A OMS alertou que a crise sanitária em Gaza pode piorar com as chuvas de inverno, que ameaçam espalhar lixo e esgoto em acampamentos superlotados. A contaminação da água triplicou entre janeiro e agosto, dobrando os casos de diarreia aguda. Com 94% da população dependente de ajuda humanitária, a agência pede que Israel suspenda as restrições à entrada de suprimentos médicos e laboratoriais para conter novos surtos de doenças e apoiar o já sobrecarregado sistema de saúde local.
"Embora ainda não consigamos fornecer à população a quantidade mínima de água necessária, a qualidade e a contaminação da água continuam sendo um grande problema", afirmou Reinhilde Van de Weerdt, representante da OMS para o Território Palestino Ocupado, a jornalistas em Genebra, falando a partir de Gaza.
Entre janeiro e agosto deste ano, mais de 6.700 amostras de água foram analisadas. Segundo a OMS, a contaminação microbiológica quase triplicou, passando de menos de 6% em janeiro para mais de 18% em agosto.
Isso levou a "um aumento significativo dos casos de diarreia aquosa aguda no mesmo período. O número quase dobrou, passando de cerca de 27 mil em março para mais de 48 mil em agosto", afirmou Van de Weerdt.
Ela destacou que a grande maioria dos moradores de Gaza ainda vive em tendas improvisadas, em acampamentos cercados por montes de lixo que chegam a vários metros de altura.
A aproximação da estação chuvosa e do inverno pode agravar uma situação sanitária já bastante precária. Com a inundação dos assentamentos superlotados, o esgoto, o lixo e a água contaminada "se espalharão pelos espaços onde os moradores dormem, cozinham e cuidam de seus filhos", aumentando o risco de doenças transmitidas pela água.
Pragas, mosquitos, mofo e bactérias também tendem a proliferar, enquanto o sistema de saúde de Gaza, já sobrecarregado, enfrenta dificuldades para responder a novos surtos de doenças.
Abastecimento de água
"Precisamos urgentemente de mais abrigos permanentes, de um abastecimento de água sustentável, tanto em quantidade quanto em qualidade, e de sistemas de gestão de resíduos", além de suprimentos laboratoriais para identificar rapidamente as causas das doenças, enfatizou a representante.
No entanto, ela ressaltou que suprimentos essenciais de laboratório e diagnóstico, incluindo reagentes necessários para testes, ainda não têm autorização para entrar em Gaza. Por isso, a OMS apela às autoridades israelenses para que "permitam a entrada rápida, sem entraves e em larga escala, de medicamentos e suprimentos essenciais".
A entrada e a distribuição de ajuda humanitária continuam sujeitas a restrições impostas por Israel, incluindo inspeções de cargas, autorizações de acesso, limitações à circulação de equipes humanitárias e restrições à entrada de determinados materiais considerados sensíveis. Essas limitações são apontadas por agências humanitárias como um dos principais obstáculos à resposta à crise.
A ONU descreve a situação humanitária em Gaza como crítica e denuncia graves violações do direito internacional desde o início do conflito, em outubro de 2023. Segundo a organização, cerca de 1,98 milhão de palestinos, o equivalente a 94% da população, necessitam de abrigo ou de algum tipo de assistência para atender às suas necessidades básicas.
Além da destruição de edifícios, a crise provoca escassez de barracas, energia, combustível e equipamentos essenciais para dormir, cozinhar, higienizar-se e armazenar água.
Com AFP