População pede permanência de ONGs em Gaza após novas perdas provocadas por chuvas torrenciais

Gaza está sendo atingida novamente por chuvas torrenciais e frio extremo, com temperaturas que continuam a cair drasticamente. No sábado (10), um bebê de sete dias morreu de hipotermia em Deir al-Balah. "Tentamos de tudo, mas não havia aquecimento, nenhum abrigo seguro, nada para protegê-lo do frio", disse seu pai a jornalistas locais, descrevendo os sintomas de um sistema que está à beira do colapso há dias.

11 jan 2026 - 14h45

Com informações de Alice Froussard, correspondente da RFI em Jerusalém, e AFP

A proibição de Israel inclui o Médicos Sem Fronteiras (MSF), que tem 1.200 funcionários nos territórios palestinos — a maioria dos quais em Gaza.
A proibição de Israel inclui o Médicos Sem Fronteiras (MSF), que tem 1.200 funcionários nos territórios palestinos — a maioria dos quais em Gaza.
Foto: © Omar AL-QATTAA / AFP / RFI

Desde o fim do ano passado, a Faixa de Gaza vem sofrendo com as baixas temperaturas e chuvas fortes de inverno, agravando ainda mais a crise humanitária no enclave, apesar do cessar-fogo entre Israel e o movimento islâmico Hamas.

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Toda vez que há uma tempestade ou vento forte a história se repete: as barracas que abrigam a população refugiada não suportam. Na região central de Gaza, em Deir al-Balah, por exemplo, moradores tentam evitar perdas secando os abrigos o máximo que conseguem, mas é inútil.

"Acordamos no meio da noite ontem e descobrimos que nossa barraca estava completamente alagada e a água da chuva estava entrando por baixo. Agora não temos colchões nem cobertores para as nossas crianças", lamenta a palestina Umm Omar.

"As barracas não oferecem proteção contra o frio, a chuva ou doenças. Pior ainda, precisaria de uma nova, e nem isso é mais possível. Não temos mais opções. Até quando vamos ter que viver assim? É muito difícil. Nossos filhos e meu marido estão doentes. Apelamos a todos que nos veem para que nos apoiem e nos forneçam barracas", diz a mulher.

'Emergência humanitária'

O porta-voz da Defesa Civil, Mahmoud Basal, afirmou que não se trata de um desastre ambiental, mas sim de uma crise provocada por ação humana. Pois, apesar do cessar-fogo, Israel continua a restringir a entrada de barracas e a bloquear a chegada de casas móveis, materiais para abrigos e suprimentos para reconstrução.

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"Isto não é um desastre climático, é uma emergência humanitária de origem humana", Mahmoud Basal, porta-voz da Defesa Civil de Gaza.

Ele acrescenta que "as barracas estão rasgadas, as casas estão rachadas", deixando centenas de milhares de pessoas em condições extremamente precárias, sem segurança ou dignidade.

'Eles permaneceram ao nosso lado'

Diante da precariedade em Gaza, a população pede que permaneçam no enclave ONGs como o Médicos Sem Fronteiras (MSF), que vê seu trabalho humanitário na região ameaçado. Desde o início do ano, as autoridades israelenses ordenaram que 37 organizações estrangeiras, incluindo o MSF, deixem o país até o início de março, após se recusarem a enviar a Israel uma lista de seus funcionários palestinos.

"Eles permaneceram ao nosso lado durante toda a guerra", diz Adam Asfour, um menino com um ferimento de estilhaços no braço esquerdo, lamentando a perspectiva de Médicos Sem Fronteiras deixar a Faixa de Gaza.

A medida, unanimemente condenada pela comunidade internacional, supostamente visa a segurança. Mas tem sérias consequências para os pacientes.

"Quando soube que eles poderiam parar de trabalhar, fiquei muito triste", acrescenta Adam, que foi ferido em 1º de setembro durante um bombardeio. Ao redor dele e de sua mãe, há outras camas, outros pacientes, muitas crianças. Todos os entrevistados pela AFP disseram esperar que o MSF receba um adiamento.

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Funcionários da ONG foram vistos circulando pelos corredores da instalação, um dos últimos centros de saúde ainda em funcionamento no território palestino, onde caminhões de ajuda humanitária têm tido dificuldades para acessar desde o início da trégua entre Israel e o movimento islâmico Hamas, em outubro de 2025

O MSF afirma que fornece atendimento para pelo menos 20% dos leitos hospitalares na Faixa de Gaza, onde realizou mais de 800 mil consultas e mais de 10 mil partos em 2025. Experiente profissional humanitária, Claire Nicolet considera "irrealista" que a ONG saia em dois meses sem sérias consequências para a saúde em Gaza.

Com várias missões na região em seu currículo, ela lista algumas das atividades da organização: pediatria, tratamento de queimaduras e distribuição de água potável para uma população exausta após mais de dois anos de guerra.

"Temos mais de 20 centros de saúde. É praticamente impossível encontrar uma organização capaz de substituir tudo o que fazemos", explica Nicolet.

Futuro incerto

O futuro imediato das equipes humanitárias do Médicos Sem Fronteiras permanece incerto. "Por enquanto, continuaremos trabalhando pelo maior tempo possível", afirma Kelsie Meaden, chefe de logística do MSF.

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"Entre os desafios que já enfrentamos estão a impossibilidade de trazer novos funcionários internacionais para Gaza, bem como os problemas de abastecimento. Ainda não ficamos sem suprimentos, mas inevitavelmente enfrentaremos escassez", acrescenta ela. 

Diversas fontes humanitárias confirmaram à AFP que pelo menos três funcionários estrangeiros de ONGs, cujos pedidos foram rejeitados por Israel, foram impedidos de entrar no país pela passagem de Kerem Shalom, no sul da Faixa de Gaza.

O Ministério da Diáspora de Israel, que supervisiona as ONGs, acusa os funcionários da MSF de manterem laços com grupos armados palestinos, algo que a organização nega.

Israel tem acusado repetidamente o Hamas de usar hospitais, protegidos pelo direito internacional, para esconder armas e combatentes. O exército israelense tem atacado esses hospitais com grande intensidade.

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