das diferenças, existe um ponto de contato: parte da população, principalmente entre os mais jovens, demonstra insatisfação com despesas cada vez maiores e com a dificuldade dos governos de responder a essas pressões sem comprometer ainda mais as contas públicas.

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O que une os protestos na Europa?

De acordo com especialistas, combinação entre moradia cara, serviços públicos pressionados e insegurança econômica ajuda a explicar por que manifestações distintas passaram a ocorrer quase ao mesmo tempo. Mujtaba Rahman, diretor-geral para a Europa da Eurasia Group, resumiu essa percepção ao 'The Guardian'. 

"O que os une é a crescente percepção de que os governos europeus são incapazes de fornecer habitação acessível, serviços públicos funcionais e segurança econômica, especialmente para as gerações mais jovens", explicou.

O problema, contudo, não se resume às demandas sociais. Em vários países, governos enfrentam baixo crescimento e níveis elevados de endividamento. "O problema fundamental é que os políticos não conseguem oferecer esperança de uma vida melhor para muitos europeus porque a economia está crescendo muito lentamente e os governos acumularam dívidas enormes, o que lhes deixa pouca margem de manobra para aumentar os gastos públicos ou reduzir os impostos", apontou Andrew Kenningham, economista-chefe para a Europa da Capital Economics, à 'CNBC'. 

França reúne educação, custo de vida e pressão fiscal

Na França, a mobilização começou em setembro entre estudantes que reclamavam de falta de professores, turmas sobrecarregadas e instalações inadequadas. Depois, as manifestações passaram a incorporar temas mais amplos, como custo de vida e qualidade dos serviços públicos.

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No dia 17 de outubro, o governo francês informou que cerca de 550 mil pessoas participaram de 110 atos pelo país, incluindo 110 mil em Paris. Organizadores apresentaram estimativas maiores. Parte das manifestações terminou em confrontos, saques e ataques a prédios públicos. As autoridades registraram 2.513 detenções, enquanto algumas áreas de Paris, Lyon e outras cidades receberam toques de recolher noturnos.

O cenário ocorre em meio a forte pressão fiscal. A dívida pública francesa permanece acima de 100% do PIB há anos, enquanto o déficit previsto para 2026 está em 5,4% do PIB. A ex-ministra das Relações Exteriores da Espanha Arancha González, ao comparar os protestos franceses e espanhóis, apontou ao 'Corriere della Sera' uma leitura mais ampla sobre esse descontentamento: "Os motivos são diferentes, mas compartilham a mesma essência: o colapso do contrato social."

 "Os jovens franceses protestam pela educação, os jovens espanhóis pela moradia, mas na Europa, a ideia de que as economias geram bem-estar e igualdade social foi destruída", complementou.

Espanha e Portugal colocam moradia no centro

Na Espanha, a alta dos preços da habitação ganhou destaque depois que o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, em Madri, provocou forte reação entre moradores e organizações de inquilinos. No dia 3 de outubro, o governo estimou em 70 mil pessoas a participação em uma marcha na capital. Entidades ligadas à moradia apresentaram números superiores e passaram a cobrar aluguéis mais acessíveis, maior proteção contra despejos e limites à compra de imóveis residenciais por fundos de investimento.

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Em Portugal, acampamentos foram montados em Lisboa e no Porto, reunindo ativistas da habitação e sindicatos. As reivindicações incluem redução dos custos de moradia, melhores salários e proteção do poder de compra. Os dados ajudam a dimensionar a pressão. No segundo trimestre de 2026, Portugal registrou alta anual de 16,5% nos preços das casas, segundo o Eurostat.

Para a 'CNBC', o ministro português de Estado e Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, relacionou o problema à dificuldade de crescimento econômico: "A economia europeia não está crescendo tanto quanto a dos EUA e, sem crescimento econômico, é impossível ter salários melhores e recursos para melhores serviços públicos e apoio social."

Itália e Bélgica ampliam a pauta para educação e trabalho

Na Itália, estudantes passaram a protestar contra condições da educação, enquanto sindicatos ampliaram o foco para salários, precarização do trabalho e qualidade dos serviços públicos. Mais de 100 mil pessoas participaram de uma manifestação apoiada pela CGIL em Roma, no dia 17 de outubro, segundo estimativa divulgada pela própria entidade. O sindicato também anunciou uma greve geral para 20 de novembro.

Milão registrou confrontos após protestos do fim de semana. A polícia levou 271 pessoas para a delegacia e formalizou 32 prisões. O governo italiano anunciou depois o envio de 500 soldados para reforçar a segurança na cidade.

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Na Bélgica, estudantes contestam cortes na educação e o aumento dos custos para estudar. As mobilizações também se conectam à oposição sindical às medidas de austeridade. Em 17 de outubro, protestos em Bruxelas e Liège terminaram com 195 prisões, segundo a polícia.

Mesmo com temas em comum, analistas alertam para o risco de tratar os atos como uma única onda política organizada. Alberto Alemanno, professor de Direito da União Europeia, afirmou ao 'The Guardian': "As manifestações têm causas diferentes e não compartilham necessariamente objetivos políticos." De acordo com os especialistas, o que se repete é o descompasso entre expectativas sociais e a capacidade de resposta dos governos.

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