Sarkozy enfrenta apelação e tenta rebater vítimas ao reafirmar inocência em caso líbio

Diante da Justiça francesa, o ex-presidente Nicolas Sarkozy iniciou seu depoimento em segunda instância nesta terça-feira (7) prometendo responder à dor das famílias do atentado de 1989 contra um avião da UTA com aquilo que chama de "verdade" de sua inocência. Condenado a 5 anos de prisão em primeira instância, ele é acusado de permitir negociações com a ditadura líbia para financiar sua campanha de 2007 — suspeita que mistura terrorismo, política e um dos maiores escândalos recentes do país.

7 abr 2026 - 10h40
(atualizado às 11h06)

Segundo a acusação, Sarkozy teria permitido que assessores próximos negociassem, no fim de 2005, apoio financeiro com o alto dirigente líbio Abdallah Senoussi. O nome é central no caso: ele foi condenado à prisão perpétua por ter ordenado o atentado de 1989 que matou 170 pessoas — entre elas, 54 franceses — após a explosão da aeronave sobre o Níger.

Nicolas Sarkozy, em 23 de março de 2026, em Paris.
Nicolas Sarkozy, em 23 de março de 2026, em Paris.
Foto: AFP - ALAIN JOCARD / RFI

"Não é possível deixar esses depoimentos sem resposta. Não dá para ficar indiferente, mas é impossível oferecer uma resposta à altura do sofrimento expresso", declarou Sarkozy. Em primeira instância, ele foi condenado a cinco anos de prisão por associação criminosa.

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Testemunhos das vítimas e silêncio estratégico

Familiares das vítimas do atentado prestaram depoimento no dia 1º de abril na Corte de Apelação. Eles atuam como assistentes da acusação porque Senoussi, considerado o principal articulador do ataque, foi julgado à revelia na França.

O caso ganhou contornos ainda mais sensíveis após a decisão do tribunal de primeira instância, que apontou que a retirada do mandado de prisão contra Senoussi teria sido uma das contrapartidas do suposto acordo financeiro com o regime líbio. A interpretação provocou indignação entre os familiares, que criticaram duramente a postura de Sarkozy após sua condenação.

Apesar da pressão, o ex-presidente optou por não reagir imediatamente aos depoimentos. Preferiu aguardar o momento formal de seu interrogatório para apresentar sua versão.

Estratégia de contenção

Desde o início do julgamento em segunda instância, Sarkozy tem adotado uma postura contida. Falou pouco e de forma calculada. No dia 18 de março, ao justificar seu recurso, ele foi direto:

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"Não cometi nenhum dos atos pelos quais fui condenado. Vou mobilizar todas as forças de que sou capaz para defender essa verdade profundamente enraizada em mim."

A estratégia é de sobriedade. A audiência, iniciada em 16 de março, transcorre em ambiente solene. O julgamento deve se estender até o fim de maio, quando então a decisão ficará para deliberação dos magistrados.

Um dos ausentes é Claude Guéant, ex-ministro e aliado histórico de Sarkozy, dispensado por razões de saúde.

O caso Sarkozy: por que ele abala a França

O processo envolvendo Nicolas Sarkozy é um dos mais explosivos da história política recente francesa porque atinge diretamente um ex-presidente da República acusado de corrupção em escala internacional. A suspeita de que sua campanha de 2007 tenha recebido recursos de um regime autoritário estrangeiro — o da Líbia de Muammar Kadafi — coloca em xeque a lisura de uma eleição presidencial e levanta dúvidas sobre a integridade das instituições democráticas do país.

O caso também reabre feridas profundas ao se cruzar com o atentado de 1989 contra o voo da UTA. Ao associar o suposto financiamento político a um personagem condenado por terrorismo, o processo conecta duas dimensões altamente sensíveis: a memória das vítimas e a responsabilidade do Estado. Para as famílias, a ideia de que interesses políticos possam ter influenciado decisões relacionadas a um atentado é particularmente revoltante.

Na opinião pública, o julgamento reforça a percepção de crise de confiança na classe política. Sarkozy, que já foi uma das figuras mais poderosas da Europa, tornou-se símbolo de uma era marcada por escândalos judiciais envolvendo líderes de alto escalão. O desfecho do processo é acompanhado de perto porque pode redefinir não apenas o legado do ex-presidente, mas também os limites da responsabilização de governantes na França.

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Com agências

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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