Enquanto a campanha "Dry January" incentiva os franceses a reduzir o consumo de álcool por motivos de saúde, especialistas alertam que o custo social da bebida e seu papel em casos de violência cometida por homens exigem políticas públicas mais definidas e eficazes.
"O álcool custa muito mais em termos de saúde do que gera em receita", afirmou o Dr. Emmanuel Ricard, presidente da Liga Contra o Câncer da França. "É a principal causa de atendimentos de emergência, com 246 mil internações por ano, e também está ligado a brigas, agressões, violência doméstica e sexual, e acidentes de trânsito", enumerou o médico de saúde pública.
Embora o consumo diário tenha diminuído na França, o custo total do álcool para a sociedade continua alto: € 102 bilhões por ano, segundo o Observatório Francês de Drogas e Tendências de Adição. Esse valor inclui gastos diretos do governo com saúde, segurança e prevenção, e custos "externos", como perda de vidas, redução da qualidade de vida e queda de produtividade, descontando-se impostos arrecadados sobre a bebida e a economia com aposentadorias não pagas a pessoas que morreram prematuramente.
"O álcool é extremamente caro para a sociedade, é preciso ter consciência disso", complementou a historiadora Lucile Peytavin, que analisou estatísticas detalhadamente para seu livro O custo da masculinidade.
No final de dezembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) associou à bebida, que "altera o julgamento, diminui o autocontrole, atrasa os reflexos, reduz a coordenação e favorece comportamentos de risco", 800 mil mortes por ano na Europa, ou um em cada três óbitos por trauma e violência.
A OMS destacou que o álcool é um fator de risco importante em casos de violência doméstica contra mulheres e crianças.
Pesquisadores também defendem políticas públicas mais incisivas. A pesquisadora Leane Ramsoomar apontou em artigo recente no The Conversation, com base em estudo global do instituto RTI International, que "o consumo de álcool pelos homens prejudica mulheres e crianças".
Educação contra machismo também é crucial
Além de medidas de prevenção ao consumo exagerado de álcool, especialistas destacam que educação para combater o machismo e promover igualdade de gênero também é crucial, segundo investigação publicada recentemente pela universidade Oxford.
Pesquisas internacionais mostram que o álcool aumenta o risco de violência de parceiro íntimo e que programas que desafiam normas de gênero rígidas e incentivam relacionamentos saudáveis podem reduzir esses danos. Ou seja, combater a misoginia e os comportamentos discriminatórios é tão importante quanto controlar a bebida.
"O GHB recebe muita atenção nos casos de submissão química, mas o álcool é a substância mais usada", afirma o Dr. Ricard. "Agressores fazem mulheres beber para abusar delas e porque depois elas vão se sentir culpadas, achando que foi sua culpa, quando, na verdade, o álcool é uma circunstância agravante", lembra a Dr. Emmanuelle Piet, presidente do Coletivo Feminista contra o Estupro.
Pesquisa Ipsos de 2022 mostra que um em cada quatro franceses não considera estupro se a vítima estivesse alcoolizada.
Cinco associações de especialistas em dependência publicaram carta aberta em outubro de 2019, intitulada "Violência contra mulheres: não esqueçamos o papel do álcool", pedindo a adoção de preço mínimo por unidade de álcool — medida já aplicada na Escócia e na Irlanda — e controle da publicidade de bebidas alcoólicas. A proposta foi apoiada por entidades civis, mas rejeitada pelo Senado francês.
Impacto econômico e educacional
Lucile Peytavin calcula que o custo anual da violência masculina, incluindo sanções judiciais e consequências para as vítimas, chega a € 95,2 bilhões — valor que poderia ser evitado se homens apresentassem padrões de criminalidade semelhantes aos das mulheres.
A historiadora, autora do livro Você não vai chorar como uma menina!, também alerta para a educação voltada à masculinidade.
"Desde cedo, meninos aprendem comportamentos de dominação que se expressam sob efeito do álcool. Eles são ensinados a se desconectar das emoções e da vulnerabilidade, o que dificulta lidar com perdas e dificuldades na vida", afirma.
"Em vez de desprezar tudo que é considerado feminino — empatia, comunicação, gentileza — deveríamos usar essas qualidades como modelo para uma sociedade mais justa e pacífica. Os números mostram: haveria menos vítimas", conclui Peytavin.
Com AFP