Paul Lorgerie, da RFI em Paris
Shabana Mahmood sobreviveu ao que os jornais The Guardian e TheTimes chamaram de "expurgo". Ao contrário de muitos aliados do ex-primeiro-ministro Keir Starmer, a trabalhista foi reconduzida, na segunda-feira, 20, ao cargo de ministra do Interior no governo recém-nomeado de Andy Burnham.
Conhecida como a responsável pelo endurecimento da política de asilo, ela se vangloriou, em um postagem na rede social X, de ter "iniciado o trabalho para uma grande reforma, para garantir a segurança das nossas ruas e tornar nosso sistema de imigração justo para todos. Agora, vamos terminar o trabalho".
Uma missão que pode surpreender, considerando que se trata de uma política muçulmana e filha de imigrantes. Nascida em Birmingham, de pais paquistaneses, Shabana Mahmood passou parte da infância na Arábia Saudita, onde seu pai trabalhava como engenheiro civil. De volta à cidade natal alguns anos depois, sua família abriu uma mercearia no bairro de Small Heath, no centro, marcado pela insegurança. "O pai dela mantinha um taco de críquete atrás do balcão para afastar possíveis ladrões", observa o Guardian.
It is an honour to remain as Home Secretary in @andyburnham's Cabinet.
I may be biased, but it's the best job in the business.
We have begun the work of major reform, to make our streets safer and our immigration system fair for all. Now let's finish the job. pic.twitter.com/g42dN789Bk
— Shabana Mahmood MP (@ShabanaMahmood) July 20, 2026
No Reino Unido, ela cresceu ouvindo os discursos do pai, figura do Partido Trabalhista local. Mas, segundo Parveen Akhtar, pesquisadora em políticas e relações internacionais da Universidade de Aston, que estudou sua trajetória, foi após os atentados de 11 de Setembro que Mahmood se politizou. Suas origens paquistanesas, país onde o mandante dos ataques às Torres Gêmeas poderia estar escondido, passaram a ser alvo de suspeitas. "Ela foi responsabilizada por fatos que ocorreram a milhares de quilômetros", escreve a politóloga. Sua família é, de fato, fruto da imigração, mas de uma imigração legal, que "respeita as regras", argumento que ela repetiria mais tarde para justificar suas posições.
Do gabinete-sombra à lei de asilo
Sua carreira decolou em 2010, quando ainda atuava como advogada. Eleita ao Parlamento britânico, ela rapidamente ingressou no gabinete-sombra - um governo alternativo formado pela oposição - de Ed Miliband, que também foi nomeado ministro das Relações Exteriores no novo governo. Mahmood se aproximou de Keir Starmer e das principais figuras do partido até se tornar, em 2024, ministra da Justiça no primeiro governo do então premiê, e depois assumir o comando do Home Office, equivalente ao ministério do Interior.
Ela enfrenta diretamente a imigração ilegal, um dos temas que mais preocupam o eleitorado britânico, à frente até da questão econômica. Em novembro de 2025, apresentou seu texto, descrito como "a reforma mais importante do sistema de asilo britânico em uma geração". Entre as medidas estão o status de refugiado agora temporário, residência permanente apenas após 20 anos no país, restrições ao reagrupamento familiar, expulsão de menores e a reinterpretação da Convenção Europeia dos Direitos Humanos pelos juízes. Uma reforma para "restaurar a ordem", afirma Mahmood, fortemente criticada dentro do próprio Partido Trabalhista.
ONGs de defesa dos direitos humanos temem que o governo britânico viole suas obrigações em matéria de asilo e, segundo o Guardian, cerca de vinte parlamentares trabalhistas expressaram reservas sobre as medidas propostas pela ministra do Interior. "Não entrei para os Trabalhistas para ver crianças vulneráveis colocadas em voos de deportação", indignou-se um deputado ao jornal. "Isso é terrível e claramente inspirado pela estratégia da extrema direita, e muitos de nós sentimos o mesmo", alertou outro.
A recondução de Shabana Mahmood para "terminar o trabalho" não é, na verdade, uma surpresa. Embora seu nome para assumir as Finanças tenha circulado nos corredores do número 10 da Downing Street, residência do premiê e sede do governo, Andy Burnham também havia apoiado sua proposta de lei no Parlamento. No fim, o projeto, alterado em relação à versão inicial para "restaurar a confiança da população no sistema de asilo", segundo a ministra, foi aprovado em 13 de julho por 264 votos a 90.