Referendo sobre a UE na Islândia: em Reykjavik, campanhas do "sim" e do "não" disputam votos dos indecisos

Na véspera do referendo sobre a retomada das negociações de adesão à União Europeia, marcado para este sábado (29), a campanha está a todo vapor na Islândia. Na capital Reykjavik, ativistas dos dois lados tentam convencer os eleitores até o último minuto antes da votação.

28 ago 2026 - 10h36
Resumo
A Islândia realiza um referendo com resultado incerto para decidir sobre a retomada das negociações de adesão à União Europeia. A campanha do "não" teme a perda de soberania e impactos negativos no controle de suas águas e na indústria pesqueira, além de riscos geopolíticos. Já os defensores do "sim" buscam avaliar as vantagens econômicas contra a inflação e os juros altos, além de garantir representatividade política nas decisões do bloco, prevendo uma consulta final caso haja acordo.

Sophia Khatsenkova, enviada especial a Reykjavik

Com uma pilha de panfletos debaixo do braço, Haraldur Olafsson caminha pelas ruas de Reykjavik. Sob um sol excepcionalmente generoso para a capital islandesa, na quinta-feira (27), o presidente da associação que se opõe ao referendo esperava convencer os últimos eleitores indecisos antes da votação de sábado.

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Os cerca de 390 mil habitantes da ilha não votarão diretamente a favor ou contra a adesão à União Europeia (UE). A questão é mais específica: o governo deve ter autorização para retomar as negociações de adesão com Bruxelas, suspensas em 2013? Caso o "sim" vença, qualquer acordo negociado terá de ser submetido a um segundo referendo.

A poucos dias da votação, o resultado permanece bastante incerto. Uma pesquisa do instituto Maskina, realizada entre os dias 21 e 25 de agosto, apontou 51,3% de intenções de voto favoráveis e 48,7% contrárias entre os eleitores que declararam uma preferência.

Preocupações com a pesca

Para Haraldur Olafsson, professor de ciências meteorológicas que viveu na França por vários anos, o debate gira principalmente em torno da soberania nacional. E há um tema que concentra todas as preocupações: a pesca. Em 2025, os produtos do mar responderam por quase 39% das exportações de mercadorias da Islândia. O país construiu parte de sua prosperidade econômica e de sua identidade política sobre o controle de suas águas.

Entre as décadas de 1950 e 1970, as chamadas "Guerras do Bacalhau" colocaram a Islândia em confronto com o Reino Unido para ampliar sua zona de pesca e afastar embarcações pesqueiras estrangeiras. Meio século depois, o assunto continua sendo um dos mais sensíveis em qualquer discussão com Bruxelas. Hoje, Reykjavik mantém amplo controle sobre as cotas e a gestão de seus recursos pesqueiros.

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A adesão à União Europeia integraria o país à Política Comum das Pescas, a política pesqueira da União Europeia. Em regra, as embarcações registradas na UE têm acesso igual às águas e aos recursos pesqueiros do bloco, com algumas exceções. As cotas também são definidas por normas europeias. É exatamente isso que preocupa Haraldur Olafsson.

"Nunca se sabe qual será a decisão da União Europeia em relação à pesca. Franceses, espanhóis, holandeses, todos querem vir pescar na Islândia. Tememos que não haja peixe suficiente para todos", afirma.

A pesca já era uma das questões mais sensíveis durante a tentativa anterior de adesão. A Islândia apresentou sua candidatura em 2009, após o colapso de seu sistema bancário, mas as negociações foram arquivadas quatro anos depois, com a chegada ao poder de um governo mais eurocético.

Haraldur Olafsson está convencido de que, mesmo que o "sim" vença no sábado, a adesão acabará sendo rejeitada.

"Muitos islandeses não querem impedir que seu governo negocie com a União Europeia. Mas, no fim das contas, acho que os islandeses não têm interesse em se tornar membros", afirma.

"Não, obrigado"

Horas depois, ainda na quinta-feira, centenas de pessoas se reuniram no centro de Reykjavik para uma manifestação organizada pela campanha do "não". Alguns participantes usavam camisetas com uma mensagem simples: "Não, obrigado".

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Os motivos para rejeitar a União Europeia, porém, estão longe de ser os mesmos para todos. Para Thorvaldur, carpinteiro de 64 anos, o principal problema está na política internacional do bloco. Ele acredita que a Europa está "se militarizando em um nível muito perigoso" e teme que a Islândia possa ser arrastada para conflitos como a guerra na Ucrânia.

"É muito importante ficarmos fora disso tudo. Caso contrário, não seríamos capazes de decidir nosso próprio destino", argumenta.

Um ponto de vista que não é compartilhado por Haraldur Olafsson, embora ele também faça campanha pelo voto "não". Para ele, as preocupações geopolíticas não têm relação com o debate sobre a adesão.

"A geopolítica é um grande espetáculo. Ninguém na Islândia tem medo dos americanos ou dos russos", minimiza.

As questões de segurança, no entanto, ganharam destaque no debate nacional. A Islândia, membro da Otan, mas sem forças armadas permanentes, ocupa uma posição estratégica no Atlântico Norte. A guerra na Ucrânia e as repetidas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de anexar a vizinha Groenlândia reacenderam a discussão sobre o papel da Islândia na Europa.

Em Reykjavik, na sede da campanha do "sim", o slogan resume a estratégia do movimento: "sim para avaliar".
Em Reykjavik, na sede da campanha do "sim", o slogan resume a estratégia do movimento: "sim para avaliar".
Foto: RFI

"Sim, vamos ver"

Na sede da campanha do "Sim", cerca de vinte voluntários se revezam ao telefone. Durante todo o dia, eles ligam diretamente para os eleitores na tentativa de conquistar os últimos votos. O slogan da campanha resume sua estratégia: "Sim, vamos ver". Ver o que a Islândia realmente poderia obter de Bruxelas. Negociar antes de decidir. Para os defensores da proposta, votar "sim" no sábado não significa aprovar automaticamente a adesão.

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"Por que não avaliar as oportunidades que podem surgir antes de decidir fechar a porta? Para mim, precisamos conhecer o acordo, analisá-lo e só então tomar uma decisão", explica Greta Maria, integrante do movimento.

A Islândia já está profundamente integrada à Europa: faz parte do Espaço Econômico Europeu e participa tanto do mercado único quanto do Espaço Schengen. Mas não participa diretamente das decisões quando a União Europeia aprova parte das regras que hoje já se aplicam ao país. Uma eventual adesão daria à Islândia assento no Conselho da UE, no Parlamento Europeu e nas demais instituições do bloco.

Para Greta Maria, a questão também é econômica. "Temos menos de 400 mil habitantes. Temos uma moeda de pouca circulação internacional, taxas de juros muito altas e inflação elevada. Para mim, trata-se também de verificar se o dia a dia dos islandeses poderia ser melhor do que é hoje", afirma.

O custo de vida é um dos fatores que ajudaram a recolocar a questão europeia no centro do debate nacional nos últimos anos. Em agosto, a inflação ainda atingia 5,6%, o dobro da média da UE. As taxas de juros giravam em torno de 8%, em uma tentativa de conter a alta dos preços.

"Acredito que a Islândia pode ter uma voz forte na Europa"

A poucos metros de Greta Maria, Elin passa o dia fazendo ligações. Em uma jornada, essa voluntária consegue entrar em contato com até 70 eleitores. Ela rejeita especialmente a ideia, muito presente entre os opositores, de que integrar a União Europeia significaria uma perda inevitável de soberania.

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"Acredito que a Islândia pode ter uma voz forte na Europa. Somos uma nação pequena, mas temos uma identidade muito forte. Podemos exercer influência e ajudar a moldar o que acontece no continente", afirma.

Para ela, participar das decisões europeias seria, inclusive, outra forma de exercer a soberania nacional.

Talvez seja justamente aí que esteja a principal divergência desta campanha. Para os defensores do "não", manter o controle sobre o próprio destino significa preservar o máximo possível do poder de decisão em Reykjavik, especialmente sobre as águas que cercam a ilha. Já para o campo do "sim", um pequeno Estado do Atlântico Norte pode, ao contrário, exercer maior influência ao ocupar um lugar à mesa das decisões europeias.

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