Jean-Baptiste Breen, da RFI em Paris
O Polymarket é uma plataforma norte-americana criada em 2020 que permite apostar dinheiro na ocorrência de acontecimentos futuros. O serviço oferece mercados relacionados a eleições, processos judiciais, conflitos armados, decisões políticas e diversos outros temas da atualidade. Com isso, usuários podem investir em previsões sobre fatos reais e lucrar caso o desfecho apostado se concretize.
A França ampliou nesta sexta-feira (17) sua ofensiva contra a plataforma ao determinar o bloqueio de seu acesso em todo o país. A medida foi anunciada pela Autoridade Nacional dos Jogos (ANJ), órgão regulador do setor, que informou ter ordenado na véspera às operadoras francesas de internet que impeçam o acesso ao site.
As apostas realizadas por residentes na França já eram proibidas desde novembro de 2024. Na ocasião, após intervenção da ANJ, a empresa implementou um sistema de bloqueio geográfico para impedir apostas feitas a partir do território francês.
Apesar disso, o portal continuava acessível. Qualquer usuário podia consultar sua página principal, visualizar os eventos disponíveis e acompanhar em tempo real as cotações atribuídas a cada cenário.
Segundo a autoridade reguladora, essa exposição mantinha a promoção de uma atividade cuja exploração não é autorizada no país.
Regulador considera serviço incompatível com legislação francesa
A legislação francesa proíbe, como regra geral, jogos de azar com dinheiro, salvo em modalidades especificamente autorizadas pelo Estado, como determinadas apostas esportivas e atividades exploradas por operadores licenciados. O entendimento da ANJ é que o modelo de negócios do Polymarket não se enquadra nessas exceções.
Em novembro de 2024, o órgão iniciou tratativas com a empresa e concluiu que os serviços oferecidos não respeitavam as normas francesas sobre jogos de azar. Como consequência, a plataforma deixou de aceitar apostas originadas da França.
Segundo Jean-Baptiste Vila, professor e diretor da Faculdade de Direito da Universidade da Polinésia Francesa, foi com base nesses princípios que a autoridade francesa determinou a proibição da oferta do serviço aos consumidores do país.
Ainda assim, a ANJ avaliou que a permanência da página inicial acessível ao público continuava funcionando como instrumento de divulgação da plataforma.
Por isso, decidiu avançar para uma etapa adicional e ordenar o bloqueio integral do acesso ao site.
Popularidade continuou crescendo
De acordo com a própria ANJ, o interesse pelo Polymarket não diminuiu após a restrição imposta em 2024. O órgão estima que a plataforma recebeu 578.751 visitas provenientes da França em junho deste ano, além de 205.057 visitantes únicos.
Esses números dizem respeito a usuários que acessaram o site, mas que, em teoria, não podiam realizar apostas.
Na prática, porém, especialistas apontam que restrições geográficas podem ser contornadas com o uso de uma VPN, ferramenta que permite alterar virtualmente a localização de um dispositivo conectado à internet.
Por meio desse recurso, usuários conseguem aparentar estar conectados a partir de outro país e, assim, acessar serviços indisponíveis em sua região.
Segundo o advogado Pascal Reynaud, especialista em jogos online, eventuais punições penais recaem principalmente sobre operadores de plataformas ilegais, e não sobre os apostadores.
Dependência e suspeitas de fraude preocupam autoridades
Além dos riscos associados à dependência em jogos, a ANJ afirma que determinados mercados de apostas podem criar incentivos para manipulações e fraudes.
Um dos casos citados pelo regulador envolve apostas relacionadas à meteorologia. Em abril deste ano, suspeitas de manipulação atingiram equipamentos utilizados para registrar dados climáticos na França.
O episódio chamou a atenção porque determinadas apostas da plataforma dependiam justamente dessas medições para definir seus resultados.
A controvérsia levou o serviço meteorológico francês Météo-France a apresentar uma denúncia formal.
A ANJ também manifesta preocupação com possíveis casos de uso de informação privilegiada.
Nos Estados Unidos, um militar norte-americano foi denunciado após obter mais de US$ 400 mil em ganhos ligados a apostas realizadas no Polymarket. Segundo a acusação, ele começou a apostar milhares de dólares em dezembro de 2025 em mercados relacionados a uma possível operação contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro.
O caso alimentou críticas sobre a possibilidade de pessoas com acesso antecipado a informações sensíveis obterem vantagens indevidas em plataformas desse tipo.
Ao justificar o bloqueio, a ANJ afirmou que busca impedir a promoção de uma atividade considerada ilegal em território francês e reduzir a exposição dos consumidores a riscos financeiros associados a esse modelo de bets.