O Parlamento da França instaurou uma CPI para investigar a violência nos recentes protestos e a atuação policial. A crise gerou toques de recolher, milhares de comércios depredados, feridos graves e prisões em massa. Em clima pré-eleitoral tenso, o governo acusa a extrema-esquerda de promover o caos, enquanto oposicionistas criticam a gestão da segurança. A comissão também examinará o papel das redes sociais na disseminação de desinformação diante da ameaça à estabilidade democrática do país.
Com informações de Andréane Meslard, da RFI em Paris, e AFP
A comissão deverá esclarecer as circunstâncias dos episódios registrados à margem das manifestações, especialmente durante os protestos de 17 de outubro. Os parlamentares também pretendem examinar a atuação das forças de segurança e a estratégia de manutenção da ordem adotada pelo governo durante o fim de semana.
A criação de uma comissão desse tipo, relativamente incomum na França, foi proposta no domingo pela presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet.
Entrevistado por Andréane Meslard, o senador Laurent Lafon, correlator da missão de informação do Senado sobre fake news, afirmou à RFI que é necessário identificar os responsáveis pelos atos de violência e investigar possíveis campanhas coordenadas de desinformação nas redes sociais.
Segundo ele, a primeira tarefa é entender o que ocorreu durante os protestos e identificar eventuais falhas na atuação das forças de segurança.
Em seguinda, é necessário compreender "quem está por trás desses episódios de violência. Não das manifestações pacíficas, mas dos excessos e dos atos violentos. Tudo isso foi organizado? E por quem?", aponta.
Lafon alertou para a falta de responsabilização das grandes plataformas digitais pelo conteúdo que circula em suas redes. Para o senador, "há uma vulnerabilidade real na França" diante da desinformação, e a disseminação organizada de notícias falsas representa uma ameaça direta às democracias. Segundo ele, o risco de ingerência externa, mas também de campanhas internas de manipulação, tende a aumentar com a proximidade da disputa presidencial prevista para abril de 2027.
Acusações políticas elevam tensão pré-eleitoral
A seis meses da eleição presidencial, com a candidata da extrema direita Marine Le Pen liderando amplamente as pesquisas, a crise ganha contornos cada vez mais políticos.
O partido Reunião Nacional (RN), de Le Pen, acusa o governo de não conseguir controlar a onda de violência e aponta a responsabilidade da França Insubmissa (LFI) pelo clima de tensão política. A legenda liderada por Jean-Luc Mélenchon considera que os avanços políticos e sociais passam pela pressão exercida por movimentos populares e por relações de força nas ruas, posição que seus adversários acusam de alimentar a radicalização do debate público. Após os acontecimentos do fim de semana, o presidente do Senado, Gérard Larcher, chegou a aventar a possibilidade de discutir a "dissolução" da LFI, uma medida considerada excepcional e juridicamente controversa.
Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, rejeitou as acusações. Segundo ele, seu partido não dirige o movimento popular, que age de forma autônoma. Para Melénchon, a responsabilidade pelos distúrbios decorre da incompetência do governo na condução da manutenção da ordem pública.
Já o primeiro-ministro, Sebastien Lecornu, acusou o "movimento da ultraesquerda" de querer provocar uma "desordem profunda" e até mesmo de "questionar o calendário eleitoral e a realização da eleição presidencial". Na França, o termo ultraesquerda é usado para designar uma constelação de grupos radicais anticapitalistas, antifascistas e antissistema, frequentemente associados pelas autoridades a ações violentas contra instituições e símbolos do Estado.
O governo também está sob pressão para ajudar comerciantes e donos de restaurantes afetados pelos saques e depredações. Pelo menos 3 mil estabelecimentos foram atingidos. Como resposta, o Executivo anunciou empréstimos com juros zero a partir de sexta-feira e o parcelamento de encargos para os negócios prejudicados.
A violência também deixou manifestantes gravemente feridos. Em Mulhouse, uma jovem de 17 anos perdeu um olho. Em Saint-Étienne, um rapaz da mesma idade teve uma das mãos amputada após a explosão de uma granada. O advogado do jovem anunciou que apresentará uma queixa contra o autor do disparo e contra o ministro do Interior.
Segunda noite de toques de recolher
Os toques de recolher começaram na segunda-feira em áreas de Paris, Lyon, Bordeaux, Lille e Nice e outras localidades. As restrições são geralmente restritas às areas centrais dos municípios.
Nesta terça-feira, o toque de recolher já foi decretado em Marselha, segunda maior cidade do país, para menores de idade a partir das 22h desta terça-feira. A medida será adotada em todas as áreas onde a situação ainda exigir medidas de segurança, anunciaram as autoridades francesas.
Os distúrbios ocorridos no fim de semana são considerados os mais graves dos últimos anos. A instabilidade política e social preocupa os mercados financeiros, devido ao elevado endividamento público.
As imagens de confrontos e de prédios públicos incendiados ou depredados repercutiram internacionalmente e levaram países como Estados Unidos, China e Alemanha a emitirem alertas de cautela para seus cidadãos que estão na França.
No caso do incêndio da prefeitura de Limoges, no centro-oeste do país, um homem fichado como potencial ameaça à segurança do Estado e conhecido por vínculos com a ultraesquerda foi detido nesta terça-feira. A autoridade antiterrorista da polícia assumiu a investigação.
O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, afirmou que, se a resposta judicial aos atos de violência não for "extremamente firme", comerciantes e moradores poderão tentar fazer justiça por conta própria. Segundo ele, cerca de 150 pessoas já foram presas e mais de 800 encaminhadas aos tribunais.