O cientista ucraniano Ihor Malchevsky, de 69 anos, sobreviveu a um ataque de drone russo contra a Academia Nacional de Ciências, em Kiev, ao se pendurar na janela do terceiro andar para fugir do fogo antes de ser resgatado. O ataque diurno, que deixou um morto e feridos, integra uma violenta escalada russa contra a capital ucraniana com drones a jato para burlar defesas aéreas, gerando revolta popular enquanto a população teme novos bombardeios à infraestrutura energética no inverno.
Ihor Malchevsky concentrou-se exclusivamente em sua família enquanto espreitava pela beirada da janela de seu escritório no terceiro andar, com uma espessa fumaça preta subindo atrás de si após um drone russo se chocar contra o prédio histórico, incendiando-o.
"Meus pensamentos estavam voltados para apenas uma coisa: como me salvar dessa situação", disse o homem de 69 anos, vice-chefe de departamento da Academia Nacional de Ciências da Ucrânia, no centro de Kiev, atingida na segunda-feira.
Malchevsky concentrou-se em sua esposa, seus dois filhos adultos e seus sete netos. Seu medo de altura não o impediu de se equilibrar do lado de fora da janela para fugir da intensa fumaça e das chamas violentas.
Imagens de Malchevsky e de um colega presos no prédio em chamas, construído na era czarista, alimentaram uma nova onda de indignação diante da escalada dos ataques russos à capital ucraniana, Kiev, e a outras cidades.
Nas últimas semanas, Moscou ampliou seus ataques fatais para atingir a logística de consumo, empresas e data centers. A Ucrânia atacou infraestruturas de petróleo e de defesa na Rússia, assim como varejistas online.
O ataque de segunda-feira, que matou uma pessoa e feriu várias outras, foi mais um de uma série crescente de ataques diurnos ao centro de Kiev, utilizando drones a jato desenvolvidos pela Rússia para superar as defesas aéreas ucranianas.
CENAS CAÓTICAS
Em entrevista à Reuters um dia depois do ataque, Malchevsky relembrou os momentos caóticos após o drone se chocar contra o edifício amarelo ornamentado, a poucos passos da Ópera Nacional e da embaixada alemã.
"Nos primeiros segundos você não entende nada -- depois a mente entra em ação e começa a analisar o que aconteceu", disse em uma entrevista dele, nos arredores de Kiev.
Lá embaixo, sirenes e alarmes de carros soavam enquanto transeuntes gritavam e as chamas rugiam pelo prédio.
Após momentos tensos agarrado à lateral do prédio, enquanto dezenas de curiosos observavam prendendo a respiração, Malchevsky desceu cautelosamente por uma escada fornecida pelas equipes de resgate.
Praticamente ileso, o pacato Malchevsky chegou à calçada e se sentou, ainda atordoado, em um parque do outro lado da rua, onde bebeu água em grandes goles para aliviar os efeitos da fumaça na garganta.
Familiares correram para o local após Malchevsky ligar para eles.
Sua filha, Kateryna Moskaliuk, de 37 anos, relembrou o momento em que bateu os olhos em seu pai após o ataque, coberto de fuligem.
Ela sorriu aliviada, mas expressou consternação pelas inúmeras outras famílias ucranianas afetadas por mais de quatro anos de guerra.
"Para que serve tudo isso?", perguntou Moskaliuk.
Os ucranianos esperam mais um inverno de ataques russos violentos à rede de energia do país, em meio à escassez de suprimentos essenciais para a defesa aérea.
Malchevsky -- cujos netos, brincando, o compararam ao "Homem-Aranha" depois de verem o vídeo no YouTube -- disse que a Ucrânia deve seguir lutando para enfraquecer a Rússia, apesar das tentativas de retomada das negociações de paz apoiadas pelos Estados Unidos.
Uma autoridade norte-americana afirmou nesta terça-feira que Kirill Dmitriev, o enviado do presidente russo, Vladimir Putin, teve conversas "construtivas" com seus homólogos norte-americanos.
(Texto de Dan Peleschuk)