Com mais de 40% das intenções de voto na Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, da Alternativa para a Alemanha (AfD), pode se tornar o primeiro governador de extrema direita do país no pós-guerra. Apoiado em uma imagem carismática, ele propõe deportações em massa e cortes a ONGs, usando o estado como laboratório político. O avanço preocupa setores democráticos devido às propostas drásticas, denúncias de nepotismo e à proximidade de sua bancada parlamentar com membros ligados ao neonazismo.
Jovial e sorridente, mas à frente de um programa partidário drástico: Ulrich Siegmund, da AfD, quer transformar pequeno estado alemão da Saxônia-Anhalt num laboratório para a política da ultradireita na Alemanha.A Saxônia-Anhalt é um estado pequeno, de pouco menos 2 milhões de habitantes, com a menor força econômica e a menor expectativa de vida entre os 16 estados federados da Alemanha.
Mesmo assim, quando a eleição estadual ocorrer por lá, no próximo domingo (06/09), os olhares do mundo estarão voltados para a capital, Magdeburgo.
O resultado do pleito poderá transformar o deputado estadual Ulrich Siegmund no primeiro governador da Alternativa para a Alemanha (AfD) e no primeiro político de um diretório partidário classificado pelas autoridadescomo extremista de direita a assumir esse cargo desde a formação da República Federal da Alemanha, em 1949.
As pesquisas de opinião mostram Siegmund e seu partido claramente na liderança, com entre 40% a 43% das intenções de votos. Nas vésperas do pleito, a dúvida é se a AfD irá conquistar a maioria absoluta das cadeiras no parlamento da Saxônia-Anhalt, o que lhe permitiria governar sozinha, ou se uma aliança dos demais partidos (todos descartaram governar com a AfD) conseguirá impedi-la de chegar ao poder.
Quem é Ulrich Siegmund?
As coisas estão indo muito bem para Siegmund, de 35 anos. Durante sua campanha eleitoral pelo estado, ele atraiu multidões até mesmo em pequenas cidades. Frequentemente, está cercado por uma enxurrada de jornalistas internacionais: de emissoras canadenses, dinamarquesas e suíças, da BBC e da revista britânica The Economist, além de dezenas de repórteres de toda a Alemanha. Todos querem saber: quem é Ulrich Siegmund?
O candidato nasceu na pequena cidade de Havelberg, na Saxônia-Anhalt, em 1990. Filiou-se à União Democrata Cristã (CDU), partido de centro-direita, aos 19 anos, mas deixou a legenda cinco anos depois para ingressar na AfD.
Ex-vendedor de perfumes, ele transmite uma imagem dinâmica e atlética: magro, bonito e de aparência jovem. Acima de tudo, é uma pessoa alegre, desempenhando o papel de um líder carismático em suas aparições públicas.
Com o slogan de campanha "Tudo é possível", Siegmund tem feito campanha para tentar mais do que dobrar os 20,8% dos votos recebidos pela AfD no estado em 2021. Em agosto, a revista semanal Der Spiegel estampou na sua capa uma foto de Siegmund com o título O homem mais perigoso da Alemanha. O político da AfD respondeu passando a ironicamente autografar exemplares da revista em comícios.
A DW acompanhou a campanha eleitoral dele pelo interior da Saxônia-Anhalt. Quando chega às praças das cidades diante de uma multidão entusiasmada, retribui os aplausos com sorrisos, apertos de mão e piadas. Nada em sua postura parece forçado; é visível que ele aprecia o ritmo intenso da campanha.
"Não sei quando houve pela última vez um índice de aprovação tão alto, inclusive entre os jovens", disse Siegmund à DW. "É simplesmente enorme." Ele fala rapidamente, de forma articulada e com grande naturalidade.
Campanha animada, programa drástico
Até mesmo observadores críticos compartilham a avaliação de que a AfD vive um momento favorável. "Os eventos de campanha da AfD funcionam de forma impecável, tanto em termos logísticos quanto de estratégia política", observa David Begrich, da organização Miteinander, de Magdeburgo, que atua no combate ao extremismo de direita. "É um marketing sofisticado das políticas do partido."
Mas o que exatamente as políticas da AfD pretendem alcançar? A julgar pelos discursos de campanha de Siegmund, o objetivo é um retorno a uma era passada, quando a Alemanha ainda não se via como um país de imigração, a eletricidade vinha de usinas nucleares em vez de turbinas eólicas e os direitos da população LGBTQ+ não interessavam a ninguém.
Siegmund afirma querer fazer uma política "do povo, para o povo", como costuma dizer em seus discursos. Aparentemente, isso não inclui todas as pessoas que vivem no estado.
O "plano de ação imediata dos primeiros cem dias" da AfD contém propostas como a promessa central de "deportar desde o primeiro minuto" cidadãos estrangeiros que não tenham direito legal de permanecer no país, mas cuja permanência é tolerada por razões humanitárias. Muitos deles encontraram emprego e estabeleceram suas vidas na Alemanha.
O plano também prevê cortes de financiamento para ONGs pró-democracia, a obrigatoriedade de trabalho para refugiados e a priorização do amor à pátria alemã em detrimento da diversidade social. Na Saxônia-Anhalt, a AfD ainda quer permitir o ensino domiciliar, além de promover aulas de russo e abolir a "inclusão" de alunos com necessidades especiais em turmas mistas.
Existem, contudo, dúvidas jurídicas significativas sobre se um governo estadual teria realmente autoridade para implementar todas essas promessas.
Assessores controversos
As dúvidas também recaem sobre a imagem de integridade e honestidade que Siegmund cultiva e procura passar ao seu partido.
Ele não conseguiu escapar das acusações de nepotismo que perseguem a AfD, depois que surgiram relatos de que vários parlamentares estaduais e federais do partido garantiram empregos bem remunerados para amigos e parentes nos gabinetes de outros políticos da legenda.
O próprio Siegmund conseguiu uma posição para seu pai. Embora isso não seja ilegal, a atitude foi mal recebida, até dentro da AfD.
Também chamam atenção as pessoas que cercam Siegmund. Além de ser o principal candidato da AfD no estado, ele também é o líder da bancada do partido no parlamento estadual da Saxônia-Anhalt.
Segundo informações do jornal Die Welt, essa bancada emprega quatro ex-integrantes de uma organização neonazista atualmente proibida, a Heimattreuen Deutsche Jugend (HDJ, ou Juventude Alemã Fiel à Pátria).
Antes de ser banida, a organização admirava abertamente o nazismo de Adolf Hitler e seguia sua ideologia racial, responsável pelo assassinato de 6 milhões de judeus e de centenas de milhares de sinti e roma durante o Holocausto.
Além disso, durante eventos de campanha, Siegmund demonstra pouca preocupação em manter distância de símbolos neonazistas ou de apoiadores oriundos da extrema direita radical. A DW o observou em aparições públicas ao lado de homens que usavam roupas ou tatuagens associadas à cena neonazista, como o chamado "Sol Negro", um símbolo reconhecido internacionalmente entre grupos neonazistas.
Até onde se pode ir?
Mas o que tudo isso significaria caso a AfD chegasse ao poder após a eleição estadual? "Há muitos indícios de que, se a AfD assumir o governo, transformará a Saxônia-Anhalt num laboratório político", analisa Begrich.
"Até onde se pode ir na violação das regras escritas e, talvez mais importante ainda, das regras não escritas da cultura democrática num estado alemão?"
Por esse motivo, igrejas, sindicatos, associações, partidos políticos e amplos setores da sociedade civil alertam para os riscos de uma vitória da AfD e de Siegmund.
Begrich compartilha dessa preocupação. "Naturalmente, as coisas se tornariam difíceis, acima de tudo, para aqueles que pertencem a minorias ou que não se enquadram na visão ideológica e política da AfD. O clima social inevitavelmente caminharia para uma regulamentação autoritária da vida pública, e isso seria um problema para pessoas que precisam da abertura liberal na sociedade tanto quanto precisam de ar para respirar."
Como muitos críticos, Begrich acredita que vencer na Saxônia-Anhalt é apenas o primeiro passo de um partido que pretende chegar ao poder em toda a Alemanha.
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