Brasileira é condenada à prisão perpétua na Itália por planejar morte do marido

4 set 2026 - 12h26

O que parecia ser um acidente de trânsito em uma estrada de Parabiago, na região da Lombardia, na Itália, terminou revelado como um homicídio planejado ao longo de meses. A brasileira Adilma Pereira Carneiro, de 51 anos, foi condenada à prisão perpétua pela morte do marido, o ciclista Fabio Ravasio, de 52 anos.

Ravasio morreu em 9 de agosto de 2024, depois de ser atingido por um carro na via Vela. Inicialmente, o caso foi tratado como um atropelamento acidental. A investigação, porém, apontou que o veículo havia sido usado para atingir o ciclista.

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A sentença foi proferida em 15 de junho de 2026. As justificativas da decisão foram apresentadas posteriormente em um documento de 240 páginas, cujo conteúdo passou a ser divulgado pela imprensa italiana em agosto.

Para os magistrados, Adilma ocupava o centro da organização. Ela teria idealizado o assassinato e coordenado uma rede de pessoas encarregadas de diferentes etapas da execução.

Crime teria sido montado como um acidente

De acordo com a sentença, a morte de Ravasio não foi resultado de uma decisão tomada de última hora. O plano teria sido construído por meio de encontros, contatos e distribuição de funções entre os participantes.

Um dos envolvidos foi Massimo Ferretti, barista e ex-companheiro de Adilma. Ele confessou participação durante as investigações e relatou que parte das reuniões para preparar a ação ocorreu em seu estabelecimento, o Maison Café.

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Segundo o depoimento, Ferretti conhecia a rotina de Ravasio e teria ajudado na escolha do ponto em que o atropelamento seria realizado.

A investigação aponta que Adilma chegou a considerar a contratação de um matador de aluguel. O custo estimado, de aproximadamente 100 mil euros, teria feito o grupo buscar outra alternativa: utilizar pessoas do próprio círculo para transformar o assassinato em um suposto acidente.

Em março de 2025, Ferretti deixou a prisão de Busto Arsizio e passou a cumprir prisão domiciliar, com monitoramento por tornozeleira eletrônica. Por meio de sua advogada, Debora Piazza, afirmou que pretendia buscar uma forma de “justiça restaurativa e deixar o passado para trás”. Ele também disse ter sido movido por um “apego doentio” a Adilma.

A investigação identificou diferentes papéis na execução do plano. Igor Benedito, filho de Adilma, foi apontado como o motorista do carro que atingiu Ravasio. Mirko Piazza teria atuado como vigia, acompanhando a movimentação para que a emboscada pudesse ser realizada.

Já Fabio Oliva, que trabalhava como mecânico, teria participado da preparação do veículo utilizado na ação. Fabio Lavezzo também foi apontado como um dos executores.

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Segundo os magistrados, os demais envolvidos ficaram responsáveis por tarefas relacionadas ao acompanhamento da vítima, bloqueio de sua passagem, logística, fuga e eliminação ou ocultação de vestígios.

A sentença descreveu, portanto, uma estrutura em que cada integrante teria uma atribuição específica para que a morte pudesse ser apresentada como um acidente.

Patrimônio estaria entre as motivações

Além da dinâmica do atropelamento, a Justiça italiana analisou a situação financeira da família e apontou uma possível motivação econômica para o assassinato. Segundo as razões da sentença, a morte de Ravasio permitiria que Adilma tivesse acesso ao patrimônio do companheiro e a valores relacionados a seguros de vida.

Os dois viviam juntos havia anos e tinham filhos gêmeos. A investigação financeira também examinou o patrimônio acumulado pela família e as movimentações de dinheiro realizadas antes da morte do ciclista.

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Adilma havia se casado com Marcello Trifone em 2016, embora mantivesse a relação com Ravasio. Trifone era herdeiro de uma família ligada à indústria. Os magistrados afirmaram que parte desse patrimônio teria sido progressivamente reduzida e que uma parcela dos recursos foi enviada para fora da Itália.

Em 2023, verificações bancárias identificaram transferências e saídas de dinheiro que chegavam a 226 mil euros. Segundo a sentença, parte significativa dos valores teria sido destinada a líderes religiosos brasileiros.

As investigações financeiras também encontraram operações envolvendo Brasil, França e Espanha, além de pessoas próximas a Adilma. O procurador Ciro Caramore não descartou novas apurações relacionadas a um homem identificado como José Maria Ferreira De Gois e a possíveis transferências de dinheiro.

Outro ponto analisado pelos juízes foi a maneira como Adilma teria conseguido mobilizar pessoas para participar do plano. Na avaliação dos magistrados, a brasileira exercia forte influência sobre integrantes de seu círculo pessoal. Alguns deles, segundo a investigação, mantinham relações amorosas ou pessoais com ela.

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Ferretti relatou que Adilma dizia ser vítima de violência doméstica e também acusava Ravasio de molestar os filhos. De acordo com o depoimento, essas alegações teriam contribuído para convencê-lo a participar do plano.

A imprensa italiana também relatou que Adilma teria feito promessas de vantagens aos envolvidos, entre elas a possibilidade de compra de imóveis. Os juízes consideraram que nem todos os participantes tinham uma vantagem financeira evidente. O mecânico Fabio Oliva, por exemplo, teria contribuído com a preparação do carro principalmente em razão de sua relação pessoal com Adilma.

Quem é a brasileira condenada

Natural do Rio Grande do Norte, Adilma Pereira Carneiro viveu em São Paulo antes de se mudar para a Itália. Ela era sócia de uma empresa de compra e venda de imóveis em Magenta e acumulava patrimônio em seu nome.

Entre os bens mencionados durante a investigação estão um imóvel que teria sido adquirido com 500 mil euros emprestados pelos pais de Ravasio, uma BMW e uma casa na Riviera Francesa.

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Na imprensa italiana, a brasileira recebeu os apelidos de “Louva-a-Deus de Parabiago” e “Viúva Negra Brasileira”, em referência às fêmeas de determinadas espécies que podem matar o macho após a reprodução.

Adilma vivia com Ravasio desde o nascimento dos filhos gêmeos do casal, oito anos antes do crime. Apesar disso, ela ainda era formalmente casada com Ferretti.

Ao todo, oito pessoas foram condenadas no processo relacionado à morte de Ravasio. Além de Adilma, receberam prisão perpétua Marcello Trifone e Fabio Lavezzo. As demais penas foram:

  • Massimo Ferretti: 24 anos de prisão;
  • Igor Benedito: 23 anos;
  • Mohammed Dhaibi: 22 anos;
  • Mirko Piazza: 14 anos e quatro meses;
  • Fabio Oliva: 14 anos.

A decisão também determinou responsabilidade conjunta pelo pagamento de indenizações por danos não patrimoniais às partes civis. As defesas de Adilma, Mohammed Dhaibi, Marcello Trifone e Fabio Lavezzo anunciaram que irão recorrer das condenações.

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O caso envolvendo Ariane, filha de Adilma, segue separadamente e deverá ser analisado em outro julgamento.

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