Os desacordos entre alguns países-membros da União Europeia ficaram ainda mais evidentes após uma votação no Parlamento Europeu, na quarta-feira, que decidiu enviar o acordo comercial com o Mercosul para análise do Tribunal de Justiça do bloco.
A Comissão Europeia tem o direito de aplicar provisoriamente o tratado firmado com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, mas, segundo Von der Leyen, a decisão ainda não foi tomada. Ela ressaltou que essa possibilidade depende de ao menos um país do Mercosul aprovar formalmente o acordo. "Há um interesse claro" em que o acordo seja implementado "o quanto antes", afirmou a dirigente. "Estaremos prontos quando eles estiverem", acrescentou Von der Leyen após uma reunião do Conselho Europeu em Bruxelas.
O presidente do Conselho, António Costa, defendeu publicamente a aplicação provisória do acordo, afirmando que a maioria dos Estados‑membros é favorável à medida. Segundo um alto dirigente europeu ouvido pela imprensa, a Comissão trabalha com a hipótese de iniciar a aplicação provisória já em março, desde que haja aprovação do Conselho Europeu por maioria qualificada: o apoio de 55% dos países do bloco, representando pelo menos 65% da população da UE. O jornal francês Les Echos prevê "uma dura queda de braço entre Paris e Berlim".
Agricultores comemoraram
Por uma curta maioria - 334 votos a favor, 324 contra -, os deputados europeus decidiram enviar o tratado para a corte, que será responsável por conferir se ele obedece às regras do bloco. O jornal Le Figaro registrou o clima de comemoração nas ruas de Estrasburgo, referindo-se aos milhares de agricultores que aguardaram a votação do lado de fora do Parlamento Europeu.
Mercosur : «Qu'on m'explique comment on va faire la différence entre du sucre brésilien et du sucre français! On nous parle de clauses de réciprocité mais ce n'est techniquement pas possible. Ce sont des fausses promesses», pointe un céréalier de l'Aisne en direct de Strasbourg. pic.twitter.com/2hSoqUPIw2
— Le Figaro TV (@LeFigaroTV) January 20, 2026
A iniciativa foi liderada por 150 parlamentares, a maioria de esquerda, ecologistas e do grupo centrista e liberal Renew. Os eurodeputados se preocupam particularmente com um mecanismo de "reequilíbrio" determinado pelo compromisso, que permitiria aos países do Mercosul contestar mudanças na regulamentação europeia. Em entrevista ao Le Figaro, o deputado do grupo Renew compara o instrumento a uma "bomba‑relógio", que ameaçaria a "soberania regulatória e agrícola" do bloco.
Os deputados europeus foram fiéis ao posicionamento de seus países sobre a questão. Os franceses, por exemplo, votaram de forma unânime pelo envio do acordo ao Tribunal de Justiça da UE. Segundo o jornal Les Echos, esse posicionamento irritou a Alemanha, que depende do tratado para impulsionar sua economia.
Questionado sobre a questão no Fórum Econômico de Davos, na quinta-feira (22), o chanceler alemão, Friedrich Merz, insistiu na necessidade de expandir as alianças comerciais do bloco, assegurando que o acordo "não será bloqueado". "Fiquem certos: não vamos deixar que nos parem. O acordo com o Mercosul é justo e equilibrado. Não há alternativa se quisermos um crescimento mais forte na Europa", afirmou.
I regret that the European Parliament has put another obstacle in the way of Mercosur. But rest assured: We won't be stopped. The Mercosur-deal is fair and balanced. There is no alternative if we want to have higher growth in Europe. pic.twitter.com/xtlfeXd93R
— Bundeskanzler Friedrich Merz (@bundeskanzler) January 22, 2026