Em meio ao Fórum Econômico Mundial de Davos, a imagem de Macron usando óculos escuros de estilo "Top Gun" chamou tanta atenção quanto suas palavras. A escolha do acessório, aparentemente banal, foi interpretada como um gesto calculado: transmitir firmeza e controle, mesmo diante de críticas e provocações no cenário internacional.
O presidente francês usou os óculos por uma razão médica real: uma hemorragia subconjuntival - ruptura de pequenos vasos do olho que causa vermelhidão e inchaço, mas é benigna e indolor. O Palácio do Eliseu confirmou que os óculos serviam para proteger e disfarçar a aparência do olho afetado.
O episódio ganhou contornos ainda mais simbólicos durante o discurso de Trump nesta quarta-feira (21) na Suíça, que ironizou o colega francês por "tentar parecer durão com seus óculos de sol muito elegantes", usados devido ao problema ocular. Ao mesmo tempo, Trump insinuou que Macron não teria mais relevância global, mas reforçou que o considera "um dos meus amigos". A tensão entre provocação e reconhecimento de proximidade evidencia a complexidade das relações transatlânticas atuais.
Por trás do gesto, especialistas em diplomacia veem uma tentativa de Macron reafirmar a influência da França e, mais amplamente, da União Europeia, em temas estratégicos como a Síria, o Irã e a articulação internacional sobre questões como o caso da Groenlândia. Recentemente, em mensagem privada divulgada por Trump, o presidente francês defendeu seu alinhamento com Washington em diversas frentes e chegou a propor um encontro do G7 em Paris com participação russa, reforçando seu papel ativo na diplomacia global.
Já alguns jornalistas, como o colunista Matthew Dalton do Wall Street Journal, brincaram nas redes sociais que a permanência dos óculos poderia simbolizar que "o futuro da Europa está brilhante demais para ser contemplado sem proteção".
O óculos da discórdia
Especialistas ouvidos pela agência Reuters destacaram que, mesmo justificável pela saúde, a imagem de Macron com óculos de sol surgiu em um momento de confronto retórico com Trump, sobre tarifas e soberania europeia, acentuando um posicionamento mais firme de Paris e da União Europeia diante das pressões externas.
Na avaliação de analistas políticos, a postura "durona" e os óculos escuros funcionam como um código visual: Macron quer sinalizar firmeza, confiança e um certo distanciamento, mesmo em um ambiente dominado por líderes globais de perfil mais confrontador. É uma forma de mostrar que a França, e ele pessoalmente, ainda buscam protagonismo em um momento em que a Europa enfrenta desafios internos e pressões externas.
Assim, a imagem que circulou nas redes sociais e na mídia não é apenas estética. Ela comunica uma mensagem clara: Macron está atento, mantém sua autoridade e procura equilibrar ironia, diplomacia e visibilidade internacional. Em um fórum onde a percepção conta tanto quanto os discursos, cada gesto, cada acessório, é interpretado como parte de uma estratégia maior de posicionamento.
Sussurando no ouvido de Trump
A Europa percebe que a relação transatlântica entrou em uma nova era, e que será necessário evitar que os Estados Unidos abandonem a Ucrânia diante de Moscou, além de proteger interesses europeus mais amplos.
Macron assume a linha de frente para organizar ajuda a Kiev e incentivar a União Europeia a fortalecer sua autonomia. Mas ele não é mais o único a ter acesso direto a Donald Trump. O britânico Keir Starmer e o alemão Friedrich Merz se comunicam com ele, assim como Giorgia Meloni, a líder italiana mais próxima ideologicamente.
Quando ele eleva o tom sobre guerra comercial ou para defender a Ucrânia e a Groenlândia, o presidente francês ainda cuida de evitar rompimentos. Com um objetivo em mente: "Manter Trump próximo de nós" quando estão em jogo interesses europeus e "administrar suas reações", mesmo que seja preciso engolir algumas derrotas quando intervir seria inútil.
Com agências