Segundo o procurador, Quentin foi atacado por "ao menos seis indivíduos mascarados e encapuzados" por volta das 18h locais, nos arredores de uma instituição de ensino superior onde acontecia uma conferência da eurodeputada Rima Hassan, política francesa de origem palestina do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI).
Thierry Dran acrescentou que a Justiça francesa busca identificar os agressores e detalhou como os fatos teriam ocorrido no dia 12 de fevereiro. Segundo ele, o grupo teria partido para cima de seguranças ligados ao coletivo de extrema direita 'Némésis', conhecido por realizar assédio online contra ativistas feministas e figuras políticas mulheres de esquerda. A movimentação provocou a dispersão da maioria das pessoas ao redor e o isolamento de três jovens, que foram derrubados e espancados repetidas vezes.
Vídeos analisados pela polícia mostram três jovens sendo atacados com chutes e socos, um deles permanecendo caído no chão, aparentemente inconsciente. Uma fonte próxima ao caso confirmou que houve uma "batalha campal entre membros da ultradireita e da ultraesquerda" nas ruas próximas ao campus.
Dois deles conseguiram fugir, e Quentin foi deixado desacordado no local. Um amigo o encontrou "ainda consciente e falando", mas seu estado piorou rapidamente. Os amigos chamaram o socorro, que encontrou o estudante incapaz de andar.
O procurador afirmou que, ao ser atendido, o jovem apresentava lesões graves na cabeça, incluindo um traumatismo cranioencefálico maior, considerado "mortal a curto prazo e além de qualquer possibilidade terapêutica". Quentin morreu no sábado (14), dois dias após a agressão.
Investigações por homicídio doloso
Mais de 15 testemunhas já foram ouvidas, e as imagens disponíveis seguem em análise. Nenhuma prisão foi realizada até o momento.
A investigação, inicialmente aberta por agressão que resultou em morte, foi reclassificada como homicídio doloso e ampliada para incluir violência agravada (por reunião, uso de armas e dissimulação de rosto) e associação de malfeitores. O caso está sob responsabilidade da divisão territorial de crimes da polícia de Lyon.
O procurador insistiu em que os investigadores trabalham com "elementos concretos, não rumores" e que a identificação dos envolvidos deve ocorrer antes de qualquer comunicação sobre o perfil dos agressores.
Repercussões políticas
O caso desencadeou forte debate político a um mês das eleições municipais, último grande pleito antes da presidencial de 2027. No sábado, o presidente Emmanuel Macron pediu "calma, moderação e respeito", condenando "os autores dessa ignomínia".
O governo aponta a proximidade do partido França Insubmissa com o grupo envolvido no caso. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, afirmou: "Foi a ultraesquerda que matou, isso é incontestável."
Na manhã desta segunda-feira, o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, disse à rádio France Inter que "houve um confronto que terminou em linchamento" e que, para ele, não há dúvidas do envolvimento da Jeune Garde. O ministro do Interior declarou haver testemunhos que apontam para a possível participação de militantes associados ao grupo, mas ressaltou que somente a investigação poderá confirmar essa hipótese.
A Jeune Garde nega envolvimento e afirma ter suspendido todas as atividades desde a sua dissolução. Seu fundador, Raphaël Arnault, atualmente deputado da sigla LFI, manifestou "horror e repulsa" pela morte do estudante.
A presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet, suspendeu o acesso ao Parlamento de Jacques-Elie Favrot, assistente do deputado Raphaël Arnault, por seu nome ter sido citado "por várias testemunhas" no local onde ocorreu a agressão. Ela justificou a medida afirmando que a presença do assessor na Casa poderia "perturbar a ordem pública".
O governo, por meio de sua porta-voz Maud Bregeon, acusou o partido LFI de ter "responsabilidade moral" por fomentar "um clima de violência". Lideranças da esquerda, incluindo a ecologista Sandrine Rousseau, rejeitaram as acusações afirmando que nenhuma ligação entre o partido e os agressores foi estabelecida pela investigação.
Quem era Quentin Deranque
O estudante Quentin Deranque foi descrito por grupos nacionalistas como militante de um coletivo local "nacionalista-revolucionário". Ex-integrante da Action Française (Ação Francesa), ele atuava na segurança de militantes do movimento identitário Némésis, que protestavam contra a conferência de Rima Hassan na noite da agressão.
RFI com agências