Uma missão incomum do FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, instigou a curiosidade de entusiastas da aviação, e revelou um esquema complexo para recuperar uma criança que seria submetida a uma cirurgia de transição de gênero em Cuba.
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Ao acompanharem o voo de um jato do Departamento de Justiça em uma rota rara, de Virginia para Cuba, na segunda-feira, 20, observadores na internet questionaram qual seria a missão.
O Boeing 737 não levava um enviado diplomático, mas atendia a uma denúncia federal apresentada em um tribunal de Utah para resgatar uma criança americana de 10 anos que teria sido sequestrada por uma mãe transgênero e sua parceira, e seria submetida a uma cirurgia de transição de gênero, segundo os documentos judiciais federais. O caso foi revelado pelo jornal The New York Times.
O avião chegou a Cuba na segunda-feira, 20, para levar a criança de volta para a mãe biológica. Segundo um funcionário relatou ao jornal anonimamente, duas mulheres do condado de Cache, em Utah, Rose e Blue Inessa-Ethington, de 42 e 32 anos, foram presas pelo FBI acusadas de sequestro.
Rose, antes de transicionar de gênero, forneceu o esperma para a concepção da criança e compartilhava a guarda com a mãe biológica, identificada pelas iniciais “LB” nos autos.
Rose e Blue foram acusadas em declaração juramentada pela agente especial do FBI Jennifer Waterfield em um tribunal federal de Utah na última semana. Nos autos, foi descrito um plano complexo para sequestrar a criança envolvendo vários países e o pagamento de US$ 10.000 (R$ cerca de R$ 50 mil) em dinheiro.
O FBI acredita que LB, mãe biológica, foi enganada com uma falsa viagem de acampamento para o Canadá antes da dupla seguir com a criança para o México, e depois para Cuba.
Caso é considerado extremamente incomum
O caso é considerado extremamente incomum para o FBI, que não costuma intervir em situações de sequestro parental, especialmente no exterior. Normalmente, aviões governamentais não são utilizados para ir para fora dos EUA, como nesta situação.
“Isso é bizarro, extremamente incomum” disse Jay Groob, presidente da American Investigative Services, uma empresa que auxilia clientes em casos de guarda e recuperação de crianças ao The New York Times. “Nunca ouvi falar de algo assim”, completou.
Especialistas apontam que o caso toca em uma questão política importante para o governo Trump, que visa reprimir e restringir cirurgias de transição de gênero em menores de idade. O procedimento, segundo o governo classifica, seria uma “mutilação cirúrgica e química”.
Cirurgia de transição de gênero
O FBI alegou ter tomado conhecimento da preocupação da família de que as duas mulheres pretendiam levar a criança, que é descrita nos autos como um “menino biológico de 10 anos que se identifica como menina” para Cuba, para ser submetido a uma cirurgia de transição de gênero “antes da puberdade”.
As duas mulheres foram capturadas na segunda-feira após autoridades cubanas ajudarem a localizá-las. A criança foi recuperada e entregue a LB em Utah na terça-feira, 21, segundo o advogado da mãe. O jornal não conseguiu contato com a defesa de Rose e Blue.
As acusadas de sequestro foram levadas para Richmond, na Virginia, em um avião do Departamento de Justiça. A extensão da colaboração do governo cubano no caso não ficou clara, segundo o Times. O voo ocorreu algumas semanas depois de Donald Trump enviar uma delegação diplomática a Cuba para negociar mudanças na ilha, enquanto pressiona a liderança a se submeter a exigências americanas.
A criança de 10 anos, que não foi identificada pelo nome, se dividia entre a casa de suas mães divorciadas. Em 28 de março, Rose e Blue tinham uma viagem de acampamento marcada em Calgary, Alberta, com a criança e o filho de 3 anos de Blue.
Diversas viagens
As mulheres nunca chegaram ao hotel ou acampamento, e cortaram todo contato com LB, segundo os registros. A criança deveria ter retornado em 3 de abril, o que não aconteceu, violando o acordo de custódia parental.
Elas cruzaram a fronteira com o Canadá por Washington em 29 de março e voaram com a criança para a Cidade do México. Depois, viajaram para Mérida, no México e seguiram para Havana em 1º de abril usando seus passaportes americanos.
A polícia de Utah e o FBI iniciaram a investigação depois disso. A agente Waterfield afirmou houve indícios de planejamento após uma busca na casa do casal. Foram entrados US$ 10.000 em dinheiro sacado e listas de tarefas detalhando planos para esvaziar contas bancárias, aprender espanhol, obter vistos de turista e guardar pertences em um depósito.
Investigadores também encontraram anotações com instruções de uma terapeuta de saúde mental em Washington relacionadas a “cuidados médicos de afirmação de gênero para crianças” e um pedido de pagamento no valor de US$ 10.000 pelo serviço.
No dia 13 de abril, o tribunal ordenou que a criança fosse devolvida à mãe biológica imediatamente e lhe concedeu guarda exclusiva. Na última quinta-feira, a polícia cubana localizou o grupo em Cuba.
Acusação de manipulação
A agente Waterfield alega em documentos judiciais que familiares acusavam Rose de manipular a criança para que ela se identificasse como uma menina. Agentes do FBI também disseram que as mulheres não pareciam ter planos para voltar aos Estados Unidos com a criança, violando as leis de sequestro parental.
O irmão de Rose, Steven Ethington, disse ao New York Times na terça-feira que ela vinha "insistindo bastante" para que a criança fizesse a cirurgia de transição desde que ela tinha cerca de 5 anos. Ethington acrescentou que teria apoiado a identidade de gênero da criança se parecesse ser uma escolha dela.
Tess Davis, advogada que representa a mãe biológica da criança, disse que a cirurgia foi uma questão constante durante o processo de divórcio. “Acho que ela nunca imaginou que Rose pudesse fazer isso até que fosse tarde demais. Ela estava preocupada em nunca mais ver a criança”, disse.