Ataques se intensificam na guerra entre Rússia e Ucrânia, com aumento de vítimas civis

Conflito registra alta de 37% nas vítimas civis em 2026 e ataques ucranianos levam guerra a regiões antes consideradas distantes da linha de frente.

21 jul 2026 - 15h25

Anissa El Jabri, correspondente da RFI na Rússia, com agências

O conflito entre Rússia e Ucrânia provocou um aumento expressivo no número de vítimas civis nos primeiros seis meses de 2026. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), foram registradas 1.396 mortes e 7.978 feridos na Ucrânia, alta de 37% em relação ao mesmo período do ano passado e quase o dobro do registrado em 2024.

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A ONU também aponta agravamento da situação dentro da Rússia. Com base em informações consideradas confiáveis pelas Nações Unidas, o país contabilizou 250 civis mortos e 1.596 feridos no primeiro semestre, um crescimento de 121% na comparação anual. De acordo com o órgão, os ataques com drones de curto alcance são responsáveis por grande parte desse aumento, com alta de 65% nas perdas civis.

O porta-voz do Alto Comissariado, Thameen Al Kheetan, reforçou que ataques deliberados contra civis e infraestruturas civis violam o direito internacional humanitário e podem configurar crimes de guerra.

Enquanto o número de vítimas cresce, a guerra também altera a rotina em regiões russas antes consideradas fora do alcance dos combates. Um dos episódios mais marcantes ocorreu no início de julho, quando drones ucranianos atingiram a refinaria de Omsk, uma das maiores e mais importantes da Rússia, localizada a cerca de 2.500 quilômetros da linha de frente.

Dissonância entre discurso oficial e realidade 

Embora o ataque não tenha provocado um colapso no abastecimento de combustíveis - a cidade enfrentou apenas dois dias de desabastecimento -, o episódio abalou a sensação de segurança da população. A refinaria é estratégica para o país e responde por cerca de um em cada oito litros de diesel consumidos na Rússia.

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Moradores relatam que o ataque evidenciou uma diferença entre o discurso oficial e a realidade vivida. "Na televisão, dizem que temos a defesa aérea mais eficiente. Nos noticiários, falam do número de drones abatidos, mas não mencionam quantos atingiram o alvo. Por isso as pessoas acreditam que estão protegidas. Além disso, as autoridades costumam minimizar as consequências", explica Anastasia Kidalova, candidata às eleições locais pelo partido pacifista Iabloko, em Omsk.

"E quando, de repente, algo atinge diretamente a cidade, as pessoas pensam: 'Como isso é possível? Por quê?' Elas percebem que não existe mais território intocável. Essa situação já é comum na parte oeste da Rússia, onde as pessoas estão acostumadas e sabem como reagir. Para nós, é novo, assustador e nem sempre fácil de compreender."

Seu partido, apesar da enorme pressão, conseguiu autorização para apresentar candidatos em várias regiões nas eleições locais e nacionais de setembro, e faz campanha por um cessar-fogo imediato na Ucrânia.

Medo do caos caso a Rússia não vença

Apesar disso, o sentimento predominante entre parte da população continua sendo de apoio ao governo e de temor sobre as consequências de uma eventual derrota militar. Um morador defende, em linha com o que se ouve na televisão, uma resposta violenta ao ataque: "Esse conflito poderia ter terminado há muito tempo se tivéssemos recorrido a métodos diferentes", diz. "A situação poderia ter sido resolvida de outra forma: pela força bruta, e muito mais rapidamente, embora, é claro, ao custo de um número ainda maior de vítimas civis."

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Essa opinião, também presente entre blogueiros nacionalistas linha-dura, pode ser interpretada de outra maneira, analisa Anastasia Kidalova. Se a maioria dos russos não demonstra derrotismo é também porque entre eles "há pessoas movidas pelo medo. Isso foi plantado em suas mentes por anos de propaganda: se algum dia perdermos uma guerra, seremos destruídos, a Otan virá nos escravizar", diz.

A refinaria de Omsk duas semanas depois do ataque de drones ucranianos.
A refinaria de Omsk duas semanas depois do ataque de drones ucranianos.
Foto: RFI

Para a militante, aqueles que não querem que seu país perca não expressam necessariamente o desejo de uma "vitória", cujos contornos eles próprios não definem claramente. Eles têm, sobretudo, medo do caos e dos distúrbios que poderiam surgir de uma derrota e desestabilizar ainda mais o país.

Desejo de fim dos combates que nunca foi tão forte

Ao mesmo tempo, cresce entre os russos o desejo pelo fim da guerra. Moradores ouvidos em Omsk relatam preocupação com a falta de perspectivas para o futuro, o receio de uma nova mobilização militar e o impacto do conflito sobre as famílias.

"Tudo isso virou um círculo vicioso de ataques e represálias. É preciso que isso pare, que possamos voltar a viver em paz, como antes, há apenas cinco anos, quando era possível viajar para o exterior, quando se podia ganhar a vida sem pensar duas vezes, quando se vivia tranquilamente. Para mim, era uma época dourada", diz um jovem russo.

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Um posto de combustíveis fechado em Omsk.
Foto: RFI

O medo de uma nova mobilização, como a de setembro de 2022, após as eleições do final do ano, é recorrente na Rússia. Mas nos últimos meses, ele ganhou uma dimensão evidente. O desejo de ver os combates cessarem, por sua vez, bate recordes desde o início do conflito, inclusive nas pesquisas oficiais.

Questionada, uma moradora de Omsk afirmou: "Eu só quero que haja paz, é isso. Que tudo pare agora na linha de contato, isso já me bastaria. Vidas demais foram perdidas. Isso me preocupa profundamente. Vejo o quanto as famílias sofrem. Um acordo de paz ruim vale mais do que uma boa guerra."

Diante dos impactos dos ataques sobre a infraestrutura energética, o governo russo adotou medidas para conter problemas no abastecimento, como o bloqueio temporário das exportações de diesel, enquanto autoridades e aliados do Kremlin buscam evitar pânico entre a população em meio à intensificação da guerra.

Com RFI e AFP

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