Ondas de calor marinhas causaram uma proliferação recorde de polvos no Canal da Mancha, aumentando em 13 vezes a pesca da espécie no sudoeste da Inglaterra. Embora gere ganhos econômicos inéditos, o fenômeno desequilibra o ecossistema marinho e prejudica a captura de crustáceos em até 80%. Diante do impacto ecológico e de incertezas climáticas, o Reino Unido restringiu grandes embarcações para proteger os estoques e a pesca artesanal local.
Daniel Postico, correspondente da RFI no Reino Unido
No primeiro semestre deste ano, mais de 3.200 toneladas de polvo-comum foram capturadas no litoral sudoeste da Inglaterra, um volume 13 vezes superior à média anual registrada na última década. Em portos da região, como Brixham, foram desembarcadas até 103 toneladas em um único dia, um recorde histórico.
Essa anomalia está transformando tanto a indústria pesqueira britânica quanto o ecossistema marinho. Cientistas afirmam que este é apenas o quarto episódio desse tipo em 125 anos. A principal explicação é a mudança climática. Ondas de calor marinhas no Canal da Mancha elevaram a temperatura da água entre 4°C e 5°C acima da média.
O aumento do calor reduziu drasticamente o tempo de incubação dos ovos e favoreceu a sobrevivência das larvas, que normalmente não resistem às baixas temperaturas. Além disso, correntes marítimas transportaram milhões de exemplares das áreas de reprodução localizadas no norte da França para o sul da Inglaterra.
Fenômeno começou na França
A origem dessa proliferação de polvos está na costa francesa do Canal da Mancha. O país vive uma explosão populacional da espécie desde o verão de 2021.
Nas regiões da Bretanha e da Normandia, as capturas chegaram a registrar aumentos de até 2.600%. Pesquisadores concluíram que os polvos se reproduziram em massa nas águas mais amenas do norte da França e das Ilhas do Canal. Posteriormente, ventos e correntes marítimas levaram milhões de larvas em direção à costa sudoeste inglesa.
Oportunidade econômica e ameaça ambiental
Para o ecossistema marinho britânico, a proliferação dos polvos representa um problema grave. Os animais se alimentam de crustáceos e moluscos presos nas armadilhas dos pescadores, provocando quedas de até 80% nas capturas de espécies como caranguejos, lagostas e lagostins (tipo de lagosta europeia).
Do ponto de vista econômico, porém, o fenômeno se transformou em uma oportunidade lucrativa. Com uma produção estimada em cerca de 6 mil toneladas por ano, o Reino Unido passa a se equiparar a tradicionais produtores mediterrâneos de polvo, como Grécia e Tunísia.
Diante da situação, o órgão regulador da pesca britânica propôs uma moratória de emergência que proíbe embarcações de grande porte de utilizar armadilhas na captura de polvos. A medida atinge catamarãs e barcos com mais de 10 ou 12 metros de comprimento.
A restrição permanecerá em vigor até o verão do próximo ano para proteger os pequenos pescadores locais, permitindo que continuem trabalhando com embarcações tradicionais de pequeno porte, além de evitar que a pesca industrial esgote o estoque da espécie ou cause danos adicionais ao ecossistema costeiro.
A invasão de polvos da década de 1950
O episódio mais semelhante ocorreu em 1950, quando uma invasão de polvos também foi registrada no Canal da Mancha. Na ocasião, houve uma explosão populacional seguida por um colapso abrupto cerca de dois anos depois.
Naquele período, o aquecimento das águas foi temporário. Com a rápida volta das temperaturas mais baixas, a população de polvos diminuiu drasticamente. Agora, a grande incógnita é saber se o mesmo processo se repetirá.
Por essa razão, especialistas consideram prematuro investir em adaptações estruturais para atender ao aumento das capturas. A recomendação é aguardar para ver se o fenômeno se estabiliza ou se trata apenas de uma consequência temporária das alterações climáticas observadas nos últimos anos.