O governo da Espanha e as autoridades de Ceuta condenaram a violência contra migrantes marroquinos no enclave, pedindo calma após episódios de incêndio em acampamento, bloqueio de ajuda humanitária e confrontos. A tensão cresceu após a recente entrada em massa de milhares de pessoas, das quais entre 5 mil e 10 mil continuam no local. A oposição de direita exige repatriação imediata e culpa o governo, que defende a análise individual dos casos de asilo antes de qualquer devolução.
Juan Cascón, correspondente da RFI em Madri e AFP
"Faço um apelo à calma e ao fim de todas as formas de violência, porque (...) a violência não é a solução para resolver um problema tão complexo" como o que afeta o pequeno território espanhol de 18,5 quilômetros quadrados no Norte da África, declarou Grande-Marlaska ao Parlamento, em Madri.
"Ninguém pode nem deve fazer justiça com as próprias mãos", afirmou também nesta sexta-feira Juan Vivas, presidente do governo local de Ceuta, do Partido Popular (PP), de direita. Em uma declaração solene, ele rejeitou "nos termos mais veementes o uso de qualquer forma de violência", ao mesmo tempo em que considerou "legítimos e totalmente justificados" os protestos que defendem o "retorno à normalidade" no enclave.
Ceuta vive seus momentos de maior tensão nas últimas semanas desde a chegada em massa de cerca de 80 mil pessoas vindas do Marrocos nos dias 30 e 31 de julho.
Embora a maioria já tenha deixado o território, parte dos migrantes, cerca de 5 mil segundo o governo central de esquerda e 10 mil de acordo com as autoridades de Ceuta, permanece no enclave, que tem aproximadamente 80 mil habitantes. Muitos circulam pelas ruas e dormem em acampamentos improvisados ou nas praias.
Os protestos dos moradores, que exigem a saída dos migrantes e alegam preocupações com a segurança, intensificaram-se nos últimos dias.
Na quinta-feira, parte do acampamento de migrantes instalado na Praia de Benítez, onde muitos ainda viviam em barracas, foi incendiada.
Pouco antes, cerca de cem manifestantes com bandeiras da Espanha bloquearam caminhões da Cruz Vermelha que chegavam para distribuir água e alimentos na vizinha Praia de Trampolín. A organização humanitária conseguiu acessar a área por uma rota alternativa após a intervenção da polícia.
Também na quinta-feira, doze marroquinos foram detidos após lançarem pedras contra um veículo que transportava quatro soldados espanhóis. Um dos militares ficou ferido em meio ao aumento da tensão. Apesar dos confrontos, a noite de quinta transcorreu sem novos incidentes.
Condenações
Tanto o governo de Ceuta quanto o governo central condenaram os episódios de violência. Já o PP, principal partido de oposição, considera os acontecimentos uma "consequência de um governo irresponsável".
Em discurso aos parlamentares, Fernando Grande-Marlaska criticou duramente a direita e a extrema direita, acusando esses setores de disseminar desinformação, "tentar obter capital político com a situação ou, pior ainda, incitar o ódio e o confronto entre as pessoas nas ruas de Ceuta".
A direita e a extrema direita defendem a repatriação de todos os migrantes que ainda permanecem em Ceuta. O governo de esquerda, por sua vez, argumenta que é necessário identificar cada pessoa individualmente para determinar se tem direito ao asilo ou se pode ser devolvida ao país de origem, um processo que demanda tempo.
O ministro do Interior, que reconheceu que a chegada em massa de migrantes a Ceuta, há um mês, representou "um dos maiores desafios recentes da Espanha" na área migratória, admitiu que a situação continua sendo uma "emergência".
No entanto, ele evitou comentar o impasse com a ministra da Defesa, Margarita Robles, que afirmou que o Centro Nacional de Inteligência havia alertado previamente sobre a chegada em massa de migrantes, uma versão contestada por Grande-Marlaska.