'Brasileiras': editora francesa reedita ciclo histórico de vozes femininas contra a ditadura militar

Em entrevista à RFI, a escritora, professora e curadora de eventos literários Guiomar de Grammont fala sobre Brasileiras, livro publicado originalmente pela icônica Éditions des femmes, na França, a partir de entrevistas realizadas em 1977 por Maryvonne Lapouge-Pettorelli e Clelia Pisa com mulheres brasileiras que viveram, resistiram e pensaram o país sob a ditadura militar. A obra reúne relatos marcados pela afirmação do pensamento feminino, não apenas como um conjunto de memórias, mas como um ato político pautado pela circulação internacional de ideias e pela presença de intelectuais como Clarice Lispector, Carolina Maria de Jesus e Ruth Escobar, entre outras.

16 fev 2026 - 11h38

Ao dar início à conversa, Guiomar de Grammont recoloca "Brasileiras" em seu tempo histórico, destacando a violência estrutural vivida por muitas das entrevistadas. "Trata-se de um período de repressão extrema, quando mulheres eram presas, perseguidas, torturadas e silenciadas pelo regime militar", diz. A diversidade das vozes reunidas por Clelia Pisa e Maryvonne Lapouge-Pettorelli, em 1977, ganha ainda mais peso nesse contexto, segundo a escritora, reunindo mulheres intelectuais, artistas, ativistas políticas e trabalhadoras do campo, "compondo um retrato amplo e profundamente diverso da condição feminina".

Para celebrar os 100 anos do nascimento da escritora brasileira Clarice Lispector, a mítica Éditions des femmes lança uma caixa especial com a versão francesa de A paixão segundo GH e A Hora da Estrela.
Para celebrar os 100 anos do nascimento da escritora brasileira Clarice Lispector, a mítica Éditions des femmes lança uma caixa especial com a versão francesa de A paixão segundo GH e A Hora da Estrela.
Foto: © Arquivo pessoal / RFI

O livro mostra como experiências tão distintas coexistem, expondo "as múltiplas camadas de opressão que atravessavam o cotidiano das mulheres naquele período, revelando desigualdades de classe, raça, território e acesso à palavra", construindo um mosaico do Brasil feminino raramente visto na narrativa oficial do país. "Bem, as mulheres daquele momento estavam vivendo um contexto duríssimo de repressão, muitas delas estavam sendo feitas prisioneiras, torturadas. E isso foi o que mais ressaltou para mim na diversidade das vozes que foram ouvidas pela Clelia Pisa e Maryvonne Lapouge-Pettorelli", diz Guiomar de Grammont.

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Ao refletir sobre o sentido de escutar essas mulheres hoje, ela associa a escuta contemporânea à necessidade de resgatar a luta e a resistência presentes nos depoimentos. "A leitura atual cria uma ponte com mulheres que hoje vivem situações de violência e opressão, conectando passado e presente em um gesto político de memória e solidariedade", diz Grammont.

"As experiências narradas", diz a pesquisadora e programadora que assina o prefácio desta reedição, que será lançada em 19 de fevereiro de 2026, "ecoam em mulheres palestinas, ucranianas, brasileiras de favelas e das comunidades populares". Para Guiomar de Grammont, a reedição do livro tem potencial para tocar leitoras de hoje, mais conscientes e atravessadas por transformações culturais profundas, mantendo uma conexão direta com as mulheres que viveram antes dos anos 1980. "Eu sinto, assim, um desejo de resgate dessa luta, sabe? Um desejo de resgate dessa resistência, com desejo de estar próxima da mulher palestina, da mulher ucraniana, da mulher da favela brasileira, da comunidade. E é assim que eu espero que a reedição desse livro venha a tocar também as leitoras de hoje, que já são leitoras mais conscientes, que já viveram a revolução cultural, mas há uma conexão profunda entre essas mulheres desse tempo que antecedia os anos 1980 e nós", completa ela.

Escuta como ato político

A ideia de convergência de lutas aparece como uma chave de leitura central. Muito antes de o termo se consolidar no vocabulário feminista contemporâneo, os depoimentos já articulavam raça, gênero, classe e território de forma inseparável. O livro antecipa debates que hoje ocupam o centro das discussões políticas e culturais no Brasil e fora dele.

Guiomar de Grammont observa que, apesar dos avanços, a violência persiste, como mostram assassinatos políticos recentes, como o de Marielle Franco. Mulheres negras e indígenas conquistaram maior protagonismo, mas Brasileiras permite perceber que o poder patriarcal e militar ainda opera de maneira brutal. "É isso mesmo. Houve uma evolução até no sentido de que essas mulheres negras, mulheres indígenas, elas apareceram hoje com muito protagonismo. Mas houve também violências terríveis muito recentes, como o caso Marielle Franco", afirma.

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Relendo os depoimentos, a escritora se impressiona com a coragem e a autenticidade das entrevistadas. "O contexto da publicação no exterior permitiu que elas falassem com franqueza impossível nos jornais ou artigos no Brasil da época", afirma.

Essas mulheres se dirigiam a outras mulheres, "em um espaço seguro criado pelas entrevistadoras". Para Guiomar de Grammont, essa possibilidade de revelar integralmente experiências que não poderiam ser verbalizadas em outros meios constitui a maior contribuição da obra. "Olha, elas foram muito verdadeiras, muito autênticas, de uma coragem extraordinária. Talvez porque estivessem falando para outras mulheres, para um livro que não seria publicado no Brasil. Então, a gente tem que ver de que forma esse contexto acabou fazendo com que elas se revelassem muito inteiramente. Nisso reside, para mim, assim, a maior contribuição dessa publicação. Elas não podiam falar daquela forma para jornais, nos seus artigos, né? Não podiam falar publicamente da forma como elas vão falar para Clelia e Maryvonne Lapouge", comenta.

Clelia Pisa, que chegou a Paris em 1951 com Arthur-Luiz Piza, foi jornalista, consultora editorial e prefaciadora de obras de Clarice Lispector, Mário de Andrade e Carolina Maria de Jesus. Maryvonne Lapouge-Pettorelli, tradutora, difundiu a literatura brasileira na França, apresentando obras fundamentais de autoras e autores brasileiros. "A Clelia trabalhou diretamente com obras da Clarice, da Carolina Maria de Jesus. A Maryvonne teve um papel central na difusão da literatura brasileira na França", recorda Guiomar de Grammont.

Nesse sentido, Brasileiras pode ser lido como uma tradução política do Brasil. O livro, segundo Grammont, assume a forma de "manifesto, revelando à França a situação das mulheres brasileiras e transformando o país europeu em aliado simbólico da luta por libertação".

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O alvo da denúncia não é apenas o patriarcado, mas "um patriarcalismo militar e autoritário, que controlava corpos, discursos e trajetórias femininas". Para Guiomar de Grammont, a publicação no exterior amplia o alcance político da obra. "Sem dúvida. Eu vejo esse livro como um manifesto. Elas estavam, naquele momento, imbuídas do desejo de revelar para a França e tornar a França uma aliada no sentido da libertação dessas mulheres brasileiras, que eram oprimidas não só por um sistema patriarcal, mas por um patriarcalismo militar, um patriarcalismo autoritário e opressor em todos os sentidos, inclusive dos corpos femininos", explica.

Entre França e Brasil: um manifesto feminino

A origem do projeto envolve encontros decisivos fora do Brasil, especialmente entre Ruth Escobar e Antoinette Fouque, fundadora das Éditions des femmes. A iniciativa permitiu que exílio, feminismo transnacional e circulação internacional de ideias se convertessem em ação editorial política.

Desse encontro nasceu a publicação concreta do livro, tornando possível uma voz para mulheres que não poderiam falar livremente no Brasil. Para Guiomar de Grammont, essas articulações internacionais são fundamentais para compreender a força histórica da obra. "É engraçado porque tem escritoras e escritoras feministas francesas. Estou pensando na Lola Lafond, na Virginie de Pont, contemporâneas, que falam muito em convergência de lutas. Quando você fala em mulheres palestinas, mulheres negras, mulheres indígenas, é um pouco sobre isso que você está falando agora", observa.

Entre os depoimentos, há um relato que se destaca pela intensidade: o de uma mulher anônima, presa na chamada "Torre das Donzelas", local onde também esteve Dilma Rousseff. Ela descreve torturas e violações, mas não revela o próprio nome por medo.

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O silêncio imposto, ao lado da coragem do testemunho, sintetiza a brutalidade do período. Guiomar de Grammont também destaca sua ligação pessoal com depoimentos de Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus, que dialogam diretamente com o papel histórico e literário dessas autoras. "Bom, eu tenho um depoimento preferido, mas a personagem em questão nem foi nomeada, ela estava na Torre das Donzelas, na chamada, entre aspas, Torre das Donzelas, onde Dilma Rousseff também estava e foi torturada", lembra.

"Ela não ousa dar o seu nome, porque ela tem muito medo e ela revela toda a tortura que ela sofreu, as violações, né? Então, tudo que atingiu naquele momento, esse é o depoimento que mais me tocou. Em todo o livro, mas é claro que eu também, eu trabalhei com Clarice Lispector, editei um livro de artigos sobre Clarice e a filosofia, então eu também tenho a minha predileção pelo depoimento da Clarice e da Carolina de Jesus, me inspirando no que ela significa e significou para o Brasil", relata.

Ao final, Guiomar de Grammont reafirma a atualidade do livro, que coloca a escuta no centro da política, da memória e do feminismo. Mais do que um documento histórico, Brasileiras funciona como um espelho incômodo do presente. "Eu sinto, assim, um desejo de resgate dessa luta, sabe? Um desejo de resgate dessa resistência", conclui.

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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