A escolha de Burnham foi ratificada durante um congresso extraordinário da legenda e marcou a etapa final de uma transição iniciada após a renúncia de Starmer, anunciada em junho.
A votação teve caráter protocolar. Recém-eleito para a Câmara dos Comuns, Burnham contava com o apoio de mais de três quartos dos parlamentares trabalhistas, garantindo uma ampla maioria dentro da sigla antes mesmo do encontro partidário.
Aos 56 anos, o ex-prefeito da Grande Manchester usou seu primeiro discurso como líder trabalhista para apresentar uma mensagem centrada na unidade interna e na reconstrução da confiança na política britânica.
"Estamos unidos e colocamos a força dessa unidade a serviço das pessoas e dos territórios que esperam há tempo demais que a política lhes devolva esperança", afirmou diante de uma plateia lotada. "É exatamente isso que vamos fazer. Vamos devolver a esperança", acrescentou.
Burnham também prestou homenagem a Starmer, a quem substituirá oficialmente no comando do governo quando entrar na residência oficial do primeiro-ministro, no número 10 da Downing Street, em Londres.
Descentralização de poder e promessa de mudança política
Apesar da rápida ascensão ao comando do país, ainda há dúvidas sobre como Burnham pretende conduzir o governo no dia a dia. Os principais sinais sobre seu projeto político vieram de declarações feitas após sua vitória na eleição suplementar de Makerfield, em 18 de junho.
Na ocasião, ele prometeu promover o que chamou de "maior reequilíbrio de poderes da história da Grã-Bretanha", defendendo uma transferência mais ampla de competências administrativas e políticas para regiões e autoridades locais.
O trabalhista argumenta que parte do descontentamento social observado em diversas áreas do país decorre da concentração de decisões em Londres e da percepção de abandono em cidades e regiões fora do centro econômico britânico.
Conhecido por defender os interesses do norte da Inglaterra, Burnham recebeu ao longo dos anos o apelido de "rei do Norte", referência à influência política que construiu durante sua gestão à frente da Grande Manchester.
Sua estratégia busca substituir a lógica de confronto político por mecanismos de cooperação entre governo central, administrações regionais e comunidades locais.
A nova liderança trabalhista também tem diante de si o desafio de conter o avanço do Reform UK, partido de extrema direita liderado por Nigel Farage que vem ampliando sua presença no debate político nacional e que é visto por dirigentes trabalhistas como uma ameaça nas próximas eleições gerais, previstas para ocorrer até 2029.
Pressão sobre política externa e ajuda ao desenvolvimento
Antes mesmo de tomar posse, Burnham passou a enfrentar pressões relacionadas à política externa britânica. Organizações não governamentais cobraram nesta sexta-feira uma revisão dos cortes na ajuda internacional anunciados pelo governo de Starmer para financiar o aumento dos gastos com defesa.
De acordo com análise baseada no relatório financeiro anual do Ministério das Relações Exteriores britânico, divulgado na quinta-feira (16), as despesas destinadas à cooperação internacional serão reduzidas em 43% ao longo dos próximos três anos, o equivalente a uma diminuição superior a £ 1 bilhão (quase R$ 7 bilhões).
Segundo a rede Bond, que reúne mais de 300 organizações do setor humanitário, alguns dos países mais pobres da África Subsaariana sofrerão reduções drásticas nos recursos recebidos de Londres. Malawi e Moçambique, por exemplo, deverão registrar queda de cerca de 90% em comparação com os níveis anteriores aos cortes iniciados nos exercícios de 2024 e 2025.
A entidade estima ainda que a ajuda destinada ao Afeganistão será reduzida em quase 40% durante o ano fiscal de 2026-2027, enquanto Mianmar poderá perder aproximadamente 30% dos recursos.
As medidas haviam sido anunciadas por Starmer em fevereiro, em meio a restrições orçamentárias e ao baixo crescimento da economia britânica. A decisão provocou a saída da então secretária de Estado para o Desenvolvimento Internacional, Anneliese Dodds.
ONGs cobram mudança de rumo
As críticas se intensificaram após a divulgação dos detalhes financeiros do plano.
"Os programas britânicos em Mianmar salvam vidas. Esses cortes vão custar vidas", afirmou Anna Roberts, diretora-executiva da Burma Campaign UK, que acusou o governo de implementar as mudanças discretamente às vésperas do recesso parlamentar.
Jean McLean, da Oxfam UK, advertiu que os efeitos serão sentidos por famílias afetadas pela fome, crianças sem acesso à saúde e à educação e comunidades que tentam sobreviver aos impactos de conflitos e eventos climáticos extremos.
A Plan International UK classificou a redução dos recursos como "revoltante".
Já a ONE Campaign, organização voltada ao combate à pobreza na África, apelou diretamente ao futuro primeiro-ministro para rever a política. O diretor da entidade, Adrian Lovett, afirmou que Burnham construiu sua trajetória defendendo comunidades que se sentiam esquecidas no noroeste da Inglaterra e pediu que ele não ignore agora os países mais vulneráveis do chamado Sul Global.
Na quinta-feira, a secretária de Estado para o Desenvolvimento Internacional, Jenny Chapman, havia defendido a decisão do governo, afirmando que Londres não está abandonando os desafios globais e que pretende tornar mais eficiente cada libra investida em programas de desenvolvimento.
Com pouco tempo até a posse, Burnham terá de decidir se mantém a estratégia adotada por seu antecessor ou se promove uma inflexão numa das áreas mais contestadas da política externa britânica. Na segunda-feira, ele deverá anunciar s linhas gerais de seu programa de governo, além da composição de seu gabinete, que promete representar todas as correntes do Partido Trabalhista.
Com AFP