A polícia alemã busca Daniel V., um médico de 48 anos suspeito de sabotar a rede elétrica do país com artefatos improvisados. Em cartas autênticas enviadas à imprensa, ele assumiu a autoria dos atos motivado por causas ambientais e políticas, como críticas aos combustíveis fósseis e à guerra em Gaza. O caso amplia o alerta na Alemanha para a segurança de infraestruturas estratégicas, já pressionada por ações de grupos radicais internos e suspeitas de operações de guerra híbrida ligadas a Moscou.
O suspeito reivindicou os ataques por meio de correspondências enviadas a autoridades e veículos de imprensa. Nas cartas, ele afirma ter agido sozinho e descreve os métodos utilizados para atingir diferentes instalações da rede elétrica da Alemanha.
Segundo o jornal alemão Bild, a polícia realizou uma operação nesta sexta-feira (4) na residência do suspeito, mas ele não foi encontrado. De acordo com o veículo, Daniel V. seria um médico de 48 anos e poderia estar se deslocando em uma caminhonete de cores amarela e vermelha.
A Focus, uma das principais revistas do país, afirma que o homem vive em uma pequena cidade do oeste da Alemanha, região onde duas instalações elétricas foram recentemente atacadas, nas cidades de Bergheim e Dormagen.
As investigações partiram de ao menos duas cartas enviadas a veículos de comunicação e atribuídas ao suspeito. Nelas, o autor descreve detalhadamente como teria provocado curtos-circuitos em diferentes instalações elétricas e anuncia novos ataques.
Segundo a revista, os investigadores do estado de Brandemburgo consideram autênticos os documentos recebidos. Nas cartas, o homem explica que utilizou artefatos semelhantes a fogos de artifício para lançar fios metálicos sobre linhas de transmissão, provocando falhas e interrupções no sistema.
Daniel V. apresenta motivações de natureza política e ideológica. "Os combustíveis fósseis são um crime que provoca sofrimento infinito", escreveu. Ele também menciona o "genocídio na Palestina" e afirma querer dificultar a produção de armamentos alemães exportados para Israel.
Ataques começaram no leste do país
O primeiro incidente da série ocorreu na terça-feira (1º), em Jänschwalde, no estado de Brandemburgo, no leste da Alemanha.
O alvo foi uma subestação responsável por distribuir eletricidade produzida por uma das maiores usinas termelétricas a carvão do país. Segundo as autoridades, artefatos explosivos improvisados danificaram cabos elétricos, provocando interrupções temporárias e abrindo uma investigação por suspeita de sabotagem.
Nos dias seguintes, foram registrados episódios semelhantes em Bergheim e Dormagen, no estado da Renânia do Norte-Vestfália. As autoridades passaram a investigar a existência de um elo entre os ataques depois que as cartas de reivindicação mencionaram os três locais.
Embora nenhum dos incidentes tenha provocado apagões de grande escala, parte da operação de usinas elétricas foi afetada. Em Bergheim, cinco unidades de geração movidas a lignito chegaram a ser temporariamente desconectadas da rede.
A polícia ainda não informou se considera encerrada a possibilidade de participação de outras pessoas ou grupos. Até o momento, as investigações se concentram na hipótese de que os atos tenham sido praticados pelo mesmo autor.
Infraestrutura crítica virou preocupação nacional
A sucessão de ataques ocorre em um momento de alerta elevado na Alemanha em relação à proteção de infraestruturas consideradas estratégicas.
Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, autoridades alemãs afirmam ter identificado um aumento de episódios de espionagem, sabotagem e outras operações classificadas como parte de uma estratégia de guerra híbrida. Berlim atribui parte dessas ações a Moscou, que rejeita as acusações.
A preocupação se intensificou nesta semana. Também na terça-feira, o governo alemão responsabilizou oficialmente a Rússia por uma suposta tentativa de ataque com drone carregado de explosivos no aeroporto de Leipzig, considerado uma infraestrutura logística estratégica. Autoridades alemãs e da União Europeia afirmaram que o episódio apresenta características compatíveis com operações russas já identificadas em outros países europeus. O Kremlin negou qualquer envolvimento.
Diante desse cenário, cada novo incidente envolvendo energia, transportes ou instalações militares passou a receber atenção especial das autoridades alemãs, ainda que nem todas as ocorrências sejam atribuídas a atores estrangeiros.
Ações de grupos radicais também preocupam autoridades
Nos últimos anos, a Alemanha também enfrentou ataques reivindicados por grupos locais, especialmente da esquerda radical.
O episódio mais grave ocorreu em 3 de janeiro deste ano, quando um incêndio criminoso atingiu uma instalação elétrica em Berlim e deixou mais de 100 mil pessoas sem energia. A ação foi reivindicada pelo grupo Vulkangruppe, que justificou o ataque como uma forma de combate ao uso de combustíveis fósseis e ao modelo econômico baseado em energia fóssil.
Segundo estudos e relatórios de segurança publicados na Alemanha, o grupo é suspeito de envolvimento em diversos episódios de sabotagem registrados na região de Berlim e Brandemburgo ao longo dos últimos anos, incluindo ações contra linhas de alta tensão e instalações industriais.
Dados divulgados neste ano indicam que a polícia alemã registrou centenas de ocorrências classificadas como atos de sabotagem contra infraestruturas críticas em 2025, abrangendo redes de energia, sistemas de transporte e instalações estratégicas. O aumento desses casos levou o Parlamento alemão a reforçar a legislação voltada à proteção de serviços essenciais.
As investigações sobre os ataques desta semana continuam, enquanto as autoridades tentam localizar o suspeito e determinar se ele agiu sozinho ou se faz parte de uma estrutura mais ampla de ativismo radical.
Com AFP