Jean-Baptiste Breen, da redação da RFI em Paris
Andy Burnham se prepara para assumir o comando do Reino Unido e vai suceder Keir Starmer, que permaneceu pouco mais de dois anos no cargo, o período mais curto para um primeiro-ministro trabalhista desde 1924.
Após enfrentar forte oposição política nos últimos meses, inclusive dentro do próprio partido, Burnham tentará reorganizar o governo. Prefeito da Grande Manchester por nove anos, o chamado "rei do Norte" precisará formar rapidamente uma equipe que será cobrada pelos britânicos em relação aos temas mais urgentes.
Burnham tem insistido na "necessidade de descentralização, no controle público da economia, na proteção social e na reindustrialização, ou seja, em grandes temas que ainda precisam ser detalhados de forma concreta", explica Aurélien Antoine, professor universitário e especialista em instituições britânicas.
Essas questões são relevantes diante da situação econômica enfrentada pelo país há mais de seis anos. A pandemia de Covid-19, ocorrida em meio ao Brexit, já havia abalado a economia britânica. A invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, provocou uma disparada da inflação. Ela atingiu 11% em outubro daquele ano, o maior patamar em quatro décadas. Embora tenha recuado desde então, a inflação ainda estava em torno de 2,8% em maio de 2026.
Apesar da desaceleração, o alívio não é percebido no cotidiano. "Mesmo que a inflação já não esteja tão elevada, o efeito acumulado do aumento dos preços significa que as famílias enfrentam um custo de vida muito superior ao de 2021", destaca um relatório da pesquisadora Brigid Francis-Devine, da Câmara dos Comuns.
Os preços da energia, impulsionados pela guerra no Oriente Médio, e os gastos com alimentação estão entre os principais fatores da alta do custo de vida. Segundo a Food Foundation, o valor médio de uma cesta de compras aumentou cerca de 12 libras esterlinas (cerca de R$ 82,60.) desde 2022.
Em 2024, o governo trabalhista prometeu construir 1,5 milhão de moradias em cinco anos. Mas a meta está longe de ser alcançada. Essas demandas pressionam ainda mais as contas públicas em um momento em que o governo pretende elevar os gastos com defesa para 3% do PIB, o que implicaria um custo adicional de cerca de 9 bilhões de libras por ano.
Para resolver essa equação complexa, Burnham defende maior participação do Estado na economia. No entanto, terá de enfrentar o debate sobre os gastos públicos, tema em que seus antecessores obtiveram poucos resultados concretos.
Starmer, por exemplo, tentou restringir o acesso ao Personal Independence Payment (PIP), benefício destinado a pessoas com deficiência cujas despesas são afetadas pela condição. Diante da forte reação dentro do próprio Partido Trabalhista, foi obrigado a recuar.
Avanço da extrema direita
O cenário econômico tem favorecido o crescimento da extrema direita britânica. Impulsionados pela expansão de movimentos semelhantes em outros países europeus, discursos xenófobos ganharam espaço no Reino Unido.
Fundado em 2019, o Reform UK, partido liderado por Nigel Farage, surgiu como uma alternativa populista para os problemas econômicos do país e tem como uma de suas principais bandeiras a oposição à imigração.
Defensor do Brexit, o partido obteve mais de 4 milhões de votos nas eleições gerais de 2024. O resultado garantiu apenas cinco cadeiras no Parlamento devido ao sistema eleitoral britânico, mas colocou a legenda em terceiro lugar em número de votos, atrás dos trabalhistas e dos conservadores.
Desde abril de 2025, o Reform UK lidera as pesquisas de intenção de voto com vantagem considerável sobre os demais partidos.
Influenciadores e militantes nacionalistas também se apoderaram das redes sociais, seguindo um modelo semelhante ao universo político ligado ao movimento MAGA (Make America Great Again) nos Estados Unidos.
Muitos deles também participam de manifestações identitárias que continuam reunindo milhares de pessoas e terminam em confrontos.
Embora Nigel Farage tenha procurado se distanciar de Tommy Robinson, um dos agitadores políticos mais populares da extrema direita britânica, ambos compartilham objetivos semelhantes.
Robinson, cujo nome verdadeiro é Stephen Yaxley-Lennon, tornou-se um dos favoritos do empresário Elon Musk, dono da rede X, da Tesla e da SpaceX. Musk tem alimentado debates nacionalistas e teorias conspiratórias relacionados ao Reino Unido e a outros países europeus.
Em junho de 2026, Tommy Robinson viajou à Rússia acompanhado de Errol Musk, pai de Elon Musk, com despesas custeadas pela fundação da família do bilionário, segundo informações publicadas pelo jornal The Guardian.
Conter o crescimento das tensões sociais será uma prioridade para Burnham. As próximas eleições gerais deverão ocorrer até 15 de agosto de 2029.
Até lá, os trabalhistas precisarão encontrar uma resposta eficaz ao avanço da extrema direita se quiserem permanecer no poder. Ainda mais porque a saída forçada de Starmer abalou a imagem do partido.
Recuperar a credibilidade trabalhista
Depois de conquistar uma ampla vitória eleitoral, o governo Starmer não conseguiu transformar o capital político em resultados duradouros. A retirada do subsídio de aquecimento para aposentados e as tentativas de endurecer o acesso a benefícios para pessoas com deficiência foram algumas das medidas mais impopulares do período.
Em vários casos, o governo precisou voltar atrás diante das críticas de integrantes do próprio Partido Trabalhista. A confiança obtida nas urnas em 2024 acabou se dissipando. A nomeação de Peter Mandelson como embaixador nos Estados Unidos agravou a situação quando ele passou a figurar entre os principais nomes citados após as revelações ligadas ao caso Epstein.
As eleições locais e regionais de maio de 2026 evidenciaram a rejeição crescente ao governo Starmer. O Reform UK foi o principal beneficiado. Dos cerca de 5 mil cargos de vereadores em disputa, a legenda de extrema direita conquistou mais de 1.400. Antes da eleição, os trabalhistas controlavam mais de 2.500 desses postos. Após a votação, ficaram com apenas 1.068.
Na Escócia e no País de Gales, que também renovaram seus Parlamentos neste ano, o Reform UK conquistou, respectivamente, 17 e 34 cadeiras. Nas eleições anteriores, não havia conquistado nenhuma.
Além disso, os trabalhistas passaram a enfrentar concorrência crescente pela esquerda, com os Verdes ampliando gradualmente sua base eleitoral. Apesar dos resultados negativos, Starmer resistiu à pressão e recusou-se a deixar Downing Street. Uma rebelião interna cada vez maior acabou levando à sua renúncia, em 22 de junho.
Mantido no cargo até a escolha oficial de um sucessor, o primeiro-ministro viu sua popularidade despencar. Segundo levantamento da YouGov, sua aprovação havia caído para 28% em 15 de julho. Em um país que já teve sete primeiros-ministros em dez anos desde o Brexit, Andy Burnham assume o poder em meio a um cenário de instabilidade política e precisará apresentar resultados rapidamente para ter chances de permanecer no cargo.