Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e outros altos funcionários norte-americanos percorriam as ruas geladas de Davos esta semana, o medo e, em alguns casos, o desprezo se misturavam com a resignação em relação à maneira como o governo conduz os negócios.
Embora muitas pessoas presentes no evento tenham dito à Reuters que consideravam que algumas das posições de Trump sobre questões globais, como a exigência de que a Europa gastasse mais em sua própria segurança, tinham mérito, elas se sentiram profundamente ofendidas pela maneira como ele e sua equipe apresentaram essas questões.
"Foi algo avassalador. Foi o verdadeiro show do Trump que tivemos aqui", disse Conradin Cramer, chefe do governo cantonal da cidade suíça de Basileia, após o discurso de Trump na quarta-feira, na reunião anual do Fórum Econômico Mundial.
"Ele se manifestava abertamente contra a Europa, contra os valores europeus, e isso me assustava", disse Cramer à Reuters.
Os líderes empresariais também estavam nervosos, com dois banqueiros baseados nos EUA admitindo no início que estavam preocupados com o desenvolvimento de uma guerra comercial em grande escala, que afetaria o sentimento empresarial.
REUNIÃO MAIS MARCANTE?
Vários participantes afirmaram que, sob certos aspectos, esta foi uma das reuniões mais marcantes em cinco décadas do fórum, que denominou o evento deste ano como "Um Espírito de Diálogo".
Trump fechou um acordo sobre a Groenlândia à margem do evento, com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, e supervisionou a assinatura de seu novo Conselho da Paz, atraindo diversos líderes mundiais para Davos.
O presidente e outros funcionários norte-americanos também disseram estar perto de um acordo de paz na Ucrânia -- algo que ganhou destaque na quinta-feira, quando o presidente Volodymyr Zelenskiy viajou para Davos.
O enviado do presidente Vladimir Putin, Kirill Dmitriev, também manteve conversas com autoridades norte-americanas à margem do evento, sendo o primeiro oficial russo a chegar a Davos desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022.
Vários participantes disseram à Reuters que a reunião anual -- a primeira desde a saída do fundador do fórum, Klaus Schwab, no ano passado -- foi uma vitória para o presidente-executivo da BlackRock, Larry Fink.
Um porta-voz disse que Schwab não estava disponível para comentar.
Fink, que também é copresidente do fórum, usou sua influência para atrair grandes nomes, incluindo o bilionário Elon Musk, que fez sua estreia em Davos como uma adição de última hora à programação.
Trump disse que Fink transformava em ouro tudo o que tocava.
Em algumas sessões, os moderadores pareceram evitar perguntas difíceis e a agenda, em grande parte, contornou temas aos quais o governo Trump se opôs. O programa contou com quatro sessões que fizeram referência às mudanças climáticas, enquanto em 2022 foram 16.
Trump discursou por mais de uma hora, muito além do tempo previsto em sua agenda, e quando finalmente se sentou para uma sessão moderada de perguntas e respostas, um pequeno, porém constante, fluxo de delegados já estava deixando a sala.
AGENDA DE TRUMP SE APROFUNDA
Vários participantes disseram que, embora a presença de Trump fosse marcante, negócios foram fechados em Davos, com executivos se reunindo com clientes e discutindo assuntos que variam de geopolítica e comércio a stablecoins e inteligência artificial.
Francesco Ceccato, presidente-executivo do Barclays na Europa, afirmou que a reunião teve uma "mistura de geopolítica que não pode ser ignorada".
Mas também houve "muito diálogo interessante" em torno da IA e questões relacionadas, como risco de investimento e necessidades energéticas, disse Ceccato à Reuters.
A agenda de Trump permeou muitas das discussões.
O secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, provocou fortes reações ao criticar a Europa em um jantar oferecido por Fink, do qual a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, se retirou.
Na noite seguinte, em um evento do Bank of America, Lutnick conversou animadamente com o presidente-executivo Brian Moynihan, segundo uma fonte familiarizada com o evento na "Goals House", onde a ministra das Finanças britânica, Rachel Reeves, jogou xadrez e Marcus Mumford se apresentou ao vivo, incluindo uma versão acústica de "I'm on Fire", de Bruce Springsteen.
Como de costume nas festas e reuniões em torno de Davos, os participantes fofocavam e trocavam boatos, embora alguns tenham gerado ansiedade.
No início da semana, circulou um boato de que as redes móveis e de internet seriam desligadas quando Trump chegasse à cidade.
No fim das contas, tanto os telefones quanto a internet funcionaram perfeitamente.