Vincent Souriau, correspondente da RFI em Washington; Marie Griffon, correspondente da RFI em Honduras, e AFP
Para entender a ambição da cúpula, basta observar a lista de ausentes: a maior parte dos líderes progressistas ou alinhados à esquerda não compareceu. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, e o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, não viajaram para a Flórida.
A maioria dos convidados de Donald Trump é formada por líderes que defendem posições rígidas em temas de segurança pública, imigração e combate ao narcotráfico. Entre eles estão entusiastas de sua retórica nacionalista, como o argentino Javier Milei, o equatoriano Daniel Noboa e o salvadorenho Nayib Bukele. Os outros países representados na reunião deste sábado são: Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Chile e Trinidad e Tobago.
Irene Mia, especialista do International Institute for Strategic Studies (IISS), explica à AFP que os dirigentes reunidos em Miami contam com o apoio dos EUA diante do avanço da criminalidade organizada ligada ao narcotráfico, inclusive em países antes menos afetados.
Mas ela ressalta: "Sem México e Brasil, será difícil enfrentar esses problemas".
Segundo a analista, "os cartéis mexicanos estão no topo da cadeia do tráfico de drogas, e o Brasil tem peso estratégico porque suas organizações criminosas controlam portos importantes e desempenham papel crucial no envio de drogas para a Europa".
O objetivo da cúpula é fazer com que os líderes assinem a chamada "Carta de Doral", referência à cidade da Flórida onde ocorre o evento. O documento defende o direito dos povos latino‑americanos de conduzir seu próprio destino sem interferência externa, mas na prática trata-se de uma frente comum contra a China, que o governo Trump acusa de exercer ingerência econômica nas Américas por meio de suas "novas rotas da seda".
A reunião, realizada no Trump National Doral Golf, acontece poucas semanas antes da viagem oficial de Trump a Pequim, que será sua primeira visita ao país desde o retorno à Casa Branca para um segundo mandato.
O evento é visto como a implementação da chamada "doutrina Donroe", uma fusão do nome de Donald e do pensador do século 19 James Monroe, que formulou a ideia da América Latina como área de influência exclusiva dos Estados Unidos.
Parceiros econômicos
Em 2025, a China era o principal parceiro econômico da América Latina. As trocas comerciais chegaram a US$ 565 bilhões, contra US$ 346 bilhões com os Estados Unidos. Apesar disso, Washington mantém influência significativa, especialmente na América Central, onde alguns países começam a se afastar de Pequim.
O Panamá, por exemplo, retirou da empresa hong‑konguesa CK Hutchison os contratos de operação de dois portos do Canal. O governo panamenho retomou o controle das instalações - decisão celebrada por Donald Trump.
Honduras segue a mesma orientação. O novo presidente, Nasry Asfura, apoiado por Trump, rescindiu 80 contratos de investimento com a China e tenta restabelecer relações econômicas com Taiwan.
No Irã como na Venezuela
Embora a guerra no Oriente Médio e a estratégia de Trump para a América Latina pareçam assuntos distintos, os dois temas se entrelaçam. O bilionário de 79 anos afirma que deseja aplicar ao Irã a mesma "metodologia" usada na Venezuela, garantindo que isso será feito "muito facilmente".
Após capturar o presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma operação inédita, o governo Trump - sem promover uma transição política - decidiu negociar diretamente com a ex‑vice‑presidente Delcy Rodríguez, especialmente em questões ligadas ao petróleo.
Trump também repetiu que, após a ofensiva no Irã, cujo calendário e objetivos seguem incertos, será "apenas uma questão de tempo" até ele "voltar seus olhos" para Cuba, onde diz acreditar que o regime cairá "em breve".