Dois petroleiros que transportavam petróleo saudita para a Ásia mudaram de rota no Mar Vermelho nesta terça-feira, após ameaças dos houthis do Iêmen, alinhados com o Irã, à medida que um conflito cada vez mais amplo no Oriente Médio interrompeu a navegação por dois dos pontos de estrangulamento energético mais críticos do mundo.
Forças norte-americanas bombardearam alvos no sul e no oeste do Irã durante a madrugada, enquanto Teerã atacou instalações norte-americanas no Barein, no Kuweit e na Jordânia, e um petroleiro foi atingido no Estreito de Ormuz, na foz do Golfo.
O Irã afirmou ter atacado infraestrutura pertencente à Amazon no Barein, onde a empresa de tecnologia norte-americana opera um centro de dados regional. A Amazon não se pronunciou imediatamente e a Reuters não conseguiu verificar a informação.
Os houthis, que controlam o norte e o oeste do Iêmen, incluindo a costa na foz do Mar Vermelho, anunciaram na segunda-feira um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, abrindo uma nova frente potencial na guerra. Em uma carta aos transportadores marítimos, eles ameaçaram atacar qualquer navio que carregasse ou descarregasse petróleo saudita.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que os houthis ainda não haviam fechado o Bab el-Mandeb, o estreito conhecido como "Portão das Lágrimas" que dá acesso ao Mar Vermelho, e ameaçou agir contra eles caso o fizessem.
"Até agora isso não aconteceu. Pode acontecer, mas nós cuidamos disso. Se algo assim acontecer, nós cuidamos disso", disse Trump.
Mas o anúncio dos houthis já parecia estar causando impacto. Dois petroleiros que haviam acabado de carregar petróleo saudita com destino à China e à Índia no porto de Yanbu, na Arábia Saudita, no Mar Vermelho, deram meia-volta nesta terça-feira, rumando para o Canal de Suez em vez de seguirem pelo estreito de Bab el-Mandeb em direção ao Oceano Índico.
"Esses acontecimentos representam as primeiras mudanças confirmadas nas rotas dos petroleiros comerciais após o embargo (dos houthis) e provavelmente aumentarão as interrupções nas exportações de petróleo saudita e nos padrões de transporte marítimo regional", afirmou nesta terça-feira o grupo britânico de gestão de riscos marítimos Vanguard.
Com a guerra fechando o Estreito de Ormuz, que dá saída ao Golfo, o Mar Vermelho tem servido como a principal rota alternativa para a saída de milhões de barris de petróleo saudita por dia, desviados por oleoduto através de Yanbu.
Os preços do petróleo subiram mais de 2% nesta terça-feira, com o petróleo Brent oscilando acima de US$91 o barril e a gasolina nos EUA voltando a custar mais de US$4 o galão.
EUA ATACAM O SUL E O OESTE DO IRÃ
O Comando Central dos EUA informou ter atingido centros de comando militar iranianos, instalações marítimas, bases de lançamento de mísseis e drones e sistemas de defesa aérea em sua última rodada de ataques, que vêm ocorrendo noturnamente há mais de uma semana e meia.
Explosões foram ouvidas nos arredores da cidade de Shiraz, no sul do Irã, informou a mídia estatal. Konarak e Chabahar, na costa sul, a cidade de Khorramabad e um local civil nos arredores da cidade de Abdanan, ambos no oeste, foram alvo de ataques, segundo relatos da mídia. Posteriormente, a agência de notícias Irna citou uma autoridade em Khorramabad afirmando que nenhum ataque inimigo havia ocorrido na região.
Cinquenta civis foram mortos e 500 ficaram feridos nos recentes ataques dos EUA ao Irã, informou uma autoridade do Ministério da Saúde. Washington informou que três soldados norte-americanos foram mortos nos últimos dias na região e afirma que está punindo o Irã por suas mortes.
IRÃ REALIZA ATAQUES EM TODA A REGIÃO
Os Estados Unidos e o Irã vêm testando os limites da escalada desde o colapso, neste mês, de um acordo provisório de algumas semanas para interromper os combates.
O Irã lançou novos ataques nesta terça-feira em todo o Golfo, onde ataques recentes a instalações de dessalinização geraram preocupações com a escassez nos países do deserto que dependem quase inteiramente da remoção do sal da água do mar para obter água potável.
O Kuweit afirmou que estava respondendo a um ataque com drones e mísseis na tarde de terça-feira. O Kuweit relatou ataques que causaram danos à geração de energia nos últimos dias em usinas que também produzem água potável.
Sirenes soaram no Barein, onde a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter atacado infraestrutura pertencente à Amazon, em resposta ao que descreveram como um ataque dos EUA ao canteiro de obras de uma usina nuclear iraniana planejada.
A mídia estatal iraniana informou que as forças iranianas também lançaram ataques contra quartéis militares dos EUA no Barein e bases no Kuweit e na Jordânia.
PETROLEIROS ATINGIDOS
A agência de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido informou nesta terça-feira que um petroleiro no Estreito de Ormuz relatou ter sido atingido por um projétil desconhecido, forçando sua tripulação a abandonar a embarcação e embarcar em um bote salva-vidas.
Também nesta terça-feira, a Guarda Revolucionária do Irã informou que dois petroleiros pegaram fogo após explosões enquanto tentavam transitar pela rota sul do Estreito de Ormuz.
Washington tem incentivado os navios a usar a rota sul do estreito. O Irã exige que eles utilizem, em vez disso, uma rota alternativa ao norte, próxima à sua costa, onde pretende, no futuro, cobrar taxas de trânsito.
Apenas quatro navios de carga cruzaram o Estreito de Ormuz na segunda-feira, a maioria utilizando a rota marítima do norte, próxima à costa do Irã, uma queda em relação aos sete do dia anterior, segundo dados da Kpler.
Ao longo da guerra, a Arábia Saudita escapou parcialmente das interrupções no transporte marítimo ao canalizar o petróleo para Yanbu, no Mar Vermelho. Mas um fechamento total dessa rota alternativa pelos houthis poderia reduzir o abastecimento global de petróleo, já que deixaria a maior parte das exportações de petróleo sauditas retidas.
ESFORÇO DIPLOMÁTICO PARA RESTAURAR O CESSAR-FOGO
Uma alta autoridade iraniana disse à Reuters na segunda-feira que Teerã havia recebido uma proposta dos mediadores para um cessar-fogo de 10 dias, em um esforço para salvar o acordo provisório, destinado a abrir caminho para um acordo duradouro que ponha fim à guerra iniciada em 28 de fevereiro com os ataques dos EUA e de Israel ao Irã.
Em um sinal de que a diplomacia continua viva, o ministro do Interior do Irã, Eskandar Momeni, visitou o Paquistão, que atua como mediador, e pediu a Islamabad que continuasse seus esforços.
Trump, que recebeu na Casa Branca o presidente do Líbano para conversas sobre um cessar-fogo em uma guerra paralela entre Israel e o Hezbollah libanês, aliado do Irã, disse que os iranianos "querem desesperadamente se reunir, e até que estejam prontos para se reunir de maneira significativa, não temos interesse".