UE reforça presença na Groenlândia e acena com acordo na Otan; França diz desconhecer os detalhes

Os europeus decidiram reforçar a presença na Groenlândia e indicaram que em breve deverá ser anunciado um acordo entre os Estados Unidos e os demais países da Otan. A decisão, tomada durante uma cúpula de emergência do Conselho Europeu, realizada na noite desta quinta-feira em Bruxelas, expôs a cautela europeia diante das iniciativas diplomáticas de Donald Trump.

23 jan 2026 - 05h52
(atualizado às 07h52)

Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, participou da coletiva de imprensa sobre os resultados da cúpula do Conselho Europeu, em Bruxelas, em 23 de janeiro de 2026.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, participou da coletiva de imprensa sobre os resultados da cúpula do Conselho Europeu, em Bruxelas, em 23 de janeiro de 2026.
Foto: REUTERS - Yves Herman / RFI

Segundo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, qualquer entendimento sobre a Groenlândia deve ocorrer no âmbito da aliança militar. O presidente americano já havia afirmado que tinha fechado um acordo com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que permitiria aos Estados Unidos 'acesso total' à ilha. 

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Nesta sexta-feira (23), o ministro francês das Relações Exteriores, Jean‑Noël Barrot, disse não ter ainda detalhes do acordo, mas reiterou o apoio da França à soberania dinamarquesa e às autoridades groenlandesas, destacando que a Dinamarca é o principal ator das negociações. Barrot afirmou que poderá visitar a Groenlândia nas próximas semanas.

De acordo com o jornal The New York Times, o acordo em discussão inclui a implementação de uma nova missão da Otan no Ártico, a atualização do acordo de 1951 entre Dinamarca e Estados Unidos para ampliar o acesso americano à Groenlândia, a construção de bases militares soberanas em partes do território para o desenvolvimento do sistema de defesa antimíssil dos EUA e restrições para impedir a exploração de terras raras por Rússia e China sob a camada de gelo da ilha.

Mark Rutte afirmou que agora cabe aos altos comandantes da aliança trabalhar nos requisitos adicionais de segurança e que esse processo pode avançar rapidamente. Ursula von der Leyen também disse esperar divulgar um comunicado conjunto em breve.

Tarifas e Conselho de Paz

A crise envolvendo a Groenlândia também teve impacto direto nas relações comerciais. Com o avanço do acordo no âmbito da Otan, Trump recuou e derrubou as tarifas de 10% aplicadas aos países que enviaram tropas para a ilha. Diante desse gesto, o Conselho Europeu decidiu mudar o tom e avançar com a aprovação do acordo tarifário entre a União Europeia e os Estados Unidos, fechado no ano passado. O texto estava com a aprovação congelada no Parlamento Europeu após as ameaças de Trump, mas agora a tendência é que volte a tramitar.

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Outro tema sensível discutido na cúpula foi o Conselho de Paz lançado por Trump durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos. No evento, a Hungria foi o único país da União Europeia representado, por meio do primeiro-ministro Viktor Orbán, aliado ideológico do presidente americano. A Itália também sinalizou que deve integrar o grupo, devido à proximidade da primeira-ministra Giorgia Meloni com Trump.

Ainda assim, a maioria dos países europeus não aderiu à iniciativa. Em comunicado divulgado após a cúpula, o bloco deixou claro seu posicionamento. Segundo Antonio Costa, presidente do Conselho Europeu, os Estados-membros têm sérias dúvidas sobre diversos elementos da carta do Conselho de Paz de Trump, especialmente em relação à sua aplicação e à compatibilidade com a Carta da ONU. Mesmo assim, Costa afirmou que a União Europeia está disposta a trabalhar conjuntamente em um plano de paz para Gaza e nas negociações entre Rússia e Ucrânia.

Acordo UE-Mercosul

A reunião também trouxe sinalizações sobre o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Apesar da expectativa de que o tema voltasse formalmente à pauta, o processo segue travado após o Parlamento Europeu decidir levar o acordo à justiça europeia, o que pode congelar a aprovação por até dois anos. Existe, porém, a possibilidade de a Comissão Europeia colocar em vigor de forma interina a parte comercial do tratado, mesmo sem a aprovação do Parlamento e sem uma decisão da Corte Europeia.

Essa parte comercial é considerada a mais relevante, pois permitiria iniciar a redução das tarifas entre os dois blocos. Antonio Costa deixou claro que espera que a Comissão avance nessa direção. Ursula von der Leyen afirmou que ainda não há uma decisão tomada, mas indicou que, assim que um dos países do Mercosul concluir seus procedimentos internos de validação, a Comissão já terá uma posição definida e pronta para ser anunciada. O acordo, portanto, pode viver mais uma reviravolta nos próximas semanas.

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