Segundo o tribunal da cidade, entre os condenados estão vários ex-executivos da concessionária de rodovias Autostrade per l'Italia (Aspi), responsável pela gestão do gigantesco viaduto situado na estrada que liga a Itália à França.
Giovanni Castellucci, ex-diretor-geral da Autostrade, já preso por outro acidente fatal ocorrido em 2013 em um viaduto no sul da Itália, recebeu a pena mais severa. Ele foi considerado culpado por negligência e homicídio culposo ao fim de um julgamento iniciado em 2022 sob uma grande tenda montada no pátio do tribunal de Gênova.
"Sinto-me responsável, mas não culpado", declarou ele aos juízes, apesar das conclusões contundentes dos magistrados encarregados de investigar a tragédia, cujas imagens correram o mundo.
Os ex-números 2 e 3 da Autostrade foram condenados, respectivamente, a cinco anos e meio e 11 anos de prisão. Um ex-funcionário do Ministério italiano da Infraestrutura e dos Transportes responsável pela fiscalização das concessões rodoviárias recebeu pena de cinco anos de prisão.
Outros 28 corréus, de um total de 57 acusados, também foram considerados culpados e condenados a penas de pelo menos um ano e 11 meses de prisão, informou a agência de notícias Agi.
"Erros e omissões graves"
"Hoje podemos dizer que existem culpados pelas mortes dos nossos parentes", declarou Michele Matti Altadonna, irmão de uma das 43 vítimas, após a leitura da sentença.
"Essa ponte não desabou por acaso. (...) Como sempre sustentamos, e como o Ministério Público afirmou repetidamente, esse colapso poderia ter sido evitado", declarou o advogado Raffaele Caruso, representante do comitê de familiares das vítimas da ponte Morandi.
O vice-ministro italiano da Infraestrutura e dos Transportes, Edoardo Rixi, comemorou o fato de que "as responsabilidades foram finalmente estabelecidas".
"O desabamento não foi uma fatalidade, mas o resultado de erros e omissões graves por parte daqueles que tinham o dever de garantir a segurança" da obra, afirmou.
"É um dia de enorme peso histórico e emocional para a cidade de Gênova", comentou a prefeita da cidade, Ilaria Salis, dentro do tribunal.
Empresas escaparam do julgamento
Durante o processo, os magistrados destacaram que, entre a inauguração da ponte, em 1967, e seu desabamento, 51 anos depois, não foram realizadas intervenções mínimas de manutenção para reforçar os cabos do pilar número 9, que cedeu no dia da tragédia.
A fragilidade desses cabos era conhecida. Obras de reforço já haviam sido realizadas em dois pilares idênticos, os de números 10 e 11, e intervenções semelhantes estavam previstas para o pilar 9.
A tragédia lançou luz sobre o estado precário da infraestrutura de transporte na Itália e sobre o papel controverso da Autostrade, acusada de negligenciar a manutenção da obra para reduzir custos.
A defesa, porém, contestou essa conclusão. Giovanni Paolo Accinni, advogado de Giovanni Castellucci, afirmou nesta quinta-feira que seu cliente é inocente e anunciou que recorrerá da sentença. Segundo a principal tese da defesa, o desabamento teria sido provocado por um defeito oculto de construção - a corrosão dos cabos da ponte - e não pela falta de manutenção.
Embora seus antigos dirigentes tenham sido levados ao banco dos réus, a Autostrade e sua subsidiária Spea escaparam do julgamento graças a um acordo firmado com o Ministério Público. Na época da tragédia, a concessionária pertencia ao grupo Atlantia, controlado pela família Benetton. Sob forte pressão da classe política e da opinião pública, os Benetton acabaram vendendo sua participação ao Estado em maio de 2022.
RFI com AFP