Papa Leão XIV critica 'lucro obtido com destruição ambiental' em região poluída pela máfia na Itália

O papa Leão XIV denunciou neste sábado (23) os lucros "vertiginosos" obtidos à custa do meio ambiente durante visita à região conhecida como "Terra dos Fogos", no sul da Itália. A área, marcada por décadas de descarte ilegal de resíduos tóxicos, enfrenta altos índices de câncer e contaminação generalizada. Diante de milhares de fiéis, o pontífice criticou a ação do crime organizado e a omissão do poder público, além de defender responsabilidade coletiva e justiça ambiental.

23 mai 2026 - 10h27

O papa Leão XIV criticou neste sábado (23) o que classificou como a busca por lucros "vertiginosos" à custa do meio ambiente, durante visita à cidade de Acerra, na região da Campânia, sul da Itália, uma das áreas mais afetadas pela poluição causada por décadas de descarte ilegal de resíduos controlado pelo crime organizado.

O papa Leão XIV cumprimenta a multidão do papamóvel na Piazza Nicola Calipari durante uma visita pastoral à comunidade da “Terra dei Fuochi”, em 23 de maio de 2026. A Terra dei Fuochi é uma área da região sul italiana da Campânia onde, sistematicamente desde o fim dos anos 1980, resíduos tóxicos foram despejados pelo crime organizado (Camorra), provocando crimes ambientais ligados ao lixo.
O papa Leão XIV cumprimenta a multidão do papamóvel na Piazza Nicola Calipari durante uma visita pastoral à comunidade da “Terra dei Fuochi”, em 23 de maio de 2026. A Terra dei Fuochi é uma área da região sul italiana da Campânia onde, sistematicamente desde o fim dos anos 1980, resíduos tóxicos foram despejados pelo crime organizado (Camorra), provocando crimes ambientais ligados ao lixo.
Foto: AFP - FILIPPO MONTEFORTE / RFI

Localizada entre Nápoles e Caserta, a região conhecida como "Terra dos Fogos" abriga cerca de três milhões de habitantes e recebeu esse nome devido à prática recorrente de queima de resíduos industriais a céu aberto, muitas vezes provenientes do norte da Itália.

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Ao longo de décadas, solos, lençóis freáticos e o ar foram contaminados por metais pesados, dioxinas e partículas poluidoras, comprometendo a saúde da população. Estudos apontam índices de câncer superiores à média nacional nessa área.

No primeiro discurso do dia, o pontífice denunciou "uma mistura mortal de interesses obscuros e de indiferença ao bem comum, que envenenou o ambiente natural e social".

Para moradores, a presença do papa tem peso simbólico e político. "O papa talvez seja a única pessoa capaz de despertar a consciência de todos que fizeram mal a este território", afirmou a fiel Giuseppina De Francesco, de 60 anos.

A visita ocorre também em um contexto simbólico mais amplo, ao coincidir com o 11º aniversário da encíclica Laudato Si', texto do papa Francisco que se tornou referência global no debate sobre preservação ambiental.

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Raízes históricas da crise ambiental

A chamada "Terra dos Fogos", também identificada como "Triângulo da Morte", funciona como área de descarte irregular desde o fim dos anos 1980, quando empresas passaram a destinar resíduos tóxicos à região para reduzir custos.

Em vez de arcar com o tratamento adequado, que exige investimentos elevados, companhias recorreram à Camorra, grupo criminoso local, pagando valores menores para eliminar materiais perigosos de forma clandestina.

Entre os resíduos descartados estão placas de amianto, pneus e recipientes industriais contendo substâncias químicas, frequentemente queimados ao ar livre, agravando a poluição atmosférica.

Investigações parlamentares conduzidas desde 2013 apontaram falhas graves de fiscalização por parte das autoridades públicas e, em alguns casos, indícios de conivência com o esquema ilegal.

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Esse cenário tornou a região um dos símbolos da degradação ambiental na Europa, com impactos acumulados que ainda desafiam políticas de recuperação e assistência à população atingida.

Ao longo dos anos, movimentos civis e organizações ambientais passaram a denunciar a situação, pressionando por respostas institucionais mais efetivas.

Chamado à responsabilidade coletiva

Em sua fala aos fiéis, Leão XIV retomou o tema da fragilidade ambiental para destacar a necessidade de responsabilidade coletiva. "Na vida, entendemos que quanto mais uma beleza é frágil, mais exige atenção e responsabilidade."

O papa afirmou que sua presença em Acerra tinha como objetivo "confirmar e encorajar esse impulso de dignidade e responsabilidade que todo coração honesto sente quando a vida nasce e é imediatamente ameaçada pela morte".

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Diante de uma multidão estimada em cerca de 15 mil pessoas, ele ressaltou o sofrimento acumulado da região. "Esta terra pagou um alto preço, enterrou muitos de seus filhos e testemunhou o sofrimento de crianças e inocentes."

O pontífice também destacou o papel de ativistas e organizações que denunciaram a situação ao longo dos anos, muitas vezes enfrentando resistência e riscos. Ele agradeceu "aos pioneiros que, com coragem, trouxeram à luz uma realidade ocultada e negada".

Segundo ele, esses grupos foram essenciais para dar "visibilidade ao problema e mobilizar a sociedade em torno da defesa do meio ambiente e da saúde pública".

Desde que assumiu o pontificado, em maio de 2025, Leão XIV tem mantido atenção constante a temas ambientais, dando continuidade à linha adotada por seu antecessor.

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Agenda 

A visita a Acerra integra uma série de compromissos do papa na Itália durante o verão europeu, que inclui também uma passagem prevista pela ilha de Lampedusa em julho.

Conhecida por ser porta de entrada de migrantes no Mediterrâneo, Lampedusa representa outro eixo central das preocupações do Vaticano: a crise humanitária associada aos fluxos migratórios.

A combinação de pautas ambientais e sociais reflete uma estratégia mais ampla da Santa Sé de abordar questões globais interligadas, como desigualdade, clima e saúde pública.

No caso específico da "Terra dos Fogos", o desafio ambiental é mais amplo, envolvendo tanto a reparação dos danos causados, quanto o atendimento médico e social às populações afetadas.

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Especialistas apontam que iniciativas de recuperação exigirão investimentos de longo prazo, além de monitoramento contínuo da contaminação.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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