"A República Islâmica do Irã não busca a guerra, mas está totalmente preparada para a guerra", afirmou o chefe da diplomacia durante uma conferência com embaixadores estrangeiros em Teerã, transmitida pela TV estatal. "Também estamos prontos para negociações, mas elas devem ser justas, com direitos iguais e baseadas no respeito mútuo", acrescentou.
Segundo o porta-voz do ministério iraniano das Relações Exteriores, Esmail Baghai, um canal de comunicação está "aberto" entre o país e o emissário americano para o Oriente Médio, em referência a Steve Witkoff, apesar da ausência de relações diplomáticas entre os dois países inimigos. A declaração foi transmitida nesta segunda pela TV estatal.
"Mensagens serão trocadas sempre que necessário", disse o porta-voz. Segundo ele, os interesses americanos no Irã serão representados pela embaixada da Suíça, devido à ausência de relações diplomáticas entre Washington e Teerã, rompidas em 1980.
Em uma publicação em persa na plataforma X, o guia supremo iraniano, Ali Khamenei, desafiou Trump.
Que aquele que está sentado ali com arrogância e orgulho, julgando o mundo inteiro, saiba que os tiranos e arrogantes deste mundo, como o faraó, Nimrod, Reza Khan, Mohammad Reza e outros, foram derrubados quando estavam no auge de seu orgulho — e ele também será derrubado", escreveu Khamenei.
Today, the Iranian nation is even more equipped and armed than that day [before the Revolution]. Both our spiritual strength and hard, conventional weapons can't be compared to what we had before.
— Khamenei.ir (@khamenei_ir) January 9, 2026
"O Irã ligou, eles querem negociar", afirmou Trump a jornalistas a bordo do avião presidencial Air Force One. "Poderíamos nos encontrar", acrescentou. "Uma reunião está sendo organizada, mas poderemos ser levados a agir antes da reunião diante da situação."
Em declaração feita no domingo (11), Trump disse não se opor a "opções fortes", que podem incluir intervenção militar no Irã, diante da repressão violenta do regime de Teerã às manifestações que atingem o país desde o fim de dezembro. O presidente dos EUA ameaçou várias vezes, nos últimos dias, oferecer ajuda aos manifestantes caso a repressão por parte de Teerã fosse muito "brutal".
Trump pode se reunir na terça-feira com seus principais conselheiros para discutir opções em relação ao Irã. Segundo o Wall Street Journal, foram citados ataques militares, o uso de armas cibernéticas, o reforço das sanções e apoio on-line a fontes antigovernamentais. "O Exército está examinando a questão, e estamos estudando opções muito fortes", declarou.
No domingo, o Irã ameaçou Israel e bases americanas no Oriente Médio com represálias caso os EUA interviessem contra a República Islâmica. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o Irã responderia a qualquer ataque americano atingindo bases militares e o transporte marítimo dos EUA.
China se opõe a interferência estrangeira
"Nós sempre nos opomos à interferência nos assuntos internos de outros países", declarou a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, questionada sobre as declarações de Trump.
"A China espera que o governo e o povo iranianos superem as dificuldades atuais e mantenham a estabilidade do país", disse ela, pedindo que "todas as partes trabalhem mais em prol da paz e da estabilidade no Oriente Médio".
Onda de protestos
As manifestações no Irã, iniciadas em 28 de dezembro por comerciantes do bazar de Teerã que protestavam contra a inflação e a queda do rial, se espalharam para diversas cidades do interior. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou nesta segunda que a situação está "sob controle". Ele acrescentou que a internet, cortada desde quinta-feira, seria restabelecida em coordenação com as forças de segurança.
O governo iraniano decretou neste domingo três dias de luto nacional para homenagear a memória dos "mártires" da "resistência" e convocou manifestações de apoio à República Islâmica nesta segunda. O presidente Massoud Pezeshkian pediu à população que participe dos atos em todo o país para denunciar as violências cometidas, segundo ele, por "criminosos terroristas urbanos".
A TV estatal iraniana exibiu nesta segunda imagens ao vivo de uma grande multidão participando dos funerais de integrantes das forças de segurança mortos em Shahroud, assim como imagens de manifestações pró-governo organizadas em diferentes cidades, como Kerman, Zahedan e Birjand. O Irã acusa os Estados Unidos e Israel de fomentarem os protestos.
Segundo a ONG Hrana, com sede nos Estados Unidos, o número de vítimas nos protestos no Irã é de cerca de 580 pessoas, incluindo mais de 50 integrantes das forças de segurança. A mesma organização relata 10 mil prisões feitas pelas autoridades iranianas.
A onda de protestos cresceu e representa um dos maiores desafios para a República Islâmica desde sua fundação, em 1979. O filho do último xá do Irã e figura da oposição em exílio nos EUA, Reza Pahlavi, pediu nas redes sociais que as forças armadas e de segurança "fiquem ao lado do povo".
No domingo, um vídeo compartilhado mostrou novamente manifestantes reunidos no bairro de Pounak, em Teerã, gritando slogans favoráveis à monarquia derrubada. Imagens publicadas nas redes sociais — provavelmente captadas por satélite — mostravam grandes multidões marchando da noite de sábado para domingo em várias cidades iranianas, especialmente na capital, Teerã, e em Machhad, no leste do país.
Em outro vídeo autenticado pela AFP, são vistos dezenas de corpos envoltos em sacos pretos diante de um necrotério da capital, e pessoas que parecem procurar parentes desaparecidos. O Centro pelos Direitos Humanos no Irã (CHRI), sediado em Nova York, afirmou que os hospitais estavam "sobrecarregados" de feridos e que as reservas de sangue estavam diminuindo.
Manifestações de solidariedade reuniram milhares de pessoas no domingo em Paris, Londres e Viena. Em Istambul, a polícia turca bloqueou manifestantes diante do consulado iraniano. A economia do Irã está enfraquecida após a guerra com Israel em junho e pelas sanções ligadas ao programa nuclear, restabelecidas pela ONU em setembro.
Com agências